José Manuel Fernandes*

Originalidades da povoação

A cidade da Ribeira Grande implanta-se de forma rara no conjunto das ilhas açorianas, pois desenvolve-se ao longo de uma costa norte, na ilha de São Miguel, contrariamente à maioria dos núcleos urbanos históricos principais do arquipélago (e também dos da Madeira), instalados nas costas meridionais.

Urbe com vocação agrária (os seus múltiplos moinhos de ribeira alimentaram com farinha a cidade de Ponta Delgada, durante séculos), está envolvida por terrenos de cultivo em todo o seu hinterland sul – e, em termos de articulação costeira, podemos dizer que está “de costas viradas ao mar”, ou seja, naturalmente orientada de forma a estar protegida dos “ventos e marés” do agreste quadrante norte.

O portentoso escadório da Igreja de Nossa Senhora da Estrela, com a igreja acima, vista da torre municipal. À direita, a rua da Matriz, que liga o largo da Matriz ao da Câmara.

Vila em 1507, com os inícios históricos difíceis, marcados por catástrofes naturais, a povoação só foi elevada a cidade já no século XX (1981); mas vimos assistindo, nas décadas mais recentes, a um desenvolvimento urbano intenso, com o correlato crescimento e expansão da área edificada.

Instituto Geográfico e Cadastral / Campanha de 1976: planta da freguesia da Matriz, Ribeira Grande, escala 1/2.000 (secção A).
Estão assinalados: o leito da Ribeira Grande, com as duas pontes, os largos centrais e seus edifícios (Hintze Ribeiro, 5 de Outubro e Gaspar Frutuoso), e a rua direita (rua de El-Rei D. Carlos I / rua do Passal, rua do Rosário). Também se vê toda a malha urbana do lado oriental da ribeira, e o baluarte de Nossa Senhora da Estrela, no extremo norte da rua do Castelo.

A estrutura urbana da área mais antiga da Ribeira Grande está marcada por uma segunda originalidade (igualmente em relação às outras urbes açóricas) que se exprime em termos da sua paisagem e da forma urbana: trata-se da forte presença, a céu aberto, da longa e declivosa ribeira, que deu o nome à povoação e que ainda marca claramente o seu centro principal, atravessando-o de lado a lado, de sul para norte (ao contrário de outros núcleos urbanos, a ribeira não foi encanada, mantendo portanto a sua presença física e visual). Por esta via, a cidade apresenta ainda uma marcada e atraente feição ruralista, funcionando agora a área da ribeira como suporte de jardins e pequenos espaços de relação com a água.

Vista aérea da Ribeira Grande (F.A.P.), in Arquitectura Popular dos Açores, pág. 97. Abrange toda a área central da cidade, com a linha de costa e a Ribeira Grande, bem como a rua direita, desde a entrada na rua do Rosário (a nascente) até ao antigo convento franciscano (Hospital), do lado poente.

Significado urbano da arquitectura monumental ribeiragrandense

Este centro da Ribeira Grande, por sua vez, define-se historicamente pela praça (ou largo Hintze Ribeiro), com o jardim de gosto oitocentista preenchido pelos fabulosos e altos metrosíderos (inicialmente oito), frente ao arco e torre municipal – situados perto da Matriz, e tendo ao lado a portentosa fachada barroca da Misericórdia ribeiragrandense.

O edifício da Câmara Municipal, a Igreja Matriz da Estrela e a Igreja da Misericórdia formam como que um “triângulo” de arquitectura, decoração e urbanidade, que no seu conjunto constituem dos melhores exemplos do “barroco açórico”, quer como espaço e desenho, quer como criação de um ambiente urbano. O edifício municipal, que obedecia na sua forma inicial e seiscentista ao modelo corrente de “casa de câmara” da ilha, com um volume prismático simples, de dois pisos principais, servido por escadório duplo de composição simétrica em relação à fachada, foi ampliado no século XVIII com um corpo lateral e torre. Entre as duas construções – a inicial e a ampliação – ergueu-se então, sobre a rua que as separava, um portentoso arco redondo, de grosso embasamento e barroquizante contraste de pedra negra e cal branca, criador de uma “expectativa cénica” para quem sob ele passa.

 
Vista geral da ribeira da cidade da Ribeira Grande, desde a torre da câmara. Vê-se a Ponte dos Arcos e as áreas ajardinadas do leito da linha de água. Vista sobre a malha urbana a nascente da Ribeira, com as antigas ruas de João Franco e da Praça, desde a torre municipal.
   
As belíssimas árvores (metrosíderos) no largo Hintze Ribeiro. Vista sobre o vasto espaço agrícola para sul da área central da cidade, desde a torre municipal.

