A Calheta de S. Jorge - Apontamentos da sua história
 
Avelino de Freitas de Meneses*

1. Generalidades

No centro físico dos Açores, a ilha de S. Jorge distingue-se das demais. Para tanto, influem os 65 km de comprimento por apenas 7 de largura, também a localização de quase 40% do seu território acima dos 500 metros, a permitir a individualização de regiões bem distintas, por exemplo, as fajãs da beira-mar, as arribas mais ou menos escarpadas, os planaltos e a cordilheira. Assim, adquirem plena propriedade os epítetos de “alto espinhaço” e de “lombo agudo” com que nos séculos XVI e XVII a denominam Gaspar Frutuoso e Diogo das Chagas. Porém, é em S. Jorge que melhor se individualiza a máxima açoriana de Vitorino Nemésio, que estabelece correspondência entre o devir histórico e o determinismo geográfico. Com efeito, é a diversidade dos meios que justifica a aclimatação das culturas exóticas, caso do café na soalheira Fajã de S. João, mas também a inadaptação das culturas mediterrânicas, concretamente os cereais, que a partir da média altitude soçobram perante a humidade, o frio e o nevoeiro, cedendo o passo sobretudo às pastagens, mas ainda aos matagais, donde brotam a abundância e a qualidade dos gados, o mesmo é dizer da carne e do queijo, e até das madeiras, tudo muito mais condizente com ambientes nórdicos. Nestas circunstâncias, a natureza condiciona de todo a vida dos homens, que primeiro exploram umas nesgas de terra plana junto ao mar, antes de se aventurarem nas paragens mais inóspitas de cima, do interior e do norte.

2. A OCUPAÇÃO HUMANA

2.1. OS TEMPOS E OS LUGARES

Sobre o povoamento de S. Jorge, muito se diz. Todavia, a abundância das referências não possui correspondência na sustentação das certezas. Como nas demais ilhas, tudo principiou com o lançamento de animais à terra virgem, para aferir a fertilidade dos solos, para precaver o sustento das gentes. Quanto à ocupação humana propriamente dita, começou pelas fajãs mais ricas e acessíveis da banda do sul. De resto, os principais núcleos da colonização estabelecem-se primeiro nas Velas, depois no Topo, acima do mar, mas em local seguro, mais tardiamente na Calheta, talvez ainda no decurso do século XV.
Em matéria de cronologia, releva a incógnita da elevação das Velas à condição de vila, embora se admita uma promoção do termo do século XV, mesmo do ano de 1500. De resto, sabe-se que a dignidade concelhia favorece o Topo em 1510 e a Calheta em 1534. Independentemente da incerteza velense, em torno de tais anos, os principais núcleos do povoamento jorgense evidenciam decerto uma moldura humana considerável, embora a distinção municipal tanto sirva de reconhecimento do progresso alcançado como de incentivo à obtenção de maior avanço. Mais discutível é o começo da colonização de S. Jorge. A certeza do Pe. Manuel Luís Maldonado de que as ilhas “… foram povoadas quase a um mesmo tempo…” 1 é afinal uma falsidade. De facto, é bem conhecida a anterioridade do grupo oriental em todo o arquipélago, ainda na 1ª metade de quatrocentos, e inclusivamente a antecipação da Terceira entre as parcelas do centro, impossível antes de 1450, incipiente antes de 1460. Assim, razão assiste ao Dr. João Teixeira Soares de Sousa, quando sustenta terem sido estas ilhas, pelo menos as do centro, povoadas muito mais tarde do que se pensa 2 . Com efeito, enganador é também o testamento do infante D. Henrique de 1460, nas referências à edificação de igrejas em todas as ilhas, apenas