João Vieira Caldas*

No contexto da habitação tradicional, destacam-se em Santa Maria dois grupos de edificações que se podem considerar opostos: de um lado, o das casas abastadas e solarengas, urbanas ou rurais; do outro, o das pequenas casas rústicas que enxameiam o território mariense.

As do primeiro grupo, quase todas arruinadas ou para lá caminhando, muitas reduzidas a meros vestígios, não evidenciam grandes afinidades entre si, além de terem sido mandadas construir pelas classes mais favorecidas. Diferem conforme a época de construção, na dimensão e na volumetria, quanto ao estilo e qualidade dos acabamentos, ou segundo as alterações e adaptações a que foram sujeitas. E, claro, no modo como, sendo urbanas, se adaptaram à estrutura de Vila do Porto, ou, sendo rústicas, interpretaram a paisagem em que se inserem, ora evidenciando a funcionalidade rural, ora, pelo contrário, relegando-a para lá dos jardins, muros, caminhos e outros arranjos paisagísticos que conduzem à habitação principal.

As do segundo grupo, pela sua quantidade, homogeneidade e estado de conservação, são as que actualmente melhor representam a arquitectura da ilha, suscitando uma identificação imediata. De facto, a casa popular de Santa Maria tem características únicas no âmbito do arquipélago e apresenta uma uniformidade rara, fenómenos em que só é acompanhada, mas a alguma distância, pela casa da Graciosa.

A casa mariense distingue-se por um conjunto de características que vão da sua implantação e distribuição no território à constância do conjunto de volumes que formam o sistema forno/chaminé, passando pela escala, proporção e volumetria do corpo habitacional.

Começa por corresponder a um povoamento mais interior que em qualquer outra ilha, à excepção, mais uma vez, da Graciosa. Mas enquanto nesta última é evidente o agrupamento linear das habitações ao longo das estradas e caminhos, tipicamente açoriano, em Santa Maria as casas apresentam-se segundo uma distribuição dispersa, única no arquipélago.

As habitações formam, por vezes, um pequeno núcleo com as dependências de apoio (curral, palheiro, pocilga, retrete, etc.), mas afirmam o seu individualismo virando as frentes na mesma direcção e, portanto, as costas às casas mais próximas 1. As excepções resultam geralmente da divisão da propriedade familiar, dando origem a raros núcleos de duas ou três casas muito próximas ou, em limite, unidas entre si como se resultassem de uma divisão/ampliação da casa-mãe.

O modelo da casa corrente difundido em toda a ilha é, certamente, um tipo de síntese, afinado ao longo do tempo num pequeno território pouco sujeito às catástrofes naturais que assolam periodicamente as ilhas vizinhas, nomeadamente sem actividade vulcânica ou sísmica significativa nos tempos históricos 2. A casa tipo é constituída por um corpo unitário de planta rectangular, com um piso (quando está implantado em terreno plano) e uma fachada de janela/porta/janela, isto é, uma porta central com uma janela de cada lado. A porta abre normalmente para um pequeno corredor, ou vestíbulo, que tem de um lado a cozinha e do outro o quarto. Quando está implantada em terreno acidentado, a adaptação faz-se pela introdução de uma loja (ou melhor, meia loja), ao nível inferior, que compensa o declive e transforma a casa térrea numa casa de piso e meio. A habitação propriamente dita, no entanto, ocupa apenas o piso superior e por isso todas estas casas têm um balcão, adossado à fachada, que permite o acesso directo ao piso superior. Curiosamente, as casas de um só piso têm um estreito terraço à frente da porta, como que um balcão térreo que vem confirmar a fixidez do tipo. Essencial para a definição deste modelo é também o telhado de quatro águas que completa o carácter do volume da habitação. Contudo, talvez o elemento identificativo mais forte seja o sistema forno/chaminé, já que a sua ocorrência é sistemática, não só na pequena casa rural como em todas as outras habitações de Santa Maria, rurais ou urbanas, rudimentares ou abastadas.

Consiste este sistema num conjunto de volumes encostado à cozinha (quase sempre ao tardoz mas algumas vezes à fachada lateral da habitação) que agrega o forno semicilíndrico com cobertura de telha, a “caixa do lar” e a chaminé. A “caixa do lar” é um volume paralelepipédico, correspondente a um minúsculo compartimento complementar, saliente em relação à cozinha e comunicando com esta por meio de um arco. É neste pequeno espaço que verdadeiramente se confeccionam os alimentos, para o que é provido de uma bancada ou poial onde se acende o lume (o “lar” propriamente dito). Na parede do fundo desta “caixa” abre-se a boca do forno e, sobre ela, insere-se a chaminé, comum ao lar e ao forno, funcionando portanto todo este espaço como lareira da cozinha. Frequentemente o volume paralelepipédico apresenta uma pequeníssima janela numa das paredes laterais, a janelinha do lar (ou “janela da gateira”), que permite cozinhar com mais alguma iluminação natural além da que passa sob o arco de comunicação com a cozinha.

As chaminés mais antigas são rectangulares, com um desenvolvimento superior algo irregular, não diferindo particularmente de algumas chaminés tradicionais de São Miguel ou mesmo das que aparecem em várias regiões do Continente. Nas casas relativamente mais recentes, ou nas que substituíram a chaminé tradicional, surge, em vez daquela, uma chaminé cilíndrica sobre embasamento piramidal, a chaminé “de vapor”, que, sendo hoje característica de Santa Maria, não deixa de corresponder a um modelo que quase não existia na ilha no início do século XX 3.