Por sua vez, a lisa fachada da Matriz (reconstruída em 1680-1736) é complementada por um vigoroso adro-escadório, que a articula, em conjunto com o largo fronteiro, de uma forma visual e dinâmica, com a rua de ligação ao largo municipal. Assim, os dois monumentos centrais da cidade surgem inter-relacionados visualmente, por via da sua implantação mas sobretudo pela criação de dois elementos construtivos imaginosos e enfáticos, um grande arco (na câmara) e um vasto escadório (para a igreja).

Um terceiro elemento, embora um pouco alheado de uma ligação visual directa com os dois já referidos – a igreja da Misericórdia (do Espírito Santo, ou dos Passos), vale pela sua eficácia figurativa, quer na relação com o eixo viário principal – a sua fachada coloca-se perante a rua principal e a respectiva ponte (a “Ponte Velha”), de acesso à praça central – quer pelo próprio desenho, intensamente volumétrico, dinâmico e contrastado, da fachada.

Por sua vez, o pesado volume do teatro, edificado na transição dos séculos XIX-XX, quase fronteiro à Misericórdia, estabelece um diálogo de contraponto com esta.

 
Vista sobre o jardim do largo Hintze Ribeiro, o largo 5 de Outubro, a ponte velha, o antigo teatro e um troço da rua direita. A rua “direita”, ou principal, vista desde o largo da igreja do convento franciscano – ao fundo, a eixo do arruamento, a torre da igreja da Conceição marca com clareza a freguesia homónima, do lado ocidental da ribeira.

Possíveis evoluções da malha urbana

  Segundo os relatos de Gaspar Frutuoso, do final do século XVI, e através da análise do tecido urbano actualmente existente na área central, podemos tentar a reconstituição da evolução urbana da vila ao longo dos primeiros séculos da sua implantação.

Deste modo, e para além de uma estrutura primeva de carácter proto-urbano, que certamente deveria ter-se implantado de modo linear ao longo e paralelamente ao leito da ribeira (que corre no sentido sudeste-noroeste), a actual estrutura de malha irradiante, existente a nascente daquela linha de água, teria correspondido ao primeiro núcleo planeado, com desenho claramente geométrico, da povoação. Os arruamentos definidores dessa malha estariam, como ainda estão, de modo dominante, igualmente orientados no sentido sul-norte.

Depois das catástrofes de 1563 (com tremores de terra e a erupção da área da Lagoa do Fogo, cujos materiais expelidos soterraram muita da área urbana então existente), foi tempo de reconstrução, e, progressivamente, de orientação do crescimento da vila para ocidente, galgando a ribeira e estabelecendo “pontes” na direcção da estrada para Ponta Delgada – a qual, como se disse, os moinhos da Ribeira Grande ajudavam a alimentar. Gaspar Frutuoso refere nas suas “Saudades da Terra” do final de Quinhentos, que “(...) agora tem (Ponta Delgada) a serventia das moendas, trabalhosa e quase insofrível dos compridos caminhos até à Ribeira Grande e Água de Pau, onde estão os moinhos”.

Vista da área central da Ribeira Grande, com o largo Hintze Ribeiro antes do crescimento das suas árvores. À esquerda, a câmara e sua torre; ao fundo a torre da igreja Matriz.
 
Vista de ângulo idêntico ao anterior (10), tirada recentemente.
 
A vista em contracampo da imagem anterior (11): desde o alto do escadório da Matriz, sobre a rua da Matriz, com a torre municipal ao fundo.

Ao longo dos séculos XVII e XVIII foi-se gradualmente estruturando a malha reticulada do lado ocidental da ribeira, inicialmente a partir do núcleo da Conceição (sede da freguesia), consolidada pelo conjunto das principais edificações civis, domésticas e religiosas da época. Como resultante deste processo de crescimento, hoje a estrutura viária e funcional do núcleo central da Ribeira Grande mede-se desde a instalação franciscana a poente (Hospital) até à saída a nascente, desenvolvendo-se ao longo de um cordão axial, uma característica “rua direita” (o eixo das ruas de São Francisco, da Conceição e da D. Carlos I), sensivelmente paralela à costa norte, com a qual se cruzam, ou donde irradiam, a maioria das vias secundárias e das travessas – e que inclui os principais edifícios residenciais e comerciais. Este arruamento de ligação “directa” entre extremos do povoado (este é o significado de via “direita”), penetra a área mais central da urbe junto à igreja franciscana, a poente, e dirige-se para este, até, sobre a ponte, galgar a ribeira e abrir no largo Hintze Ribeiro e Largo 5 de Outubro, onde como vimos se implantam respectivamente a Câmara e a igreja da Misericórdia. O eixo prolonga-se de seguida para nascente, em subida gradual, até atingir o largo do Rosário e a saída, desse lado do povoado, para a Ribeirinha e o Nordeste.

