Casa de habitação, Fajã dos Bodes, Calheta, São Jorge.
 
João vieira Caldas *

1. iNtRodução
O presente ensaio enferma à partida de três problemas: a dificuldade em isolar idiossincrasias do concelho da Calheta numa ilha que se caracteriza pela unidade, apesar do seu comprimento; a escolha de um tema geralmente considerado menor; a consequente ausência de investigação fidedigna neste âmbito que permita alicerçar conclusões sólidas.
A primeira dificuldade está, aliás, implícita no texto de enquadramento histórico incluído neste mesmo volume do Inventário do Património Imóvel dos Açores (Meneses, 2013) e bem explícita no texto de enquadramento do volume correspondente ao concelho de Velas onde se refere a ilha como “a grande unidade em todos os aspetos” (Pereira, 2013). Um tema como o das janelas de guilhotina poderia, portanto, ser abordado com idêntica pertinência no contexto de qualquer dos dois concelhos. A opção por um assunto considerado “menor” justifica-se pela quantidade de janelas de guilhotina que se conservam em São Jorge distribuídas por todo o tipo de edifícios de construção tradicional – habitação popular, habitação de influência erudita, arquitetura pública civil, arquitetura religiosa – e pela preeminência da guilhotina de três folhas. Mas, é claro, a sua principal justificação reside no facto de eu não o menorizar, considerando-o, pelo contrário, um tema de estudo relevante. Na esteira do Prof. Hentie Louw, um dos principais especialistas europeus na matéria, acho que “as componentes arquitetónicas não têm vida independente; fazem invariavelmente parte de um conjunto mais abrangente, seja real ou imaginado. A janela, como a mais interativa (…) de todas elas, é também potencialmente a mais reveladora”1. Por isso, terei de recorrer muitas vezes à sua obra, nomeadamente pilhando-lhe a citação de George Gilbert Scott com que abre um dos seus trabalhos (Louw, 2007, p. 7):

Capela do Solar de Santo António, Rua de Baixo, Calheta, São Jorge. “Nenhuma característica, na arquitetura doméstica, requer mais atenção que uma janela: para permitir a adequada iluminação sem rasgar perigosamente a parede; para deixar entrar o ar quando se quer, evitando o vento e a humidade que não se quer; para se ter uma vista desafogada para o exterior, sem expor desnecessariamente os compartimentos ao olhar de quem está de fora; e fazer tudo isto de modo a acrescentar beleza e caráter ao edifício, tanto por dentro como por fora, são importantes objetivos a atingir qualquer que seja o estilo.”2

Pelo menos os dois primeiros objetivos enunciados, iluminar e arejar na medida das necessidades, estão à cabeça das principais razões que levaram a uma tão rápida e extensa difusão da janela de guilhotina nos Açores, embora, sobretudo nas casas mais abastadas, não seja de desprezar o desejo de obter boas vistas.
E é a partir deste ponto que ganha peso o terceiro problema: a ausência de investigação documental ou de qualquer outra forma de pesquisa séria sobre o tema. Apesar de ser voz corrente este tipo de janelas ter sido introduzido na Região por ingleses, a verdade é que, até agora, não se sabe de fonte segura quando é que a janela de guilhotina chegou aos Açores, quem a trouxe e como se expandiu tão amplamente pelo arquipélago. Do mesmo modo que não se sabe a que é devida a concentração de guilhotinas de três folhas em São Jorge, nem há, verdadeiramente, apesar da mesma voz corrente lamentar o seu progressivo desaparecimento, qualquer estudo sobre as existências, as variantes, a cronologia e a evolução (se é que a houve) dos aspetos construtivos destas janelas.
Também não seria apropriado, nem sequer possível, fazê-lo no âmbito do presente inventário. Este texto pretende, apenas, fazer o enquadramento geral do problema e apontar hipóteses ou explicações de caráter puramente especulativo, esperando que o tema, nos seus múltiplos enfoques, venha a interessar os investigadores, em particular no meio universitário, no quadro de teses de mestrado ou doutoramento.

