Glossário
 

ALFARGE
Designa um género de decoração, alegadamente de origem islâmica, usado na Península Ibérica sobretudo no final da Idade Média. Aplica-se correntemente aos tetos, também chamados “mudéjares”, cuja estrutura de madeira aparente se combina com elementos com o mesmo perfil, mas puramente decorativos, entrelaçando-se de modo a formar figuras geométricas. Por isso se chama “carpintaria de laço” à técnica utilizada.

ATAFONA
Edificação de apoio à atividade rural, com dois pisos, cujo nome se deve ao engenho de moer cereais de tração animal – a atafona propriamente dita – que alberga no piso térreo. O piso superior era geralmente utilizado como palheiro. A designação mantém-se mesmo quando o engenho já desapareceu e ambos os pisos se destinam ao armazenamento de alfaias, produtos agrícolas e forragem para os animais.

BUGIA
Nome dado localmente a uma pia de despejos aberta na parede da cozinha e escoando diretamente para o exterior. A “boca” interior corresponde a um pequeno e grosseiro nicho complementado por um estreito murete curvo de receção.

BURRA DE MILHO
Armação de troncos ou varas de madeira, de forma piramidal ou prismática, destinada a sequeiro e armazenamento das socas de milho (maçarocas).

CAIXA-DE-ÁGUA
Pequeno depósito de água associado normalmente aos lavabos de sacristia e a alguns chafarizes.

CAIXA DO LAR
Pequeno anexo ou excrescência paralelepipédica da cozinha onde se encontra o lar e por onde se acede ao forno. Abre-se para a cozinha através de um grande vão, por vezes em arco. O lar – banca ou poial onde se faz o lume e se confecionam os alimentos – está encostado a uma das paredes laterais e, na parede do fundo, abre-se a boca do forno. A chaminé, comum ao lar e ao forno, substitui a cobertura da caixa do lar que, deste modo, funciona toda ela como uma grande lareira.

CASA DE TIPO ABARRACADO (OU CASA ABARRACADA)
O mesmo que casa de “empena/fachada”. Tipo de habitação com telhado de duas águas perpendiculares à fachada principal que, em consequência, toma a forma de uma empena onde se abrem as portas e janelas.

CASA DO CARRO
Abrigo para o carro de bois, normalmente encostado a uma empena da habitação, da atafona ou do palheiro. É constituído por duas paredes em alvenaria de pedra solta, perpendiculares entre si, aproveitando como terceira parede a empena a que se encosta. É aberto pelo lado da frente e tem cobertura de uma água.

CHAMINÉ DE MÃOS POSTAS
Chaminé de grandes dimensões, constituída por um troço inferior paralelepipédico onde assenta um prisma triangular deitado cuja secção corresponde a um triângulo isósceles muito agudo. A saída dos fumos abre-se na aresta superior e, frequentemente, está protegida por uma fiada de telhas dispostas de forma a criar aberturas triangulares. Deve ser utilizada em São Jorge por influência da ilha Terceira, de onde é característica.

COMBRO
O mesmo que socalco, seja ou não suportado por um muro de pedra.

COZINHA/FUMEIRO
Caixa do lar
de grandes dimensões, característica das casas abastadas de São Jorge. Não tem chaminé e, em contrapartida, tem as quatro paredes sobrelevadas em relação ao corpo da cozinha e cobertas por um telhado de duas águas, sem forro, através do qual se faz o escoamento dos fumos.

ESTILO NACIONAL
Designação utilizada para classificar os retábulos barrocos portugueses construídos no período que abrange, grosso modo, o último quartel do século XVII e o primeiro quartel do século XVIII, e cujo formulário plástico teria sido adaptado a um quadro estrutural de inspiração autóctone e origem românica. Nos Açores, os retábulos de “estilo nacional” terão começado a construir-se com um ligeiro atraso cronológico em relação ao Continente e persistiram até muito mais tarde, geralmente em versões ingénuas para pequenas capelas ou ermidas.

FAJÃ
Terra baixa e chã que tanto pode ter origem na solidificação de mantos de lavas que escorreram pelas encostas, apresentando assim uma típica inclinação para o mar, como no depósito de materiais provenientes do desmoronamento das arribas erodidas, sendo então geralmente rasa e pouco extensa (in AAVV, Arquitectura Popular dos Açores, 2ª edição, Lisboa, Ordem dos Arquitectos, 2007).

FALSA
Genericamente significa o mesmo que sótão, ou falso piso. Nalgumas ilhas corresponde a um piso habitacional tipicamente açoriano, resultante não só do aproveitamento do vão do telhado mas também do espaço correspondente à faixa superior das fachadas.

FRADES
Pequenas colunas de pedra, com o extremo superior arredondado, usadas para impedir a passagem ou o estacionamento de veículos sobre passeios ou sobre os degraus baixos e largos que conduzem aos adros das igrejas.

FRONTAL
Nome dado frequentemente, nos Açores, a uma parede divisória construída apenas em madeira.

GATEIRA
Pequena janela aberta numa das faces laterais das grandes chaminés e destinada à iluminação do lar.

GRANEL
Pequena dependência de apoio à habitação, destinada, geralmente, a arrumos indiferenciados.

LAR
Local da cozinha onde se acende o lume e se confecionam os alimentos. Na sua versão mais elementar, nos Açores, corresponde a uma simples bancada de pedra (poial). Nas versões mais elaboradas corresponde a um espaço bem delimitado no interior da cozinha (onde se encontra a referida bancada), ou forma mesmo um corpo saliente – a caixa do lar – ao qual estão acoplados o forno e a chaminé.

LOJA
Piso inferior de uma habitação, normalmente destinado a funções de armazenamento genérico ou de apoio à atividade rural incluindo a guarda de alfaias e produtos agrícolas.

MASSEIRA
Nome frequentemente dado em São Jorge à bancada, ou poial, sobre o qual se cozinha e que coincide, por vezes, com o próprio lar.

PORTA DE CARRO
Porta larga, com dois batentes, que se abre no piso térreo de uma habitação, de uma atafona, ou de um palheiro, destinada a permitir a entrada do carro de bois para a sua área de abrigo.

QUARTÉIS
Pequenas divisórias agrícolas, quadrangulares ou retangulares, formadas por muretes de pedra solta e destinadas ao cultivo da vinha abrigando-a dos ventos marítimos. Nalgumas ilhas são também designadas por currais de vinha ou curraletas.

SERLIANA
Vão triplo constituído por um arco de volta inteira apoiado em duas colunas, ou pilares, que definem a abertura central, separando-a das duas aberturas retangulares que a ladeiam em posição simétrica. A arquitrave de remate superior dos vãos laterais é concebida como um elemento contínuo que une os três vãos contornando o arco central. A designação advém do nome de um arquiteto e tratadista do Renascimento – Serlio – que foi o principal divulgador deste tipo de vão já usado na Antiguidade pelos romanos.

TORRE
Trapeira de grandes dimensões, total ou parcialmente construída em madeira, destinada a ampliar o volume do sótão. Geralmente atravessa toda a cobertura, da fachada ao tardoz, e possui telhado próprio de duas águas. As maiores chegam a parecer uma pequena casa de madeira construída sobre a edificação de alvenaria.

São Jorge. Calheta
Inventário do Património Imóvel dos Açores