Luísa Noronha*

Aquela que é, simultaneamente, a ilha mais oriental e meridional das nossas nove ilhas, a ilha onde, como é usual dizer-se, “tudo começou”, possui, no âmbito do conjunto insular em que se integra, uma individualidade bem marcada. Ilha muito antiga, a mais antiga dos Açores, os diversos fenómenos de natureza eruptiva, sedimentar e tectónica por que passou desde o começo da sua génese condicionaram grandemente o seu relevo e, em consonância com a acção modeladora sobre ele exercida pelos agentes atmosféricos, deram-lhe uma conformação geográfica caracterizada por traços ao mesmo tempo originais e comuns a toda a sua extensão. Apesar de assente em arribas elevadas e rochosas, em regra a mais de 100m acima do nível do mar, ela é, com excepção do vigoroso dorso montanhoso que a atravessa, de relevo, por junto, fracamente acidentado, globalmente pouco elevada e ainda de formas vulcânicas bastante apagadas pela erosão. Há nela uma identidade de natureza e de relevo do solo que, aliada a condições gerais de clima, lhe imprime, natural e necessariamente, nítidas marcas de unidade física, caracteres que ao tempo da sua ocupação se revelaram favoráveis à fixação e que estão na base do aspecto quase uniforme das articulações fundamentais da sua paisagem rural, muito particularmente na do modo como a habitação se distribui pelo espaço. Porque é justamente o tipo do seu povoamento rural, tão característico e incomparável em todo o arquipélago, que mais concorre para o seu fundo humano comum: um povoamento disseminado e que penetra pelo interior, tipicamente disperso, afastado de um litoral que, por repulsivo, apenas em raros pontos o atraiu.

Mas a par da unidade, e com igual importância para a sua originalidade, há que ter em conta a diversidade. Santa Maria é, efectivamente, uma ilha de dois quadros humanos, de dois sectores que, apesar de evidentes semelhanças, apresentam uma forte personalidade. São, é certo, partes do mesmo todo, divisões que não põem em causa a básica uniformidade que ela, em termos físicos e humanos, patenteia; mas com características peculiares, singularidades que não derivam apenas das assimetrias de relevo e decorrentes cambiantes climáticos. Elas são essencialmente o resultado de uma humanização secular, obras de homens que, ao ajustarem-se aos caracteres de divisões individualizadas pela natureza, não deixaram de as modelar, sobrepondo, por vezes, e até demais, as suas influências às disposições naturais.

Marcadas por contraste de paisagens, que se opõem por diversos elementos, de entre os quais importa destacar as características do revestimento arbóreo-arbustivo e do aproveitamento e valorização dos solos, essas duas regiões diferem ainda do ponto de vista económico e social. Cada uma delas é o produto de uma longa evolução histórica, a expressão de relações profundas entre os homens e as possibilidades locais. E se algumas das suas características diferenciais revelam permanência, evidenciando a força da inércia de que as regiões, e em especial as paisagens, são tantas vezes capazes, outras há de origem mais recente e que dimanam de uma mutação espacial e de modificações económicas e sócio-culturais subsequentes à construção de um aeroporto que, em virtude da posição geográfica da ilha e sobretudo das condições geo-climáticas da sua zona mais ocidental, foi, por vários anos, placa giratória do tráfego aéreo do Atlântico Norte.

Hoje de arvoredo rarefeito a oeste e em quase toda a parte fortemente marcada pela actividade humana, Santa Maria encontrava-se aquando da sua ocupação revestida de uma densa cobertura de árvores e de arbustos. As suas novas condições de clima, de relevo e de paisagem vegetal devem, certamente, ter impressionado os seus primeiros povoadores. É verdade que nela não depararam, ao contrário do que sucedeu na maior parte das demais, com testemunhos de vulcanismo recente. Mas nem por tal deixava de ser uma terra estranha, com litoral de difícil domínio, despovoada, um tanto selvática e de magros recursos alimentares. Apesar disso, a capacidade de resposta às exigências desse novo meio não se fez esperar: cedo, muito cedo, teve início a produção de espaço para a cultura do solo e criação de gado e logo surgiram na sua inóspita paisagem os primeiros sinais da presença do homem. Cedo se esboçaram os traços mais marcantes da sua geografia humana, traços de unidade e de diversidade, resultantes das condições oferecidas pela natureza ao estabelecimento do homem e da acção modificadora por ele exercida. E que, associados à originalidade da sua constituição geomorfológica, determinaram e explicam a sua bem vincada individualidade dentro do conjunto insular.

No período que mediou entre finais da década de 1420, época em que Santa Maria foi encontrada – ou talvez apenas reencontrada – e o início do decénio de 1440, altura em que se verificou a sua ocupação definitiva, decorreram os preparativos para a fixação. Foi a fase do lançamento de várias espécies animais, da análise das condições que a ilha apresentava para ser povoada e da escolha da zona que oferecia maiores possibilidades para o arranque decisivo do povoamento. É certo que a escassez de informações não autoriza respostas seguras no que toca aos contornos e à cronologia deste processo. Mas não é menos verdade que de várias fontes narrativas, não obstante a confusão entre viagens de descobrimento e de exploração ou de povoamento, facilmente se infere o experimentalismo locativo verificado na primeira metade de Quatrocentos.

A tradição, mitificada e, naturalmente, deformada, guardou memória desses primeiros ensaios de implantação de assentamentos humanos e Gaspar Frutuoso, a propósito do nome dado à freguesia que cobre a parte sul do sector oriental, registou-a nos seguintes termos: “...nas terras feitas ao Campo da Marcela, por a haver nele, chama-se ali Santo Espírito, onde dizem os antigos que na ilha se disse a primeira missa do Espírito Santo, quando entraram nela, e dali ficou a nomear-se ainda hoje em dia esta freguesia de Santo Espírito, sendo ela depois edificada, como agora está, da invocação da Purificação de Nossa Senhora, sem perder aquele nome antigo. E, por não achar neste dito campo conveniente lugar para povoação e vila, se foram a Santa Ana, como direi depois em seu lugar adiante.” 1

Por outro lado, é nessa fase preparatória que reside certamente a explicação para o topónimo Povoaçam Velha que se encontra inscrito no mapa traçado, cerca de 1507, por Valentim Fernandes, junto a uma zona correspondente à actual baía de S.
Lourenço, precisamente o mesmo local onde, mais tarde, no decénio de 1580, o cartógrafo Luís Teixeira irá colocar Villa da Prainha 2. De facto, não só os dados de que se dispõe sobre a evolução do povoamento não confirmam que nesse lugar se
tenha situado um núcleo dos primitivos povoadores, como não é de admitir, tendo em conta o referido período de exploração, que a escolha da parte NNW da ilha se tenha verificado após 1439, ano em que, por carta de D. Afonso V, o infante D. Henrique recebeu autorização para povoar as sete primeiras ilhas dos Açores 3. É antes de aceitar-se que essa zona, pela acessibilidade do seu litoral e, sobretudo, pela estrutura do seu relevo e consequente facilidade de penetração que mostrava, desde cedo tenha atraído as atenções. Deste modo, tudo leva a crer que o mencionado topónimo esteja relacionado com a tentativa, nesse período experimental, de criação de um aglomerado urbano, possivelmente aquele a que acima fizemos referência, com base nos informes do Cronista das Ilhas.