 
Igreja da Misericórdia, com a original fachada defrontando a rua “direita”.   Ribeira Grande, esquema da distribuição dos moinhos ao longo das ribeiras.

A praça central e municipal está articulada com o largo Dr. Gaspar Frutuoso e o vasto escadório da Igreja da Estrela (a matriz); a partir destes dois espaços abrem-se arruamentos, no sentido sul-norte, paralelos entre si, e que constituem a malha irradiante atrás mencionada, a qual remata nos espaços sacros de São Luís e de Santo André, bordejando as arribas e o mar. É ao longo destes arruamentos que se encontram muitos dos mais antigos e característicos edifícios seiscentistas e setecentistas, dentro do chamado “estilo micaelense”. No extremo norte da baía, as ruínas do antigo baluarte de Nossa Senhora da Estrela atestam as necessidades de defesa costeira deste local.

Intersectando pontualmente a referida retícula, os moinhos da cidade, com os seus canais e levadas, em gavetos e no interior dos quarteirões, induziam até há poucos anos, no ambiente urbano da Ribeira Grande, uma nota de ruralidade e de bulício, quer pela acção ruidosa e vibrante da moenda, quer pela sonoridade dos caudais de água em movimento, com o aroma da farinha moída alastrando nas ruas vizinhas.

Os séculos XIX e XX

  Já no século XIX, uma nova estrutura viária complementou a anteriormente descrita, numa linha a ela paralela, a norte, com a construção da chamada “Ponte dos Arcos”, sobre a ribeira, e com a edificação, a poente desta, do grandioso mercado neoclássico (bem pontuado pelas quatro grandiosas araucárias) no seu alinhamento.

O crescimento urbano da então vila da Ribeira Grande estacionou, ou estabilizou, ao longo de Oitocentos e grande parte do século XX. Só nas últimas décadas, e correspondendo a um novo crescimento da sua área urbana, a cidade da Ribeira Grande vem erigindo novas arquitecturas, nem sempre com a melhor qualidade.

Já no dealbar do século XXI, a construção do complexo municipal das novas piscinas, articuladas com um passeio de cais, aponta uma nova direcção, a da reabilitação da faixa costeira da cidade (enriquecida por exemplo com a requalificação da zona do bar-restaurante “Alabote”, pelo arquitecto Fernando Monteiro). Esperemos que a falada futura marginal, o chamado “Passeio Atlântico” seja entendida desejavelmente sobretudo para uma circulação e vivência pedonais, respeitando uma imagem de “cidade única” (porque costeira, virada a norte) e ecologicamente respeitável com é a da Ribeira Grande.

Último moinho de água da série de moinhos edificados sobre o canal de desvio da Ribeira Grande (ver esquema gráfico). Situava-se no extremo norte, já sobre a praia.
 
Moinho de três arcos, no gaveto da rua do Estrella com a da actual estação de camionagem.
 
Vista geral do antigo mercado municipal, no prolongamento da rua do Estrella.

Bibliografia

AAVV, Arquitectura Popular dos Açores, Ordem dos Arquitectos, [Lisboa], [2000].

FERNANDES, José Manuel, Cidades e Casas da Macaronésia, FAUP, Porto, 1996.

FERNANDES, José Manuel, Cidades e Arquitecturas, Livros Horizonte, Lisboa, 1999.

FERNANDES, José Manuel, “Ribeira Grande, Açores: Urbanismo, Arquitectura e Ornamento”, in revista Atlântida, vol. XLIV 1998-1999, Instituto Açoriano de Cultura, Angra do Heroísmo, 2000 (págs.179-186).

FRUTUOSO, Gaspar, Livro Quarto das Saudades da Terra, 3 vols., Instituto Cultural de Ponta Delgada, Ponta Delgada, 1977-87.

MONTEREY, Guido de, Santa Maria e São Miguel, ed. do autor, Lisboa, 1981.

* Licenciado em Arquitectura pela Escola de Belas Artes de Lisboa (1977). Doutorado pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa (1993), onde é professor agregado desde 1999. Co-organizador do Departamento de Arquitectura da Universidade Autónoma de Lisboa (em 1998).

O Inventário do Património Imóvel do Concelho da Ribeira Grande
Ribeira Grande: de Nobre Vila a Nova Cidade. Marcos na História de um Concelho
Ribeira Grande: Aspectos da sua Evolução e História Urbana
O «Estilo Micaelense»
São Miguel, Ribeira Grande
Inventário do Património Imóvel dos Açores
Última actualização em 2008-02-11