reportáveis a uma deliberada intenção, alçada à condição de prova de sucesso da arroteia do donatário. Assim, é bem de crer que, em reduzido número, os primeiros povoadores aportassem a S. Jorge apenas no decurso do decénio de 1460, isto é, muito depois do enigmático desaparecimento do capitão terceirense Jácome de Bruges e após a chegada a Angra de Álvaro Martins Homem, improvável executor de uma estratégia portuguesa de humanização das ilhas circundantes, para conter um propósito expansionista dos flamengos 3 .
O avanço da ocupação de S. Jorge aguarda entretanto por 1483, isto é, pela doação da capitania a João Vaz Corte-Real, com provas dadas na colonização da parte de Angra da ilha Terceira. Embora erradamente, o facto é equiparado ao advento do próprio povoamento, considerando o significativo acesso das gentes. Depois, o processo ainda se intensifica, logo na década de 1490, com a chegada do flamengo Guilherme Vandaraga, que adota o apelido da Silveira, por força da tradução do sobrenome estrangeiro, com o significado português de bosque de silvas. Este novo agente da arroteia jorgense fora um dos pioneiros da migração flamenga para o Faial, responsável pelo transporte de colonos. Todavia, na Horta, a hostilidade de Jos Dutra ou a ambição pessoal do proveito e do mando justificam a realização de um périplo, em busca de melhores oportunidades, por lugares ou por ilhas de mais lenta estruturação, por exemplo, as Quatro Ribeiras, na Terceira, ou a longínqua ilha das Flores, ainda deserta, e onde permanece por cerca de um decénio. Reza a tradição que, após este corrupio de experiências, o estabelecimento de Guilherme da Silveira em S. Jorge, na banda do Topo, derivou da descoberta de um solo fértil, aferido pela abertura de uma cova, que depois não conteve toda a terra dela extraída, em sinal de riqueza. Manda entretanto a razão que se justifique o estabelecimento no Topo do explorador flandrense pelas boas condições do acolhimento, eventualmente propiciadas pelo próprio capitão do donatário, que sempre atraíra novos povoadores com “… dádivas e carícias…” 4 . Depois de tudo isto, os indícios da construção, ainda nos últimos anos do século XV, da ermida de Santa Catarina de Alexandria prova a afluência dos povoadores à Calheta, cujo nome deriva da configuração do litoral, propício ao amparo da navegação. Neste caso, os colonos procedem decerto das paragens jorgenses primeiramente ocupadas, fenómeno que confere ao novo povoado uma fama de hospitalidade, a prazo vertida no ditado popular relembrado pelo Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, segundo o qual “A Calheta é madrasta para os seus filhos e mãe para os estranhos”5 .
Dos três laboratórios do povoamento jorgense – as Velas, o Topo e a Calheta – que conquistam a dignidade municipal entre os finais do século XV e o 1º terço do século XVI, as populações irradiam para outras paragens. Embora se admita o enchimento da ilha no decorrer da 2ª metade do século XVI, muitas terras permanecem entretanto baldias, os ditos escalvados, avultando também a tardia ocupação, por vezes quase oitocentista, de bandas do norte e de partes altas. Aliás, já Gaspar Frutuoso reconhecera o despovoamento do lado setentrional, “… por ser terra tão áspera, que não se pode habitar, nem se poderem sustentar os que nela quisessem viver” 6. Por isso, até bem recentemente, a vivência na serra do Topo comporta uma migração para terrenos mais baixos, na crista da invernia.