Reconhecida que foi a inexistência no sector oriental da ilha de um “conveniente lugar para povoação e vila”, o lançamento decisivo do povoamento decorreu então na região de Santa Ana, isto é, na parte NNW da ilha, um espaço que, pela sua fisionomia geomorfológica, se afigurou como o mais adequado a um imediato aproveitamento 4. Nessa zona, de fácil acesso e de relevo apenas suavemente ondulado, particularmente propícia à expansão do povoamento e à implantação das culturas, surgiram então aqueles que podem ser considerados os primeiros aglomerados de povoadores: na foz da Ribeira do Capitão (hoje de Santana), junto à baía dos Anjos – a que na costa NNW melhor fundeadouro e ancoradouro oferecia – e, mais para o interior, em terras favoráveis à cerealicultura, originando um pequeno aglomerado donde nasceria o futuro lugar de Santa Ana (hoje Santana) 5.

Mas esta região, apesar das suas grandes potencialidades, era uma região de virtualidades basicamente rurais, não apresentando, portanto, as condições mais adequadas ao estabelecimento de um centro urbano. Daí que não seja de admirar que se tenha optado por centrar na parte sul da plataforma ocidental as funções urbanas da ilha. E daí que não seja de estranhar que a maioria dos povoadores desembarcados na ilha na década de 1450, conforme um regimento de justiça de 1460 indicia, se tenha orientado para a costa sul, tendo sido atraída por uma lomba que dominava uma vasta enseada e que se integrava numa zona de características climáticas mais próximas da área mediterrânica de origem de muitos dos povoadores, com condições pedológicas e climatéricas favoráveis ao cultivo da quase totalidade dos produtos alimentares que formavam a base da dieta tradicional desses iniciais ocupantes e que, para mais, era rica em água, elemento que, além de interferir, natural e necessariamente, na fixação das comunidades humanas, condiciona, como é bem sabido, a agricultura e a pecuária, bem como as técnicas, as indústrias artesanais e o comércio 6.

Esse modesto núcleo habitacional implantou-se na parte nascente da lomba, junto da Ribeira Grande, (hoje de S. Francisco), e acima da Ermida da Conceição. Junto da Ribeira Grande, porque esta era um curso de água que terminava, no dizer de Gaspar Frutuoso, “numa praia muito bem assombrada, que tem um poço, junto do mar, de água doce“; uma ribeira que entrava no mar “em areia muito rasa, onde está um porto que foi o primeiro de que usaram os antigos habitadores da Vila [o Calhau da Roupa] ...e dele tomou o nome de Vila do Porto7. E acima da Ermida da Conceição, porquanto este templo, não obstante ter sido a primitiva paroquial, foi erecto cedo, muito cedo, na entrada desse espaço recém-ocupado, precisamente como sinal da consagração do mesmo, tendo surgido, tal como a Ermida dos Anjos – aquela que foi o primeiro templo edificado na ilha, e que é, provavelmente, o mais antigo templo dos Açores dedicado à Virgem, se não mesmo o mais antigo do arquipélago – como limite, como fronteira, como resultado da necessidade, cedo experimentada, da protecção de uma força divina que se opusesse às perturbações do ambiente natural e como indicador, para quem quer que chegasse, de uma permanente comunicação com o sagrado 8.

Por motivo das suas potencialidades geo-económicas, tal povoado depressa logrou suplantar os restantes. Cerca de 1470, foi elevado à qualidade de vila e, favorecido pela topografia do relevo – que condicionou a sua configuração (um aglomerado estreito e alongado) – e ainda pela recuperação demográfica e económica ocorrida na Europa a oeste do Elba – que impulsionou a vontade política das entidades intervenientes, com o consequente arranque definitivo da colonização açoriana –, cresceu rapidamente para norte, a ponto de se poder afirmar que na viragem do século XV para a centúria quinhentista estava já lançada a estrutura fundamental de Vila do Porto, a que o douto Gaspar Frutuoso nos legou e que a conjugação das informações que o mesmo nos transmitiu com outras referências documentais “obrigam” a que se a denomine como a estrutura de Vila do Porto propriamente dita: três ruas compridas, entre cortadas por azinhagas e travessas e das quais se destacava a Rua Direita, onde vivia a aristocracia 9. Efectivamente, como indicadores desse rápido crescimento urbano podem ser apontados, entre outros, menções documentais que consentem datar a edificação de certas habitações – algumas delas, infelizmente, já desaparecidas –, elementos góticos e manuelinos ainda hoje existentes em várias construções e a erecção, nos finais do século XV / inícios do século XVI, da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção.

Na definição da malha urbana, foram determinantes certos elementos que, na sua totalidade, se relacionaram com a Rua Direita: elementos religiosos e políticos, traduzidos na construção ao longo daquela rua de edifícios de importância pública e
ainda o chafariz, a, na expressão de Frutuoso, “formosa fonte de três canos de água“, que se situava acima da Igreja Matriz, “quase defronte dela“. A Rua Direita com o seu prolongamento – “um caminho a modo de rua muito larga, que vai correndo antre sarrados e acabar antes que cheguem a uma ermida de Santo Antão, que está em um alto“, onde ficavam algumas casas, “as mais delas de palha“, e que no ocaso do século XVI era ainda considerado como arrabalde da Vila – foi, na verdade, o eixo organizador do traçado urbano. Através dela a Vila cresceu; e paralelamente a ela foram criados eixos com prolongamentos que se localizavam já no arrabalde e onde estavam instalados os estratos sociais mais débeis, em coincidência, de resto, com actividades mais poluentes e degradadoras do ambiente.

Na década de 1600, os franciscanos, de acordo, aliás, com a tradição monástica, iniciaram no arrabalde a construção do Convento de Nossa Senhora da Vitória. Tal facto constituiu um foco aglutinador do povoamento e contribuiu para que nessa centúria se assistisse a uma consolidação do tecido periurbano, tecido esse que no dealbar do século seguinte era já parte integrante de Vila do Porto propriamente dita. Ou, ditas as coisas por outras palavras, o arrabalde fundira-se com a Vila e a partir de então desenhou-se a tendência para a transformação do arrabalde no centro de gravidade do aglomerado.