2. oRiGem, VANtAGeNs e eVoLução
As janelas de guilhotina foram aparecendo ao longo do século XVII, com maior intensidade na segunda metade do século, na sequência da progressiva substituição dos antigos vidrinhos armados em caixilhos de chumbo por vidros de maior dimensão e melhor qualidade associados a caixilharia de madeira. Tanto o recurso a este sistema construtivo como a sua aplicação a um novo tipo de janelas teve lugar em países do norte da Europa como a Holanda, a Inglaterra e a França, onde o desenvolvimento económico e técnico e a procura de maior conforto na habitação eram realidades indissociáveis (Louw, 2006, p. 46). A guilhotina montada em caixilhos de madeira permitia juntar num só sistema as principais funções e qualidades exigíveis a uma janela – iluminação, arejamento e visibilidade – que, até então, estavam separadas por diferentes sistemas de obturação dos vãos, ou não eram tecnicamente possíveis. O aperfeiçoamento da indústria de fabrico do vidro, com a produção de placas maiores e mais transparentes armadas em caixilharias de madeira cada vez menos obstrutivas, permitiu melhorar a iluminação interna das habitações e tornar mais claras e amplas as vistas para o exterior.
Até então, não só nos vitrais das igrejas mas também nas janelas das melhores casas, os vidros, de dimensões diminutas e qualidade deficiente, eram montados em frágeis e inseguros caixilhos de chumbo que tinham uma estanqueidade duvidosa. Para poderem ser abertas, nem que fosse apenas parcialmente, as janelas tinham de ter molduras de outros materiais associadas aos caixilhos de chumbo. A alternativa mais barata ao vidro montado em chumbo eram as caixilharias de madeira com papel, tecido, ou pele de animal engordurados, para se aumentar o nível de translucidez, dando origem a uma iluminação velada e impedindo a visão para o exterior.
Casa de habitação, Ribeira Seca, Calheta, São Jorge. Os vidros de maior dimensão e melhor qualidade exigiam, porém, uma caixilharia que os fixasse convenientemente, assegurando maior segurança, estanqueidade e durabilidade. As novas caixilharias necessitavam de melhores madeiras que as que eram usadas como material complementar, ou como caixilhos para membranas translúcidas. Ambos os materiais eram, portanto, mais dispendiosos, o que significa que as primeiras experiências com este novo tipo de janelas foram realizadas sobretudo em edifícios públicos e habitações da família real ou da alta nobreza.
Solar de Ínfias (ou Casa de Vale de Flores), Braga. As janelas de guilhotina tinham, ainda, outra grande vantagem em relação às restantes: correndo na vertical, presas em calhas, permitiam não só controlar melhor o arejamento como manter-se abertas ou semiabertas sem ficarem à mercê da força do vento como acontecia com as janelas de batente. A fixação da abertura era, em todo o caso, um problema ainda a resolver. Por um lado, a área de arejamento seria, na melhor das hipóteses, igual a metade da área da janela (portanto da área de iluminação), visto que, tendo as janelas de guilhotina normalmente duas folhas e correndo na vertical, a máxima abertura corresponderia à sobreposição total das duas folhas. Portanto, aparentemente, bastava que a de baixo corresse ficando fixa a de cima, como acontece atualmente com as guilhotinas de duas folhas nos Açores. Por outro, para a manter aberta e em diferentes posições, era necessário arranjar maneira de a imobilizar.
Casa de habitação, Ribeira Seca, Calheta, São Jorge. Ainda hoje se assiste ao uso de processos expeditos como a colocação de um pedacinho de madeira ou de qualquer outro objeto, para manter aberta apenas uma pequena fresta.
Nos açores, e noutras regiões, junta-se frequentemente o útil ao agradável usando-se uma armação retangular preenchida com rede mosquiteira, da mesma largura das folhas da guilhotina mas mais baixa, que preenche a faixa aberta determinando a sua dimensão e servindo de apoio à folha móvel. Em todo o caso, mesmo as mais elementares janelas de guilhotina têm, de cada lado, uma pequena patilha metálica articulada, como se fosse uma dobradiça, com metade presa à parte interior do aro da janela, sob a folha fixa, e a outra metade de movimento livre, ora virada para dentro e sobreposta à primeira, quando a janela está fechada, ora virada para fora para segurar a folha móvel na posição de maior abertura. Portanto, de modo a que a metade inferior fique totalmente sobreposta à superior. Em janelas muito grandes, ou mesmo nas pequenas quando não se quer recorrer aos referidos processos expeditos, podem ser distribuídos outros pares de patilhas pela metade inferior do aro da janela de modo a poder optar-se por manter a folha móvel a diferentes alturas, de onde resultam diferentes aberturas.
Ainda no século XVII foi inventado um meio mais sofisticado de fixar a posição da folha móvel e, consequentemente, de qualquer abertura desejada, através do uso de um sistema de pequenos contrapesos e roldanas que funcionavam no interior dos aros fixos das janelas e que, naturalmente, tinham de ter espaço para tal, o que deu origem às “caixilharias de caixa”. A invenção tanto da janela de guilhotina como do sistema de contrapesos tem sido atribuída aos ingleses, e é certo que foram os seus principais utilizadores, mas é natural que a primeira tenha tido origem em França. O próprio nome inglês deste tipo de janela – sash window – deriva da palavra francesa chassis que, entre outros, tem o significado de caixilhos. Sobre o que não resta qualquer dúvida é ter sido em Inglaterra que, desde o início da sua utilização pela década de 1660, se foi aperfeiçoando a janela de guilhotina associada ao sistema de contrapesos (Louw, 2006, p. 49; Louw, 2012, p. 401). Por volta de 1700 já se aplicavam contrapesos às duas folhas que passaram a ser ambas móveis. Em meados do século XVIII estaria completa a evolução técnica do tipo de janela que predominou em Inglaterra até ao século XX e que ficou definitivamente associada, nesse país (e nas suas principais colónias), à arquitetura do classicismo georgiano (Louw, 2007, p. 15; Louw, 2012, p. 401).