A partir do modelo de síntese, a casa mariense foi frequentemente ampliada (ou construída de raiz já com maior área) dando origem a diversas organizações em planta que vão do simples alongamento por ampliação de um módulo (originando um rectângulo mais comprido em que a porta deixa de estar ao centro da fachada), ou a uma ampliação posterior parcial originando uma planta em L, até à duplicação em profundidade que dá origem a uma planta quadrangular. O que ressalta, em todos estes modos de ampliar, é a capacidade que a casa de Santa Maria tem de crescer como uma estrutura orgânica que mantém a escala e a proporção com a maior naturalidade. O telhado vai igualmente aumentando, ora em comprimento, ora prolongando uma água sobre um novo corpo, ora duplicando, ou, em casos excepcionais, enrolando-se sobre si próprio como um caracol, mas parecendo sempre que foi assim construído de raiz.

A outra potencialidade que evidencia o modelo de síntese é a sua capacidade de modernização. Não só o conjunto forno/caixa do lar se adaptou a uma nova chaminé, como já foi referido, mas a própria casa afina ou modifica as suas características. Por um lado, é o modelo de síntese que assume maior rigor nas linhas gerais da construção, na axialidade da porta de entrada e na exacta simetria das duas janelas em relação a esta. Altera-se a proporção da casa, tornando-se menos atarracada, e dos seus vãos que se tornam mais esguios aproximando-se do eixo de simetria, como que reflectindo, longínqua e tardiamente, tendências da arquitectura erudita oitocentista ou mesmo de um século XX inicial. Por outro, e finalmente, é a sua adaptação a novas soluções construtivas e volumétricas, que conduzem ao uso de telhados de duas águas, ou chaminés prismáticas, onde antes havia telhados de quatro águas e chaminés cilíndricas, ou mesmo à elaboração de novos tipos de casas. O mais corrente corresponde a uma habitação com telhado de duas águas colocadas perpendicularmente à fachada e mais inclinadas que na habitação tradicional, deixando espaço para um sótão habitável denunciado por uma janela ao nível superior. Mas parte sempre do modelo base com a porta entre duas janelas na fachada, com o predomínio do ar miniatural, com acabamentos semelhantes e pintura colorida em socos, cunhais e nas molduras dos vãos.

A constância, repetitividade e difusão da casa mariense criou a ilusão de que, nesta ilha, o património arquitectónico rural estaria mais bem conservado que na generalidade do arquipélago. Não é verdade. O que acontece é que, à medida que as casas (e o ambiente que as rodeia) se vão alterando ou degradando, há sempre outras, dada a sua quantidade, que aparentam boa conservação. No entanto, se se comparar o inventário que deu origem à presente publicação, realizado em 2000, com o levantamento da arquitectura popular efectuado em 1982/83 (mas só publicado, coincidentemente, em 2000) 4, verifica-se que daquelas que foram então classificadas como “as casas mais antigas” 5 já poucas existem. São também casas rurais com características expressivas semelhantes às anteriormente descritas (acabamentos em geral, inclinação e remates dos telhados de quatro águas) e até com o mesmo sistema caixa do lar/chaminé/forno. Devem ter contribuído para a formação do modelo de síntese, mas são tipologicamente diferentes: podem ter um ou dois pisos mas são sempre de maiores dimensões e a cozinha, ao contrário do que acontece nos modelos correntes, está sempre ao nível térreo mesmo quando a casa tem dois pisos.

Paradigmático é o caso do único tipo de habitação popular açoriana directamente relacionável com um tipo de habitação do Continente 6. Trata-se da casa do tipo da região saloia, dos arredores de Lisboa, constituído por um corpo torreado de dois pisos com cobertura de quatro águas ao qual encosta o corpo térreo da cozinha. Em 1982/83 era ainda vulgar em Santa Maria. Em 2000 já tinha desaparecido completamente.

O exemplo da extinção da casa torreada, numa época, como a presente, em que o conforto indispensável à vida contemporânea conduz à necessidade de intervir nas casas antigas, se as quisermos conservar, mas em que os materiais e as técnicas empregues podem introduzir alterações irreversíveis na expressão da arquitectura, é um alerta que evidencia a necessidade de olhar cuidadosamente pela preservação da pequena e frágil casa de Santa Maria.

* Licenciado em Arquitectura (ESBAL,1977). Mestre em História de Arte (FCSH-UNL,1988). Assistente no Instituto Superior Técnico.
1 AAVV, Arquitectura Popular dos Açores, Lisboa, Ordem dos Arquitectos, 2000, p.55.
2 Idem, p.49 e p.64.
3 Ob. cit., p.51.
4 O já citado Arquitectura Popular dos Açores.
5 Ob. cit., p.54.
6 Esta relação foi desenvolvida em FERNANDES, José Manuel e JANEIRO, Maria de Lurdes, Arquitectura Vernácula da Região Saloia – Enquadramento na Área Atlântica, Lisboa, ICALP, 1991.

O Inventário do Património Imóvel do Concelho de Vila do Porto
Sobre a História da Ilha de Santa Maria
Vila do Porto e o Bairro do Aeroporto
A Casa de Santa Maria
Santa Maria. Vila do Porto
Inventário do Património Imóvel dos Açores
Última actualização em 2006-10-12