As razões, sobretudo estratégicas, donde decorreu o arranque, em termos definitivos, da ocupação e povoamento dos Açores a partir da década de 1470 – o que se prende, em última instância, com a nomeação, em 1474, do príncipe D. João (futuro D. João II) para principal responsável da política ultramarina – condicionaram o processo da urbanização açoriana. E, a este propósito, tem sido bem destacado o “manifesto artificialismo” desta primeira etapa da urbanização nos Açores, traduzida em criações urbanas quase reduzidas a funções político-administrativas e militares e com uma muito débil intensidade de participação no jogo geral das trocas 10. Na realidade, há que concordar não só com o qualificativo como ainda com a caracterização que é apresentada das vilas açorianas quatrocentistas. Mas cremos, no entanto, que se torna necessário distinguir, no que respeita à fase inicial de promoções urbanas açorenhas, distintos níveis de artificialismo. Com efeito, as ilhas onde o seu processo de povoamento se iniciou mais cedo e que o realizaram mais intensamente, conseguiram, naturalmente, sustentar processos de gestação urbana menos artificiais, em especial quando auxiliadas pela qualidade dos seus portos. E acreditamos, na verdade, ter sido este o caso da ilha mariense e da sua Vila do Porto.

Porque, efectivamente, na viragem do século XV para a centúria quinhentista, a função urbana de Vila de Porto não se limitava aos atributos institucionais de sede do município e cabeça de capitania. Assentava também na sua vocação marítima, na sua cada vez maior actividade mercantil (comércio do trigo e das plantas tintureiras) e no trabalho dos seus artífices 11. Não se pode, é certo, ignorar que a maioria dos seus habitantes se dedicava às actividades primárias. Mas também não se deve esquecer que essa era a actividade maioritária entre os habitantes de larga parte das cidades europeias do século XV, como não se pode ignorar que nos Açores de hoje são ainda bastante ténues as fronteiras entre campo e vila / cidade. Porém, o que importa realçar é que Santa Maria, através da sua Vila do Porto, com o seu trato de cereais e de plantas tintureiras, não deixou, no período em questão, de participar, de forma relativamente modesta mas bem activa, de uma economia-mundo em expansão, num complexo histórico-geográfico que teve como principais elementos dinâmicos a Rota do Cabo e o comércio das especiarias. A esse trato em que cedo participou e à sua inserção no mencionado complexo, deveu, sem dúvida, Vila do Porto a sua afirmação e o seu sucesso, bem como a rápida expansão do seu tecido urbano no último quartel do século XV e no dealbar de Quinhentos, época em que eram bem estreitos os laços que uniam Santa Maria a outros espaços da Macaronésia, muito particularmente com a sua ilha vizinha – a de S. Miguel, por onde já então passava boa parte das exportações marienses – mas também com os arquipélagos da Madeira e das Canárias.

De facto, impõe-se relevá-lo, ainda que “periférica”, Santa Maria integrou-se desde cedo no complexo mediterrânico através do comércio dos grãos, tendo ainda participado nas trocas com o complexo atlântico, inserindo-se, sem dúvida, no intenso movimento que então ocorria no Atlântico. Também nela, cedo, muito cedo, a economia aliou o auto-consumo à produção mercantilizada e a sua população viveu da terra com os olhos postos no mar; num mar por onde chegavam e partiam as mercadorias e por onde circulavam as pessoas e as “novas”; num mar por onde, desde cedo, partiram gentes de diversificadas condições sociais que, em busca de melhores condições de vida, se fixaram noutras paragens, participando, deste modo, na construção de novos domínios do ultramar português e de outros espaços, com destaque, naturalmente, para o grande Mundo Atlântico e, muito particularmente, para o Brasil. Tratou-se, efectivamente, de um vasto e intenso movimento; de uma deslocação que, na centúria seiscentista, teve, fundamentalmente, como destino o Maranhão mas que levou à fixação de marienses em diversos locais do Brasil. Belém, Baía, Recife, Olinda, Rio de Janeiro e diversas “Vilas e lugares das Minas”, assim como Mato Grosso, foram locais de instalação de marienses; de gentes por vezes de elevada condição social que, ao fixarem-se nesses “novos” espaços, concorreram para a construção da realidade brasileira e, simultaneamente, para a da sua própria ilha. Estabeleceu-se, na verdade, uma autêntica inter-relação assente na troca de bens e na consequente circulação de informações e de pessoas, apesar de ter havido outras formas de contacto para além das relações comerciais.

Com efeito, além das grandes rotas das Índias, outras existiram que tocaram os Açores já durante o século XV e, muito particularmente, a partir do século XVI, designadamente as que zarpavam de S. Tomé, Cabo Verde, Costa Ocidental Africana e, evidentemente, do Brasil. Eram as rotas do Atlântico Central, com vista, sobretudo, à aquisição de açúcar e de escravos; rotas que, a par das outras, inseriram Santa Maria na economia de mercado e que abriram grandes possibilidades quer para o grupo dos produtores, quer, fundamentalmente, para os que se dedicaram à mediação mercantil, a que não desdenharam aderir alguns representantes da mais alta “nobreza da terra”, a “aristocracia” proprietária de terras que era, afinal, a principal produtora de vinho, de trigo e de pastel. E se os mareantes de Santa Maria atravessavam o Atlântico e uniam, com frequência, a sua ilha ao vasto espaço brasileiro, pretos(as), baços(as) e pardos(as) acompanhavam os seus senhores, fixando-se na ilha e, forros(as) ou não, integravam-se na sociedade de um espaço cuja paisagem humanizada sofreu, também ela, e como adiante se salientará, a “influência” do Brasil.

A estrutura urbana básica de Vila do Porto – dessa vila única no contexto do arquipélago, tipicamente mediterrânica, onde há uma combinação perfeita entre o “porto” e a “acrópole” – estava já, como atrás salientámos, constituída no dealbar do século XVI. Rodeada de terras férteis, alcandorada, aliando, assim, a possibilidade de defesa a um amplo e directo contacto com o mar, Vila do Porto – essa vila que actualmente é, por motivo da sua forma geral e pelo aspecto físico dos seus elementos, a única urbe açoriana medieval – exercera uma forte atracção sobre o povoamento; e antes de findar quatrocentos era já, mercê da conjugação das suas potencialidades com as funções político-administrativas que lhe haviam sido atribuídas, o verdadeiro núcleo de vitalidade da ilha, dinamizando o intenso movimento de arroteia e povoamento que então se efectivava, especialmente ao longo da orla meridional mas também no sentido do mar para o interior, em direcção à Serra.