3. A jANeLA de GuiLhotiNA em PoRtuGAL
Em Portugal (no Continente, como nos Açores e provavelmente na Madeira) não é possível ainda estabelecer uma cronologia rigorosa, nem mesmo aproximada, da janela de guilhotina.
No Continente, embora muito difundida pelas regiões Centro e de Lisboa, a janela de guilhotina predomina visivelmente na Região Norte, o que está de acordo com a afirmação de Hentie Louw de que as únicas zonas da Europa que adotaram a janela de guilhotina com uma intensidade comparável à das ilhas britânicas foi a Holanda e o canto noroeste da Península Ibérica (Louw, 2007, p. 16). Estamos a falar, portanto, de zonas com climas chuvosos e ventosos de influência atlântica aos quais melhor se adequa este tipo de janela que se move na vertical, em calhas que impedem que as respetivas folhas batam com o vento. Vantagem clara sobre as janelas “de batentes”, isto é, de duas folhas com dobradiças nas partes laterais do caixilho, rodando sobre eixos verticais, e que se abrem geralmente para dentro, sendo difícil fixá-las em posições intermédias e, portanto, controlar a entrada e os efeitos do vento que, sendo forte, tem tendência para empurrar violentamente ambas as folhas com o risco de partir os vidros.
Para as ilhas dos Açores, situadas no meio do Atlântico, constantemente fustigadas pela chuva e pelo vento, as janelas de guilhotina eram, por maioria de razão, as mais adequadas. Sendo, portanto, apropriadas para o noroeste do Continente e ainda mais para os Açores, como é que se chegou a elas? Certamente foi um hábito construtivo trazido de fora e, provavelmente, por meios autónomos e paralelos para o Continente, para os Açores e para a Madeira.
Em Portugal a generalização do uso de vidraças foi relativamente tardia. Nas casas mais pobres (muitas das quais, em determinadas áreas rurais do Alentejo e do Algarve, nem sequer tinham janelas) era vulgar haver só portadas de madeira, por vezes com pequenos postigos destinados a reduzir a área de abertura. Nas casas urbanas, as portadas podiam ser complementadas com gelosias ou rótulas de madeira que permitiam uma iluminação suficiente e resguardavam das vistas exteriores a intimidade da vida quotidiana. De resto, como em grande parte dos países europeus, eram usados papéis encerados ou outros materiais engordurados, presos em caixilhos de madeira, que, sendo translúcidos, deixavam, como as rótulas, entrar uma luz velada. Não era raro estes processos aparecerem combinados: rótulas ou gelosias por fora (nos edifícios conventuais normalmente sob a forma de “caixas” fixas) e, por dentro, janelas ou portadas cujas aberturas, preenchidas com papel encerado ou equivalente, podiam ainda ser complementadas por pequenas portadas/postigos que permitiam escurecer completamente o ambiente interno. Claro que nas principais igrejas, nos palácios reais e nas casas das famílias mais poderosas também se utilizavam vidraças, com vidros grosseiros em caixilhos de chumbo, pelo menos desde os finais da Idade Média. Na Idade Moderna, primeiro as grandes casas e, depois, as casas urbanas correntes, pelo menos nas sacadas, passaram a adotar um sistema misto de janela e portada: como se, numa portada de madeira, a almofada fosse substituída por uma vidraça de pequenos vidros armados em caixilhos fixos de madeira, havendo uma segunda portada que trabalhava sobre a primeira apenas tapando o retângulo de vidraças. Funcionava como um postigo alongado complementado por uma sobreportada.
Em Lisboa, a tradicional janela de dois batentes com grandes vidraças em caixilharia de madeira colocada no mesmo plano da superfície da fachada só se difundiu com a reconstrução pombalina e só foi adotada generalizadamente e sem alternativas nas janelas de sacada. Nas janelas de peito, sobretudo em ruas secundárias e da periferia da Baixa, e até em várias igrejas, optou-se frequentemente pela guilhotina. Em qualquer dos casos, a caixilharia com vidraças à face da fachada era complementada por portadas de madeira, montadas no tardoz das molduras de cantaria, que, ao princípio, conservavam reminiscências das antigas portadas mistas com vidraças tipo postigo. Nomeadamente as sobreportadas que, se usadas com as portadas principais fechadas, serviam apenas para reduzir a quantidade de luz que entraria com aquelas completamente abertas. Algumas janelas de sacada até tinham portadas subdivididas, um par curto para as bandeiras fixas e um par principal correspondente aos dois batentes envidraçados móveis, à semelhança do que se vê representado, embora sobre janelas de tipo diferente, em iluminuras e pinturas dos séculos XVI e XVII.
Não está estudada a razão porque, nas janelas de peito dos quarteirões normalizados resultantes da reconstrução pombalina de Lisboa, tanto aparecem caixilharias de dois batentes e bandeira como guilhotinas de duas folhas. Chama-se apenas a atenção para o facto de, apesar de serem grandes e bem construídas, de se integrarem num contexto construtivo que privilegiava a inovação e de serem adaptadas com a mesma qualidade a vãos de verga reta e de verga curva, em nenhuma é integrado o sistema de contrapesos, incompatível, de resto, com o pragmatismo e a celeridade que a reconstrução pombalina exigia. Assim, quase todas estão equipadas com dois ou três pares de patilhas com dobradiças que permitem fixar a folha móvel da guilhotina em igual número de posições.
Solar dos Noronhas, Ribeira Seca, Calheta, São Jorge. Em Portugal, na verdade, só foram assinaladas, até ao presente, janelas de guilhotina com contrapesos na Madeira, na região de Sintra, em Coimbra e na região do Porto. Poderá mesmo ter sido através do Porto e da presença nesta cidade de comerciantes ou agentes comerciais ingleses que se espalhou pelo Norte este tipo de janela. Embora seja de assinalar a presença de comerciantes ingleses no Porto desde a Idade Média, essa presença reforça-se em dois momentos chave nos séculos XVII e XVIII e reflete-se tanto no número de navios que aportam à cidade como no número de cidadãos ingleses que nela se estabelecem e, por via do paulatino domínio das atividades relacionadas com a produção e o comércio do vinho do porto, em toda a região do Douro. O primeiro corresponde ao período que se segue à Restauração de 1640, que justifica a nomeação de um cônsul britânico para o Porto em 1642 e que se reflete em sucessivos tratados e alianças que culminam em 1703, com a assinatura do tratado de Methuen. Este abre portas ao segundo momento que reforça a instalação no Porto, durante a primeira metade do século XVIII, de uma “próspera e importante comunidade mercantil” inglesa (Cardoso, s.d., p. 14).
Solar dos Noronhas, Ribeira Seca, Calheta, São Jorge. Porém, se estão reunidas as condições para que seja plausível ter sido esta comunidade que ajudou a difundir ou a reforçar a difusão da janela de guilhotina no norte de Portugal continental, a verdade é que as janelas com contrapesos até agora detetadas na região do Porto, como, por exemplo, na Feitoria Inglesa, foram mandadas construir por ingleses, com projetos de arquitetos ingleses e datam do último terço do século XVIII. O mesmo se pode dizer dos edifícios reformulados ou construídos em Coimbra, na segunda metade de setecentos, em resultado da reforma pombalina da universidade, projetados pelo engenheiro militar anglo-germânico Guilherme Elsden, ou até dos novos edifícios mandados construir pelo inglês Guilherme Stephens para a sua fábrica de vidros na Marinha Grande 3.
O mais natural, portanto, é que as janelas de guilhotina com contrapesos identificadas por Victor Mestre na Madeira (2002, p. 184) estejam também diretamente relacionadas com a presença dos ingleses nessa ilha.