Embora não seja fácil precisar os primeiros tempos da ocupação do espaço mariense, há razões para se crer que a exploração das terras localizadas a leste de Vila do Porto se seguiu de perto à da parte sul da plataforma. É possível acreditar que a penetração em direcção ao interior, facilitada pela topografia e favorecida pelo crescendo populacional que se fez sentir na sequência do forte impulso que o povoamento do arquipélago recebeu a partir da década de 1470, tenha ultrapassado a zona planáltica de Almagreira e atingido a vertente ocidental do dorso montanhoso antes do início do século XVI. Na verdade, o Pico de João da Castanheira, sobre Almagreira, deve ser tomado como indício da progressão do aproveitamento da terra em direcção ao sistema montanhoso central. Note-se que João da Castanheira – o qual, posteriormente, passou à ilha de S. Miguel e nela se fixou, tendo sido em 1499 um dos dois primeiros juízes ordinários da então vila de Ponta Delgada – veio para Santa Maria no tempo de João Soares de Albergaria, segundo capitão do donatário, e em 1492-1493, por ausência daquele capitão, foi- lhe confiado o governo da capitania, tendo sido com ele que Colombo tratou quando passou por Santa Maria, em Fevereiro de 1493, no regresso da sua primeira viagem às Antilhas 12. Por outro lado, há notícia certa de que a valorização do que é hoje o povoado da Praia foi obra dos finais da centúria de quatrocentos, parecendo absolutamente aceitável que tal aproveitamento tenha levado à fixação dos homens nesse lugar 13. De onde poder ser dito que foi anteriormente ao século de Quinhentos que se criaram as condições materiais e humanas para que a sul se efectuasse a ligação poente / nascente, contornando-se a linha de montanhas. De resto, a precoce humanização da orla meridional do sector oriental é, também ela, reveladora do ritmo bastante rápido seguido pela ocupação da terra.

A toponímia e o conhecimento da implantação espacial de indivíduos pertencentes ou relacionados com a primeira geração nascida na ilha mostram, de facto, que essa área litorânea foi objecto de aproveitamento e pólo de fixação desde, pelo menos, o último decénio da centúria quatrocentista. No seu extremo ocidental, em Malbusca, residiu e teve propriedades Duarte Nunes Velho, da família de Gonçalo Velho e que testou em 1554 com mais de 90 anos de idade 14. Genes Corvelo, filho de mestre António Catalão – o qual, de acordo com Gaspar Frutuoso, teria vindo para Santa Maria a mandado do infante D. Henrique para ensinar o cultivo da cana sacarina – e contemporâneo de Duarte Nunes Velho, recebeu terras no local onde hoje se acha a Igreja de Nossa Senhora da Purificação e numa zona de extensão relativamente considerável, compreendida, aproximadamente, entre o sítio presentemente chamado a Terça, no lado leste da Calheta, sobre a Maia, e a Fonte do Jordão, nome talvez derivado de Jordão Nunes Velho, seu genro 15. Finalmente, e embora não se possa reconstituir com precisão o seu património, é de aceitar que Francisco Corvelo, irmão de Genes, se tenha estabelecido um pouco mais a sul, nas imediações do Cardal e junto da ribeira que de sua mulher, Guiomar Gardeza, tomou o nome – a Ribeira da Gardeza 16. E não restam dúvidas de que essa faixa litoral foi foco de irradiação do movimento, simultaneamente arroteador e povoador, que ainda na primeira metade do século XVI, mercê da sua progressão para o interior e em concomitância com o que desde o início dessa centúria se dirigia de norte para sul, faria do compartimento leste da ilha um espaço largamente dominado pelos homens e pelas culturas. Efectivamente, se as terras de Genes Corvelo atestam o avanço do processo de aproveitamento da parte sul da
região oriental, a erecção, como adiante veremos, do templo que veio a ser a Ermida de Santo António em data anterior a 1537 e o facto de o mesmo, sob a invocação de Nossa Senhora da Purificação, ter sido a primitiva paroquial da freguesia da mesma designação, confirmam também esse avanço.

Por motivo do incremento da população e devido também à facilidade de desbravamento oferecida pela relativa planura da região de S. Pedro, as terras mais altas da secção do poente, adjacentes à cadeia montanhosa, não estiveram por muito tempo isentas da presença humana. É verdade que a obscuridade que envolve os primórdios da ocupação não permite datar com precisão o início da sua valorização. Mas se atendermos a que nelas se localizaram várias das propriedades de que João Tomé, o Amo – “o amo do senhor capitão” [João Soares de Sousa, 3º capitão do donatário] e escudeiro-fidalgo, que testou a 13 de Março de 1537; e se não esquecermos que este escudeiro esteve, nos primeiros anos de Quinhentos ligado ao desbravamento e arroteia da área que hoje constitui as Feteiras de Santa Bárbara, poderemos, facilmente, admitir que tal o correu ainda no século XV 17. E não só não custa aceitar que já no início da centúria quinhentista estivesse em marcha a tarefa de aproveitamento de muitos dos terrenos atravessados pela ribeira que se chamará de Santa Bárbara, como temos provas de que, pela mesma altura, o espaço setentrional do sector oriental era zona de valorização e de fixação. Com efeito, a existência em 1537 da Igreja de Santa Bárbara pode ser considerada como indício de que nos primeiros anos de Quinhentos a penetração atingira já a bacia da ribeira que viria a ter a mesma designação 18. E há notícia de que cerca do início dessa centúria Álvaro Pires de Lemos, que para a ilha veio ainda no decurso do século XV, se estabeleceu no lugar do Norte, tendo recebido terras que chegavam até à ponta que, actualmente designada do Norte, por muito tempo teve o seu nome 19.

Impelidos para o interior por um litoral hostil, o povoamento e a arroteia depararam aí com condições favoráveis. A estrutura do relevo e os seus reflexos sobre o clima não foram impeditivos da fixação, assim como não levantaram graves obstáculos ao desbravamento da vegetação e à instalação do património agrário transportado pelos iniciais ocupantes. Mercê da sua pequena extensão e da conjugação das suas características geo-climáticas com a aceleração do movimento demográfico, a ilha depressa perdeu a sua feição natural. E antes que terminasse o século XVI, os arroteamentos, pontuados, aqui e ali, por núcleos de povoamento, absorviam já uma considerável parte da sua superfície.

Mas se, no seu conjunto, as disposições naturais se mostraram propícias à fixação, tal não quer dizer que o processo de repartição do espaço pelo homem não tenha sido complexo. A variedade de condições ambientais que a ilha contém dentro da sua perfeita unidade condicionou, naturalmente, o modo como o homem dominou e ordenou o território; e esteve, necessariamente, na base de elementos de ordem sócio-económica que se reflectiram na distribuição da população e, consequentemente, na modelação do espaço.

Foi grande a atracção exercida sobre o povoamento pela faixa costeira meridional. As suas condições pedológicas e climatéricas faziam dela uma área afim dos espaços de proveniência dos povoadores e, ao mesmo tempo, o habitat por excelência dos principais produtos agrícolas introduzidos, em especial a videira; além disso, era fundamentalmente por ela que Santa Maria se abria ao exterior. Assim, o que explica o crescimento e a superioridade de Vila do Porto consente também entender que a segunda freguesia a constituir-se na ilha, nos primeiros anos da década de 1540, tenha abrangido a parte sul da metade leste 20. Mais largamente aberta para o mar do que a zona que lhe fica a norte e com uma maior extensão de terras agricultáveis, a freguesia de Nossa Senhora da Purificação, vulgarmente chamada de Santo Espírito, beneficiou ainda com a proximidade da sede concelhia; e, nos finais de Quinhentos, contava 413 almas de confissão em 102 fogos 21. Note-se, todavia, que a população se congregava sobretudo a sul e a SE e que as marcas da presença humana se tornavam mais ténues à medida que se caminhava para o interior e se desvaneciam os tons de meridionalidade. Saliente-se, aliás, que o maior peso demográfico das zonas sul e sueste explica, certamente, a decisão de se ter mudado a sede da freguesia da primitiva paroquial – o templo que é hoje a Ermida de Santo António – para a actual Igreja de Nossa Senhora da Purificação.

Numa posição excêntrica em relação ao principal pólo de animação sócio-económica e de feição mais vincadamente interior, porque na sua maior parte apertada entre a linha montanhosa e arribas altas e vigorosas, a região correspondente à actual freguesia de Santa Bárbara mostrou-se, naturalmente, menos favorável à fixação. Apesar de o seu aproveitamento se ter iniciado cedo, talvez quase simultaneamente ao de Santo Espírito, no ocaso do século XVI compreendia somente 110 almas e 40 fogos, sendo de presumir que apenas cerca de 1570 tenha ascendido à dignidade de paróquia 22.

Mas se a prioridade de Santo Espírito não surpreende, já é, porém, de estranhar que somente no século XVII tenha sido criada a freguesia de S. Pedro. Na verdade, a erecção da freguesia – com sede no templo da mesma invocação que já existia em 1537 e se situava no lugar presentemente denominado Pedras de S. Pedro – só em 1603 é que foi proposta ao monarca e apenas em 1611 é que foi nomeado o seu primeiro vigário 23. É certo que a área coberta por tal freguesia é também marcada por uma relativa interioridade e consequente afastamento do mar. Mas não é menos certo que essa área apresentava, no entanto e quando comparada com a de Santa Bárbara, vantagens bem evidentes: proximidade de Vila do Porto, relevo fracamente acidentado e solos especialmente adequados à cerealicultura. Daí que a sua inferioridade demográfica apenas possa ser entendida se tivermos em consideração as inter-relações que os homens estabeleceram com o espaço arável. Não se trata, como é evidente, de obliterar a importância das influências naturais. Mas há sobretudo que ver como elas condicionaram o quadro da propriedade e do aproveitamento da terra; e detectar até que ponto este interferiu na distribuição da população e na forma de que ela se revestiu.

De solos, no geral planos ou frouxamente ondulados e, decerto, inicialmente cobertos de uma vegetação menos densa, as terras da parte ocidental revelaram-se de fácil e vantajoso amanho; e, pela sua constituição geológica e relativo toque de secura que a natureza do clima lhes confere, mostraram-se como o meio apropriado para o cultivo do trigo, cereal que, pela força das necessidades alimentares e por motivo das solicitações do mercado externo, por muito tempo dominou a paisagem agrícola da ilha. Deste modo, não admira que a elite dirigente e dominante tenha procurado assegurar para si e seus descendentes a posse da maior parte das superfícies cultiváveis da região. E daí que esse sector tenha sido um espaço caracterizado pelo predomínio da grande e média propriedade, em regra directamente aproveitadas pelos seus detentores; um compartimento marcado por um grau de concentração fundiária relativamente elevado, particularmente na grande unidade agrária constituída pela plataforma, pelo patamar do Facho e Saramago e ainda pelo extremo ocidental do planalto de S. Pedro, onde a quase ausência de obstáculos permitiu o talhamento de parcelas de dimensões consideráveis 24.

É facto que os domínios dos “notáveis” se espalharam também pela metade leste; e não é menos verdade que aí a faixa litoral do sul foi, em larga medida porque menos prejudicada pelo relevo, área de residência de algumas das mais influentes famílias da ilha. Mas no conjunto desse espaço, onde o relevo movimentado e vigorosamente entalhado por cursos de água dificultou, de certa forma, a edificação do solo arável e obstou à formação de parcelas extensas, a posse e a fruição da terra obedeceram a um quadro diferente. Foi fundamentalmente nele, e com especial incidência nas zonas simultaneamente mais interiores e mais setentrionais, que se localizaram as propriedades das gentes de menor condição; e nele cedo se generalizou a prática da alienação do domínio útil da terra, essencialmente seguida por proprietários que preferiram residir na área da sede concelhia. Assim, se a leste desde cedo tudo concorreu para uma cobertura bastante homogénea do espaço, porquanto a tendência dispersiva, favorecida pelas características ambientais, não foi contrariada pelo tipo de propriedade e condições de exploração dominantes, o mesmo já não aconteceu a ocidente. Aí a população foi, é certo, atraída para o sul pelas razões atrás enunciadas; mas também afastada do interior norte por ter sido menos estreito o vínculo entre ela e as extensões aráveis. Foi, pois, necessário que se alterasse a relação fundo demográfico / terra para que a região de S. Pedro dispusesse de população suficiente para ser considerada freguesia. E se a fragmentação da propriedade, decorrente sobretudo da herança com partilha, teve influência decisiva nessa alteração, ela deveu-se ainda ao desenvolvimento do aforamento enfitêutico, explicável, em grande parte, pelo fenómeno absentista.

Não se pense, porém, que as raízes da dispersão hoje assumidas pelo povoamento do sector ocidental não ascendem aos primeiros séculos da humanização 25. De facto, se é verdade que essa dispersão se acentuou no século XIX, mercê do retorno da emigração, sobretudo brasileira, e da decadência e alienação dos morgadios, fragmentados em inúmeras pequenas propriedades, também o é que as raízes de tal disseminação mergulham bem fundo na espessura temporal. Aliás, o facto de no ocaso de Quinhentos a população se adensar a sul não significa necessariamente que ela se concentrasse, na sua quase totalidade, em Vila do Porto 26. Para leste desse povoado, em Valverde e na área de Almagreira, em zonas profundamente recortadas por algumas linhas de água, o povoamento encontrava-se disseminado. Outro tanto se registava a norte da sede concelhia, na parte da ilha que então, no seu conjunto chamada Flor da Rosa, se dividia em Flor da Rosa Alta e Flor da Rosa Baixa. Mesmo o interior norte era zona de povoamento com tendência para a disseminação, o que permite afirmar que a forma de habitat disperso que actualmente caracteriza a região se revelava já claramente na viragem do século XVI para a centúria seguinte.