4. A jANeLA de GuiLhotiNA NA ARquitetuRA AçoRiANA
Nos Açores, certamente por adaptação ao clima, encontram-se janelas de guilhotina em todas as ilhas, de Santa Maria ao Corvo, e associadas aos mais variados programas arquitetónicos. É, porém, na habitação que mais se evidenciam, aparecendo tanto na mais imponente casa nobre como no mais humilde casebre. Não admira, pois, que São Jorge, situada no lugar mais central do arquipélago, tenha concentrado em grande quantidade e variedade esta característica construtiva inseparável da arquitetura vernácula açoriana.
A tradicional janela de guilhotina em madeira pintada encontra-se hoje em maior quantidade relativa na casa rural que na casa urbana. Não só porque é através dos principais núcleos urbanos que, geralmente, são introduzidas as novas correntes arquitetónicas da modernidade, que não incluiriam, por definição, janelas de guilhotina, como porque também foi em contexto urbano que começaram a ser substituídas, primeiro por janelas de batente, ainda em madeira – apesar de menos adequadas ao meio estavam certamente mais adequadas à moda sendo, portanto, reveladoras de estatuto social e económico – e, depois, por janelas de alumínio ou PVC de todos os tipos e formas, incluindo imitações das antigas janelas de guilhotina. No ambiente rural e popular açoriano, que ainda num passado próximo era mais conservador e menos abastado, as velhas janelas foram sendo restauradas enquanto a vida rural se manteve mais ou menos estável. Nas décadas mais recentes, a maior parte das guilhotinas que se encontram estão em casas aparentemente devolutas, decadentes ou abandonadas.
A janela de guilhotina só se deve ter difundido pela casa rural comum durante o século XIX e por imitação, devendo ter tido o seu período áureo na segunda metade do século XIX e até ao primeiro quartel do século XX. Depois disso só foi convictamente desenhada no contexto nacionalista das obras do Estado Novo, e na vertente herdeira da “casa portuguesa”, nomeadamente para instalações relacionadas com serviços florestais e afins. As próprias casas rurais que caracterizam e individualizam a arquitetura popular, só a partir de finais do século XVIII começaram a conformar-se segundo os tipos que hoje conhecemos como característicos de cada ilha, de grupos de ilhas, ou de zonas específicas das ilhas maiores. Até então, entre os trabalhadores do campo, predominariam as “casas palhaças”, pequenas habitações abarracadas com paredes baixas em pedra à vista e cobertura de colmo.
Todavia, tal como em outras regiões e noutras épocas, não foi certamente através da pequena casa rural que se introduziu a janela de guilhotina no arquipélago, mas sim através de edificações de promotores que podiam dar-se ao luxo de experimentar ou inovar. E também aqui, como na Madeira e no Continente, a colónia inglesa deve ter tido as suas responsabilidades. Há notícia da participação inglesa no comércio açoriano desde o último quartel do século XV. Esse comércio intensificou-se ao longo do século do século XVI e “manteve-se activo, embora mais condicionado” durante a União Ibérica, apesar dos ataques que, paralelamente, os corsários e as esquadras inglesas desferiam contra o arquipélago (Rodrigues, s.d.).