Ao longo da era de Seiscentos, sob o impulso da pressão demográfica, alargaram-se as áreas de cultura, retalharam-se a propriedade e a exploração e, consequentemente, assistiu-se a uma considerável intensificação da tendência dispersiva. Antes que terminasse essa centúria, do lado do nascente, a forma apresentada pelo revestimento humano correspondia, no essencial, à do presente; do outro, a disseminação ganhara, pelo menos, consistência e expansão 27. Mas do que não há dúvida é de que nos finais de Setecentos a dispersão, em ambas as metades da ilha, alcançara já os seus limites actuais 28.

Ao ocupar Santa Maria, o homem deparou com um quadro natural estranho mas, no seu todo, não hostil. Globalmente pouco elevada, de relevo fraco e erodido e, pela incidência deste no que se refere ao clima, menos afectada pela humidade do que as demais ilhas do arquipélago, ela ofereceu, na verdade, condições favoráveis não só à fixação dos grupos humanos que a modelaram como à instalação do património agrário por eles transplantado. Mas os detalhes diferenciais que acima retiveram a nossa atenção, as singularidades que em consonância com aquelas características gerais contribuem para definir a sua originalidade, condicionaram, necessariamente, as formas de ocupação do espaço, reflectindo-se nos elementos de diferenciação assumidos por um tipo de povoamento comum e também, como em tempo oportuno procuraremos mostrar, nas especificidades apresentadas pelas diversas comunidades. E não queremos deixar de registar que as imposições da natureza, incluindo a sua pequena superfície territorial e a sua situação geográfica, não só pesaram de forma decisiva no rumo tomado pela sua economia, como ainda se repercutiram no domínio político-institucional, condicionando a evolução e, por vezes mesmo, a formulação das instituições político-administrativas, civis, militares e, até, eclesiásticas.

* Assessora principal de arquivo e investigadora. Doutoranda em História – especialidade de História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa – da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
1 Gaspar Frutuoso, Livro Terceiro das Saudades da Terra, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1983, p. 62.
2 Cf. O Manuscrito “Valentim Fernandes”, ed. por António Baião, Lisboa, 1940. A carta e o manuscrito foram reproduzidos no vol. 1 do Arquivo dos Açores (a partir daqui citado pela sigla A.A.), 2ª ed., Ponta Delgada, 1980, p. 145-150, e em Viriato Campos, Sobre o Descobrimento e Povoamento dos Açores, Lisboa, s.d., p. 32-36 e 103-105. Sobre Luís Teixeira, veja-se Portugaliæ Monumenta Cartographica, coord. por Armando Cortesão e Avelino Teixeira da Mota, vol. 3, Lisboa, 1960, est. 358, reproduzida por Viriato Campos, ob. cit., p. 110 e por João Marinho dos Santos, Os Açores nos sécs. XV e XVI, vol. 1, Angra do Heroísmo, S.R.E.C./D.R.A.C., p. 68. Saliente-se que poderá estranhar-se o facto de Luís Teixeira designar por Villa da Prainha o local que, já há cerca de 80 anos, Valentim Fernandes denominara Povoaçam Velha. Note-se, porém, que já Viriato Campos, ob. cit., p. 123-124, criticara ao cartógrafo a utilização de “…dados, para a execução das suas cartas, de mapas antigos, de épocas e escalas diferentes, e a indicação de populações que remontam a dezenas de anos atrás…”, impugnando a afirmação do cartógrafo de que “Estas ilhas foram percorridas com a maior diligência…”. Neste caso a toponímia indicada é mais arcaica que a registada, cerca de 80 anos atrás, por Valentim Fernandes, reportando-se, provavelmente, a um quadro existente 110 anos antes.
3 “Carta de D. Afonso V concedendo licença a seu tio D. Henrique para povoar as sete ilhas dos Açores”, 2 de Julho de 1439, in A.A., vol. 1, p. 5 e in Manuel Monteiro Velho Arruda, Colecção de documentos relativos ao descobrimento e povoamento dos Açores, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1977, p. 21.
4 Tenha-se presente que na obra frutuosiana Santa Ana é nome de conjunto, dado à zona NNW da ilha, e é também de registar que ainda no século XIX a toda a região NNW era atribuída a designação de Santana.
5 Saliente-se que a ligação entre os Anjos e o pólo habitacional localizado na foz da Ribeira do Capitão – onde “Assim que os primeiros que saíram em terra, ali junto ao mar, ao longo daquela ribeira do Capitão, ou desta vez, ou da segunda, fizeram a primeira casa que na ilha se fez, e, depois, pelo tempo adiante fizeram outras pela ribeira acima, e esta foi a primeira povoação da ilha…” – é, por mais de uma vez, salientada por Frutuoso, em especial quando, ao referir-se a Gonçalo Anes de Semandeça, um dos primeiros povoadores, e a sua filha África Anes, afirma: “…e primeiro vieram no lugar de Santa Ana, a Nossa Senhora dos Anjos, onde foi a primeira desembarcação e povoação, segundo já disse…”, cf. Gaspar Frutuoso, ob. cit., p. 10-11 e 26. De resto, há que ter em conta que, a aceitarem-se as informações de Frutuoso e de Frei Agostinho de Monte Alverne, a Ermida dos Anjos teria sido construída no decorrer da década de 1440. Sobre a Ermida dos Anjos, veja-se Luísa Noronha, A Ermida de Nossa Senhora dos Anjos da Ilha de Santa Maria: contributo para a sua história, Vila do Porto, Câmara Municipal de Vila do Porto, 1992.
6 A carta pela qual o infante D. Henrique regulamentou em 1460 a administração da justiça nas ilhas de Santa Maria e S. Miguel constituiu uma resposta institucional a problemas que uma formação social nascente não poderia pôr. Nela se regulam, no sector em causa, as relações entre as comunidades e o representante do donatário – Gonçalo Velho, primeiro capitão do donatário –, enumerando-se de forma precisa as faculdades que caberiam a este, mas salvaguardando-se também, e claramente, a autonomia e direitos daquelas. E esta delimitação de áreas de acção é tanto mais significativa quanto se afigura ter, em parte, resultado da dificuldade de Gonçalo Velho arbitrar e compor determinado conflito. Daí sermos levados a considerá-la como indicadora de uma nova ambiência social, decorrente de um presumível desenvolvimento numérico da população e de uma consequente modificação das relações humanas inicialmente tecidas sobre esses novos espaços. E se é facto que tal carta não pode ser considerada como indiciadora de uma perfeita organização municipal, não é menos verdade que ela é reveladora, pela referência a juízes da terra e pela definição e salvaguarda das suas atribuições, de uma certa auto-organização daquelas comunidades ou, pelo menos, da tendência para se lhes conceder esse direito. Cf. “Carta que regula a administração da justiça nas ilhas de Santa Maria e S. Miguel”, 19 de Maio de 1460, in Gaspar Frutuoso, ob. cit., p. 114-116.
7 Cf. Gaspar Frutuoso, ob. cit., p. 69.
8 Não se esqueça a presença quase constante de piratas e corsários nos mares dos Açores e os frequentes assédios e assaltos que, desde o fim do primeiro século do seu povoamento, a ilha de Santa Maria sofreu, por parte de castelhanos, franceses, ingleses e argelinos.
9 Cf. Gaspar Frutuoso, ob. cit., p. 70-71.
10 Cf. João Marinho dos Santos, ob. cit., vol. 2, p. 447-452; Idem, “Açores: etapas, ritmos e formas da urbanização”. Estudos de História de Portugal: vol. 2, sécs. XVI-XIX, Homenagem a A. H. de Oliveira Marques, Lisboa, Editorial Estampa, 1983, p. 69-91.
11 Na muito escassa documentação quatrocentista, é possível colher diversas informações sobre as actividades acima mencionadas. Sobre o trato do trigo e da urzela, veja-se a carta de quitação manuelina dada a João de Marvão, almoxarife da ilha, referente ao dízimo do almoxarifado régio nos anos de 1490-93 e 1496-1497, a qual mostra valores médios anuais de 27 mil reais em dinheiro, 74 moios de trigo e 127 quintais de urzela. Cf. “Carta de quitação a João de Marvão”, 3 de Janeiro de 1505, in A.A., vol. 1, p. 49-50.
12 Cf. “Carta de venda de João da Maia a João Tomé”, 7 de Maio de 1492, in A.A., vol. 15, p. 3-4; Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada (BPARPD), Fundo Ernesto do Canto, ms. 81, fl. 282-293; Idem, Núcleo de Documentação do Concelho de Vila do Porto, ms. 34, instituição vincular de Fern ã o Afonso, 25 de Agosto de 1552; Gaspar Frutuoso, ob. cit., p. 13-14 e 95; Idem, Livro Quarto das Saudades da Terra, vol. 1, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1977, p. 209, vol. 2, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1981, p. 72 e 145; Manuel Monteiro Velho Arruda, ob. cit., p. CXXXIX-CXLI.
13 A “geografia” da videira e os nomes daqueles que a ela estiveram associados suportam o que acima se escreveu. Cf. BPARPD, Colecção Velho Arruda, nº 38, p. 41 e nº 54, p. 58; “Carta régia de confiscação de uma vinha a Álvaro da Fonte”, 25 de Novembro de 1519, in A.A., vol. 1, p. 72; Gaspar Frutuoso, Livro Terceiro das Saudades da Terra, p. 15, 26-27, 65-68; Idem, Livro Quarto das Saudades da Terra, vol. 1, p. 93-94.
14 Cf. BPARPD, Fundo Ernesto do Canto, ms. 81, fl. 301-314; Idem, Núcleo de Documentação do Concelho de Vila do Porto, ms. 34, instituição vincular de Duarte Nunes Velho, 18 de Outubro de 1554; Idem, Colecção Velho Arruda, nº 46, apontamentos vários, p. 30; Gaspar Frutuoso, Livro Terceiro das Saudades da Terra, p. 17-18, 26-27 e 63-66. Duarte Nunes Velho era filho de África Anes e de seu segundo marido, Nuno Velho, sobrinho de Gonçalo Velho. A avaliarmos pelo seu testamento, teria sido cavaleiro-fidalgo da Casa Real. Frutuoso, porém, dá-o como cavaleiro do Hábito de Santiago e o mesmo se colhe nos itens justificativos sobre ele processados em 1584. Da sua primeira mulher, Isabel Fernandes, teve, entre outros filhos, Jordão Nunes Velho que casou com Joana Corvelo, filha de Genes Corvelo e de Maria do Lordelo.
15 Gaspar Frutuoso, ob. cit., p. 14 e 60; BPARPD, Colecção Velho Arruda, nº 10, fl. 36, nº 54, p. 55. Pelos itens justificativos processados sobre Duarte Nunes Velho se sabe que Genes Corvelo foi um homem nobre e pertencente à milícia de Santiago. De anotar que as suas terras foram mais tarde vendidas por seus herdeiros a Domingos Fernandes Faleiro. Este e sua mulher Margarida Afonso, por testamento feito em 1560, vincularam a terça parte dos seus bens para sustento e ornamento da Capela de S. Pedro que haviam mandado edificar na Igreja de Nossa Senhora da Purificação. Para essa terça tomaram uma propriedade de 3 moios de terra e 1 de baldios situada junto às casas onde então moravam; e daí a designação a “Terça” depois atribuída a esse local. Cf. BPARPD, Fundo Ernesto do Canto, ms. 81, fl. 357-364v.