Casa do Guarda Florestal, Furnas, São Miguel. Casa de habitação, Terceira.
Casa de habitação, Fajã dos Vimes, Calheta, São Jorge. Adega reconstruída, Fajã dos Vimes, Calheta, São Jorge.

Depois da Restauração o comércio inglês nos Açores e as comunidades inglesas aí residentes usufruíram dos privilégios adquiridos através dos sucessivos tratados comerciais entre os dois países, entre os quais se contavam “a liberdade de comércio e a de culto” em territórios portugueses (Rodrigues, s.d.). D. João IV chegou a recomendar que fossem observados esses privilégios especificamente no que respeita aos ingleses moradores em São Miguel. E a participação inglesa no comércio açoriano continuou a crescer apesar da depressão económica dos “últimos decénios de seiscentos” e intensificou-se ao longo do século XVIII com o desenvolvimento da cultura da laranja cujo principal mercado estava, justamente, nas ilhas britânicas (Rodrigues, s.d.).
Embora a principal produtora do citrino fosse a ilha de São Miguel, a “fúria” da laranja estendeu-se a várias ilhas, mesmo que a cultura se limitasse a áreas muito reduzidas. Os ingleses, no entanto, continuaram a instalar-se preferencialmente, como já vinham a fazer há décadas, nas ilhas cujos portos eram mais seguros e tinham maior movimento: São Miguel, Terceira e Faial. O porto da Horta, aliás, foi ganhando cada vez mais importância como rótula comercial com o Novo Mundo, particularmente com a América do Norte (Rodrigues, s.d.). A fixação de famílias inglesas e, depois, também americanas, assim como o constante contacto comercial com ambos os países de onde eram originárias, suscitou o aparecimento nos Açores, sobretudo em São Miguel, a partir do final do século XVIII, de um estilo arquitetónico de influência anglo-americana e enquadramento discretamente neoclássico que ficou conhecido como a “arquitetura da laranja”.
É provável que as janelas de guilhotina tivessem sido experimentadas e divulgadas anteriormente na Região, dado este sistema de janelas com vidraças ser tão apropriado ao clima açoriano. Mas, confirme-se ou não esta hipótese, foi certamente o aparecimento daquele estilo de origem erudita indissociável deste tipo tipo de janelas, tanto nas ilhas britânicas como nos EUA, que deu o impulso definitivo à adoção generalizada das janelas de guilhotina no arquipélago. E, se a tese defendida por Paulo Gouveia em “Arquitectura Baleeira nos Açores” estiver correta (Gouveia, s.d.), o uso da janela de guilhotina só pode ter saído reforçado com a influência da arquitetura das cidades da costa nordeste dos Estados Unidos sobre a arquitetura açoriana, em particular nas ilhas do Faial, Pico e São Jorge.



Adega, Calheta, São Jorge. Casa de habitação, Rosais, Velas, São Jorge.

5. jANeLAs de GuiLhotiNA em são joRGe. coNcLusão
A janela de guilhotina que se generalizou na casa comum dos Açores corresponde a um modelo simples, sem contrapesos, com uma caixilharia relativamente expressiva que forma uma grelha de madeira pintada bem visível. De facto, as janelas são geralmente de pequena dimensão e têm duas folhas de seis ou oito vidros cada, portanto, dois de altura e três ou quatro à largura para cada folha. A partir deste modelo corrente desenvolvem-se todas as variantes possíveis na dimensão das janelas e no número de vidros para adaptação às mais diversas situações. Uma característica, porém, é comum a quase todas as janelas, independentemente da sua dimensão e do número de vidros: até que o Movimento Moderno tivesse imposto as grandes vidraças e o desenvolvimento da indústria vidreira as tivesse tornado mais acessíveis, são sistematicamente utilizados pequenos vidros que resistem melhor aos embates e às agruras do tempo, são mais baratos e, em caso de necessidade, mais facilmente substituíveis.
A ilha de São Jorge, no que respeita à utilização da janela de guilhotina, não se distingue das restantes, a não ser, sobretudo no concelho da Calheta, pela quantidade de janelas desse tipo ainda existentes e pela diversidade de variantes e adaptações que se pode ainda encontrar. Entre elas avulta a guilhotina de três folhas que, dada a sua profusão, tem sido erradamente considerada exclusiva desta ilha mas que, na realidade, existe em quantidades significativas na Terceira, em São Miguel e em Santa Maria. As suas principais vantagens estão na maior versatilidade no que respeita às possibilidades de abertura e, possivelmente, na maior economia de meios. Cada folha, por si, exige menos apuro construtivo tornando-se mais barata, embora, como um todo, a caixilharia fixa seja ligeiramente mais complexa. Na guilhotina de três folhas, que agora começa timidamente a ganhar um novo fôlego em casas restauradas ou reconstruídas, tal como nas comuns guilhotinas de duas folhas, predominam os três ou quatro vidros à largura mas, salvo raras exceções, com uma única fiada em cada folha. Vale a pena, contudo, lembrar sumariamente algumas das variantes propiciadas pela dimensão dos vãos, pela adaptação a formas mais elaboradas que o simples retângulo, ou pelo desejo de integração em correntes arquitetónicas da época contemporânea, nem que, para melhor explicitação, seja necessário recorrer a exemplos do concelho de Velas.

Museu Francisco Lacerda (antiga casa de habitação), Calheta, São Jorge. Museu Francisco Lacerda (antiga casa de habitação), Calheta, São Jorge.


A adaptação a vãos de pequena dimensão leva sistematicamente à utilização de guilhotinas de duas folhas com uma única fiada de vidros cada. A opção pelos dois ou três vidros à largura resulta mais da perspetiva com que foram construídas, mais moderna ou mais conservadora, que necessariamente do tamanho das janelas.
Pelo contrário, a adaptação a grandes vãos pede, logicamente, a adoção da guilhotina de três folhas na sua vertente de exceção, isto é, com folhas de dois vidros em altura e cinco ou seis vidros à largura. Embora haja casos de janelas largas em que apenas se aumenta o número de vidros mantendo-se as duas folhas de duas fiadas cada.
A adaptação a enquadramentos especiais ou a correntes modernistas faz-se, vulgarmente, pela adição de mais uma fiada, mesmo que muito baixa, seja integrando-a na folha superior fixa, seja acrescentando-a a esta como faixa suplementar igualmente fixa. Os casos mais sofisticados são os que refletem a corrente neogótica, ainda que se integrem em edificações em que a forma dos vidros é o único sinal de revivalismo. É que a utilização de arcos quebrados que se entrelaçam mutuamente na folha superior da janela obriga não só a uma operação de marcenaria mais delicada, devido à utilização de pinázios curvos, como a um corte dos vidros mais moroso. Além disso, sejam de expressão modernista ou neogótica, é frequente apresentarem vidrinhos coloridos nas fiadas superiores, mais recortadas.