16 Cf. Gaspar Frutuoso, ob. cit., p. 14-15, 63, 94. A ribeira era já conhecida por aquela designação no início da segunda metade do século XVI, porquanto é assim referida nos testamentos de Duarte Nunes Velho e de Fernão d’Alves, datados respectivamente de 1554 e de 1559. Cf. BPARPD, Fundo Ernesto do Canto, ms. 81, fl. 301-314 e 382-387v.
17 João Tomé foi senhor de extensas propriedades em Água d’Alto, onde teve casa de morada, na área depois chamada Chã de João Tomé e na zona que hoje constitui as Feteiras de S. Pedro. E em 1507 foi-lhe confirmada uma dada na Grota Funda, não longe das terras que também possuiu nas Lagoinhas e que confrontava com uma “sua terra feita”. Cf. Idem, ibid., ms. 81, fl. 336-345; Idem, Colecção Velho Arruda, nº 70, Documentos Avulsos, carta de dada de sesmaria a João Tomé, o Amo, 27 de Fevereiro de 1507, in A.A., vol. 15, p. 5-7; Gaspar Frutuoso, ob. cit., p. 82-83 e 85.
18 Cf. BPARPD, Fundo Ernesto do Canto, ms. 81, fl. 336-345.
19 Gaspar Frutuoso, ob. cit., p. 86; BPARPD, Colecção Velho Arruda, nº 5, fl. 9, nº 54, p. 54.
20 A datação da criação da paróquia infere-se dos testamentos de João Tomé, o Amo, e de Marquesa Álvares, feitos respectivamente em Março de 1537 e Junho de 1549, e de notícias colhidas nas Saudades da Terra. Frutuoso diz-nos que o primeiro vigário foi João Anes e dá-nos conta de que a sede da freguesia se situou primeiramente no templo que, após a edificação da actual igreja, foi evocado a Santo António. Por outro lado, se no testamento de João Tomé é apenas mencionada a “casa” da Purificação, no de Marquesa Álvares encontramos referências à Igreja da Purificação, ao vigário João Anes e à Ermida de Santo António. Cf. Gaspar Frutuoso, ob. cit., p. 91; BPARPD, Fundo Ernesto do Canto, ms. 81, fl. 336-345, 377-380. Sendo assim, é lícito fazer ascender a erecção da freguesia ao início do decénio de 1540.
21 Cf. Gaspar Frutuoso, ob. cit., p. 91.
22 Não se conhecem referências cronológicas à criação da freguesia. Frutuoso noticia que o Padre Bartolomeu Luís foi o primeiro cura de Santa Bárbara e que Amador Fernandes foi o seu primeiro vigário, tendo-lhe sucedido o padre José Gonçalves, o qual também é dado como vigário no testamento de António Fernandes, o Rico, datado de Novembro de 1568 (Gaspar Frutuoso, ob. cit., p. 86; BPARPD, Colecção Velho Arruda, nº 109, instituição vincular de António Fernandes, o Rico, 12 de Novembro de 1568). Note-se, todavia, que estas informações não se harmonizam com a carta pela qual, em 1571, José Gonçalves foi nomeado para um benefício na Matriz de Vila do Porto, pois que nela o referido padre é considerado como “capelão curato” da Igreja de Santa Bárbara e este templo apontado como “capelania”. (“Carta de apresentação de um benefício simples”, 1 de Outubro de 1571, in A . A ., vol. 15, p. 250-251). No entanto, não é de estranhar que já na década de 1560 o bispo de Angra tivesse proposto ao monarca a criação da paróquia, porquanto é bem sabido que – como, de resto, sucedeu com a fundação da freguesia de S. Pedro – as determinações régias nem sempre se seguiram muito de perto às solicitações do prelado. O número de fogos e de almas de confissão é-nos fornecido por Gaspar Frutuoso, ob. cit., p. 86.
23 Cf. BPARPD, Fundo Ernesto do Canto, ms. 81, fl. 336-345; “Carta de nomeação do primeiro vigário de S. Pedro”, 5 de Março de 1611, in A.A., vol. 15, p. 252-253.
24 O que acaba de ser dito, bem como o que depois se escreverá, é sustentado por elementos colhidos em fontes narrativas e, essencialmente, em tabelionato, testamentaria e processos de instituições vinculares, documentos que se encontram na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada.
25 De notar que o geógrafo Eduíno Neves considera o carácter disperso do povoamento da parte do poente como um fenómeno relativamente recente, fazendo remontar a sua intensificação apenas à segunda metade do século XIX. Cf. Eduíno Mota Soares Neves, A ilha de Santa Maria: contributo para um estudo de geografia, exemplar policopiado, Coimbra, 1959, p. 50-52. A este propósito veja-se ainda Carlos Alberto Medeiros, Acerca da ocupação humana das ilhas portuguesas do Atlântico. “Finisterra”, Lisboa, 4 (7), 1969, p. 107.
26 De resto, as informações que Gaspar Frutuoso transmite sobre a população do compartimento ocidental não consentem afirmar que ela se concentrava na sede concelhia, porquanto os números por ele fornecidos não respeitam a Vila do Porto propriamente dita, mas sim à freguesia de que ela era cabeça e que então cobria todo aquele sector. Nas próprias palavras do cronista: “Acima da igreja principal, para dentro da terra, ficam algumas casas, as mais delas de palha, em um caminho a modo de rua muito larga, que vai correndo antre sarrados e acabar antes que cheguem a uma ermida de Santo Antão, que está em um alto; da qual ermida para cima ficam terras de pão e casais de homens que moram fora da Vila espalhados, pelo que tem a Vila mais de cem fogos, e com outros fregueses da mesma Vila, que a ela vêm ouvir missa, há na sua freguesia que é a principal da ilha, trezentos e setenta e oito fogos, e almas de confissão, mais de mil e trezentas”. Cf. Gaspar Frutuoso, Livro Terceiro das Saudades da Terra, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1983, p. 71.
27 Testamentos, escrituras de compra e venda, doações, aforamentos, instituições vinculares e outra documentação do mesmo teor atestam a forma dispersa que o povoamento já então mostrava, sem sombra de dúvida, tanto a leste como a ocidente. Registe-se a forma como, a propósito da necessidade de criação de um curato e do aumento do ordenado do vigário, o texto da Visita Pastoral feita, em 1666, à freguesia de Santa Bárbara põe em evidência o carácter disperso do povoamento da zona: “…por ser esta freguzia de grande trabalho e incomodidade para os vigairos que nella vivem por ter muntos longes de caminhos ásperos e fraguozos he os freguzes viverem munto espalhados pellos campos”. Cf. Arquivo Paroquial de Vila do Porto, Livro de Visitações da Igreja de Santa Bárbara, 1661-1704, fl. 8. De anotar ainda que a nomeação de um cura para a freguesia de S. Pedro em data anterior a 1666 e a construção, iniciada em 1688, de uma nova igreja em Flor da Rosa Alta, lugar mais central, confirmam também o esparzimento da disseminação no interior da parte norte da zona poente. Cf. Idem, ibid., fl. 8; BPARPD, Tabelionato de Vila do Porto, m. 2, liv. 15, Sebastião Barbosa da Silva, 1699, fl. 43-44.
28 A comparação dos “logares da ilha ordenados pela sua maior população”, elaborada no início do século XIX por Francisco Borges da Silva, com os numeros os lugares em que hoje se desdobram as freguesias de Santa Maria leva, efectivamente, a tal conclusão. Cf. Francisco Borges da Silva, Notas e estatística da Ilha de Santa Maria. “Revista Michaelense”, Ponta Delgada, 2 (3) Jul. 1919, p. 284-285. E tal conclusão é ainda autorizada pelo cotejo feito entre aquela relação e dados fornecidos por fontes do teor das referenciadas na nota anterior e relativas ao século XVIII, das quais se destacam, pela abundância e variedade de informações, numerosos processos de prestação de contas de vínculos. Não sendo possível indicar todos eles, citam-se os referentes aos vínculos administrados em 1776 pelo capitão-mor José Inácio de Sousa Coutinho, cujas propriedades se encontravam espalhadas por toda a ilha. Cf. BPARPD, Núcleo de Documentação do Concelho de Vila do Porto, m. 40, documentos avulsos, relação das instituições vinculares administradas em 1776 por José Inácio de Sousa Coutinho.

O Inventário do Património Imóvel do Concelho de Vila do Porto
Sobre a História da Ilha de Santa Maria
Vila do Porto e o Bairro do Aeroporto
A Casa de Santa Maria
Santa Maria. Vila do Porto
Inventário do Património Imóvel dos Açores
Última actualização em 2006-11-06