Casa de habitação, Topo, Calheta, São Jorge. Casa de habitação, Topo, Calheta, São Jorge.

A janela de guilhotina francamente “moderna”, embora tecnicamente semelhante às tradicionais, já que continua a ser construída sem contrapesos e com a folha superior fixa, tem sempre duas folhas geralmente de vidraça inteira, sem subdivisões. Aliás, normalmente, não é utilizada na “arquitetura moderna” e sim na substituição de velhas caixilharias em arquitetura de construção tradicional. Mas isso não impede a afirmação da estética moderna, nem que seja apenas nas janelas, através da divisão assimétrica das folhas das guilhotinas.
Nada disto, porém, responde às perguntas essenciais ou confirma cabalmente as hipóteses aventadas: quando e como foram introduzidas as janelas de guilhotina nos Açores e porque é que se encontram tão difundidas e variadas em São Jorge?
Quanto às primeiras, só uma investigação especialmente dirigida ao tema pode confirmar, contradizer ou avançar sobre as hipóteses aqui postas. No que respeita à última, sem prejuízo de necessitar do mesmo tipo de pesquisa, pode avançar-se com uma interpretação.
São Jorge não foi certamente a ilha em que foram introduzidas pela primeira vez as janelas de guilhotina nas ilhas atlânticas, nem foi a partir daqui que se difundiram pelas outras ilhas dos Açores. Antes pelo contrário. Estando esta ilha no centro do arquipélago, reunia as condições para que nela se tivessem cruzado as diversas experiências que se iam fazendo em diferentes pontos do território açoriano, nomeadamente no que respeita à proteção e controlo do clima e às inovações nas caixilharias. Tanto mais que São Jorge está também no meio do Grupo Central, com ilhas à vista por todos os lados. E se, do ponto de vista administrativo, esteve sempre mais ligada à Terceira, onde a guilhotina de três folhas deve ter tido uma difusão igualmente intensa e onde ainda se encontram numerosos exemplares, do ponto de vista arquitetónico, até há poucas décadas, era mais afim do Pico e do Faial, onde as janelas de guilhotina de duas folhas tiveram uma significativa utilização mas onde praticamente não há guilhotinas de três folhas.
Paradoxalmente, apesar das afinidades arquitetónicas e da proximidade geográfica, visual ou administrativa das ilhas que a rodeiam, pode dizer-se que esta ilha esteve quase sempre afastada das rotas comerciais mais importantes. Estando embora em contacto com as ilhas circundantes e tendo estado, até certo ponto, dependente da Terceira, não era propriamente complementar de nenhuma delas, como foram, por diversas razões, a Graciosa da Terceira, o Pico do Faial, ou, fora do Grupo Central, Santa Maria de São Miguel, ou o Corvo das Flores. Muito acompanhada e simultaneamente isolada, São Jorge, desenvolveu a janela de guilhotina segundo um processo darwiniano de cruzamento e seleção de algumas espécies, entre as quais a guilhotina de três folhas, vinda da Terceira, é a mais evidente. Como naquelas ilhas do Índico ou do Pacífico, suficientemente próximas para terem as mesmas espécies de aves, mas suficientemente afastadas para que, em cada uma delas, essas espécies desenvolvam características secundárias que as distinguem.
Devido, talvez, ao relativo isolamento em que esteve até uma época recente, São Jorge conservou em maior quantidade as janelas de guilhotina, como também conservou outros usos e costumes, entre os quais avulta a hospitalidade, que as ditas ilhas “maiores” ou “mais importantes” já perderam e que tornam esta ilha um destino tão surpreendente para os outros ilhéus e, sobretudo, para os continentais.

Casa de habitação, Beira, Velas, São Jorge. Casa de habitação, Fajã da Caldeira do Santo Cristo, Calheta, São Jorge.

BiBLioGRAFiA
AAVV – Arquitectura Popular dos Açores (2ª Edição). Lisboa: Ordem dos Arquitectos, 2007.
BRANCO, Fernando Castelo – Subsídios para o estudo da casa portuguesa: o uso de vidraças dos séculos XVI e XVII. Lisboa: [s.n.], 1979.
CARDOSO, António Barros – Os mercadores ingleses do Porto e os mercados atlântico e mediterrânico (séc. XVIII). http://www.usc.es/estaticos/congresos/histec05/b24_barros_cardoso.pdf [consultado em 07.08.2013].
GOUVEIA, Paulo – Arquitectura Baleeira nos Açores. Horta: Gabinete de Emigração e Apoio às Comunidades Açorianas, s.d.
LOUW, Hentie – “A window on the past: what the study of historic fenestration practices can tell us about the nature of architecture” in SCHLIMME, Hermann, (ed.), Practice and Science in Early Modern Italian Building: Towards an Epistemic History of Architecture. Milan: Electa, 2006, pp. 43-50.
LOUW, Hentie – “The Development of the Window”. Windows. History, Repair and Conservation. Shaftesbury: Donhead Publishing, 2007, pp. 7-96.
LOUW, Hentie – “«Machine pour ouvrir une fenêtre par contre-poids»: A Case Study Revealing the Nature of Invention and Innovation in Late 17th Century Northen European Architecture”. Nuts & Bolts of Construction History. Paris: Picard, 2012, Vol.1, pp. 401-408.
MENESES, Avelino de Freitas de – “A Calheta de São Jorge: apontamentos para a sua história”. Inventário do Património Imóvel dos Açores. São Jorge. Calheta. Angra do Heroísmo: DRAC/IAC, 2013, pp. 11-32.
MESTRE, Victor – Arquitectura Popular da Madeira. Lisboa: Argumentum, 2002.
PEREIRA, António dos Santos – “O Concelho de Velas”. Inventário do Património Imóvel dos Açores. São Jorge. Velas.
Angra do Heroísmo: DRAC/IAC, 2013.
RODRIGUES, José Damião – Ingleses nos Açores (até ao século XVIII). http://www.culturacores.azores.gov.pt/ea/pesquisa/default.aspx?id=9840 [consultado em 06.08.2013].

LeGeNdA dAs imAGeNs
– Casa de habitação, Fajã dos Bodes, Calheta, São Jorge.
– Capela do Solar de Santo António, Rua de Baixo, Calheta, São Jorge.
– Casa de habitação, Ribeira Seca, Calheta, São Jorge.
– Solar de Ínfias (ou Casa de Vale de Flores), Braga.
– Casa de habitação, Ribeira Seca, Calheta, São Jorge.
– Solar dos Noronhas, Ribeira Seca, Calheta, São Jorge.
– Solar dos Noronhas, Ribeira Seca, Calheta, São Jorge.
– Casa do Guarda Florestal, Furnas, São Miguel.
– Casa de habitação, Terceira.
– Casa de habitação, Fajã dos Vimes, Calheta, São Jorge.
– Adega reconstruída, Fajã dos Vimes, Calheta, São Jorge.
– Adega, Calheta, São Jorge.
– Casa de habitação, Rosais, Velas, São Jorge.
– Museu Francisco Lacerda (antiga casa de habitação), Calheta, São Jorge.
– Museu Francisco Lacerda (antiga casa de habitação), Calheta, São Jorge.
– Casa de habitação, Topo, Calheta, São Jorge.
– Casa de habitação, Topo, Calheta, São Jorge.
– Casa de habitação, Beira, Velas, São Jorge.
– Casa de habitação, Fajã da Caldeira do Santo Cristo, Calheta, São Jorge.

1 “Architectural components do not have an independent life; they are invariably part of a larger ensemble, whether real or imagined. The window as the most interactive (…) of all these is also potentially the most revealing.” (Louw, 2006, p.44). Tradução livre de João Vieira Caldas.
2 “No feature in domestic architecture requires more consideration than the window. To give the requisite amount of light, without unduly cutting up the wall; to admit air when you want it, without admitting wind and wet, which you do not want; to have free scope for viewing external objects, without needlessly exposing your rooms from the exterior; and to do all this in such a way as will add beauty and character to your building, both within and without, are important objects to be aimed at in any style.” George Gilbert Scott – Remarks on Secular and Domestic Architecture: Present and Future. London: John Murray, 1858, p. 24. Tradução livre de João Vieira Caldas.
3 A existência de janelas com contrapesos na Feitoria Inglesa, em edifícios da Universidade de Coimbra e na fábrica Stephens, foi-me confirmada informalmente pelo Prof. Hentie Louw em resultado da investigação que tem em curso sobre o tema.

* Licenciado em Arquitetura (ESBAL, 1977), Mestre em História de Arte (FCSH-UNL, 1988), Doutorado em Arquitetura (IST-UTL, 2007), Professor Auxiliar no Departamento de Engenharia Civil, Arquitetura e Georrecursos do IST-Universidade de Lisboa, Investigador do ICIST.

O Inventário do Património Imóvel do Concelho da Calheta
A Calheta de S. Jorge – apontamentos da sua história
Calheta de São Jorge – aspetos do seu urbanismo
Janelas de guilhotina – proposta de investigação
São Jorge. Calheta
Inventário do Património Imóvel dos Açores