2.2. AS GENTES

No grupo central, a Terceira assumiu a função de centro irradiador da colonização para as ilhas circundantes. A única exceção terá sido eventualmente o Faial, que por si só acolheu colonos, sobretudo flamengos, e que assegurou, pela adjacência, o povoamento do Pico, onde também figuram alguns terceirenses. Todavia, escasseiam os dados sobre a sequência da ocupação humana. Inclusivamente sobra a dúvida acerca da ordem de precedências entre o Faial, mais autónomo no recrutamento de povoadores, e a Graciosa, mais aconchegada ao amparo terceirense. Sobremaneira penalizadas pelas adversidades da natureza, sobressai o atraso de S. Jorge e principalmente do Pico. Com efeito, nos alvores do século XVI, encontrando-se povoadas as sete ilhas dos grupos oriental e central, S. Jorge e o Pico ressaltam pela manifestação de um preenchimento ainda muito rudimentar 7.
No povoamento de S. Jorge, sobejam os registos da participação e da influência de metropolitanos de todos os recantos. O discurso historiográfico alude aos homens dos portos do centro/norte de Portugal, por exemplo, da Figueira, de Aveiro e de Viana 8. A tecnologia agrícola conserva os vestígios do sul, a saber, na utilização do arado de garganta, dito dental, originário do Alentejo e do Algarve, e no predomínio da grade algarvia 9. Contudo, se indevidamente contextualizadas, tais notícias são enganadoras. Com efeito, se na ocupação do grupo oriental, da Terceira e até do Faial preponderam os forasteiros, portugueses ou estrangeiros, é bem de crer que na colonização das demais ilhas, inequivocamente nas Flores e no Corvo, mas também na Graciosa, em S. Jorge e no Pico, imperem os próprios insulanos, muitos deles continentais, após um tirocínio em parcelas de povoação mais antiga.
Entre os séculos XV e XVII, sobejam as provas do ingresso em S. Jorge de gente da Terceira, do Faial e de S. Miguel, e ainda da Graciosa e do Pico. Por isso, o Pe. Manuel de Azevedo da Cunha estabelece correspondência entre a invocação de Santa Catarina de Alexandria na ermida/matriz da Calheta e a naturalidade dos primeiros povoadores, da Terceira e do Faial, pois apenas no Cabo da Praia e em Castelo Branco se evoca a mesma padroeira 10. Em manuscrito que não conhece a luz do dia, José Cândido da Silveira Avelar admite, após a morte do infante D. Henrique, uma hipótese de divisão de S. Jorge entre os faialenses António e Luís Gonçalves, com exclusão da parte do Topo, arroteada por Guilherme da Silveira 11. O desajuste da cronologia desacredita de todo esta possibilidade. Além disso, o principal sustentáculo do povoamento de S. Jorge reside verdadeiramente na Terceira. Aliás, com muita propriedade, Diogo das Chagas salienta que “… os nobres apelidos, de que se povoou (S. Jorge) são os mesmos da Terceira…” 12. O fenómeno decorre muito da concessão em 1483 da capitania jorgense a João Vaz Corte-Real, já capitão da parte de Angra, desde 1474. Assim, entre os povoadores de S. Jorge, particularmente da Calheta, sobressaem os casos de Álvaro Vieira, que viera para a Terceira com o capitão Corte-Real, e de Sebastião Dias Salazar, casado com Senhorinha Gonçalves, chegados a Angra em 1484 e depressa transpostos para a ilha vizinha 13. Por vezes, os descendentes retornam à Terceira, movidos por propostas de casamento, quiçá por ambições de maior notoriedade. É o que acontece, por exemplo, com os filhos de Jorge de Lemos e de Maria d’Ávila, pioneiros da arroteia jorgense 14. Talvez por isso, na 1ª metade do século XVI, é de fácil identificação um considerável grupo de terceirenses, detentor de propriedades em S. Jorge. Alguns deles poderão até ter assumido responsabilidades na ocupação jorgense sem a correspondente transferência de poiso.
Entre os povoadores de S. Jorge, ressalta ainda um contingente de estrangeiros, sobretudo de flamengos, também ele procedente do próprio arquipélago, após experiências de menor sucesso em diversas ilhas. Reportamo-nos ao grupo liderado por Guilherme da Silveira, estabelecido em finais do século XV no Topo, por si só um topónimo de origem flandrense. Aliás, na sucessão dos tempos, permaneceu a crença na fácil identificação de um conjunto de jorgenses de estatura alta, tez clara e cabelos loiros, descendentes dos primitivos colonos da Flandres. A comprová-lo, na 2ª metade do século XIX, ficou conhecido em New Bedford o denominado José Irlandês, emigrado de S. Jorge e detentor das supostas características étnicas flamengas, por ser descendente dos Matos do Topo, da linhagem de Guilherme da Silveira 15.

3. O MODO DE VIDA

Em S. Jorge, historicamente, a textura do solo e sobretudo a disposição do relevo definem o carácter de uma economia singular, equidistante entre o propósito da exportação da Terceira e de S. Miguel e o objetivo da subsistência da generalidade das ilhas. A escassez de solos abaixo dos 300/400 m de altitude dita o predomínio das pastagens e dos matos, que resulta no desenvolvimento da pecuária, vertido na abundância da carne e na excelência do queijo, e na exploração florestal, com maior expressão num passado mais distante. Pelo contrário, a cerealicultura experimenta grandes dificuldades, que obrigam à invenção de meios de subsistência, eventualmente no mar, pelo que o grupo dos marítimos excede a média insular, mas ainda em terra, onde muito antes da introdução da batata o inhame adquire o carácter de “pão dos pobres”, ao ponto de no termo do século XVII mover um alvoroçado motim, determinado pelo intento régio da taxação. De resto, em recantos mais soalheiros e abrigados, vingam os pomares, de frutas muito variadas, e principalmente as vinhas, que nos Casteletes produzem o mais renomado dos néctares dos Açores.

3.1. A CRIAÇÃO DE GADO

Em 1825, a vereação da Calheta caracteriza o essencial da economia de S. Jorge, destacando a preponderância da criação e da exportação de gado. Com efeito, dizem os camaristas que “… há mais campos de pastos do que de lavoura, sendo o resto árvores e matos silvestres…” e acrescentam que “Não há mais géneros a exportar à excepção de gado vacum e queijos…” 16. Com este parecer condiz quer o registo de Ferreira Drummond, que destaca a abundância de manadas e rebanhos em S. Jorge, quer a caracterização do Pe. Manuel de Azevedo da Cunha relativa ao Loural, porque “Assentado no meio de pastagens, vivendo por isso seus habitantes principalmente de pastorear seu gado…” 17. Acima de tudo, as estatísticas do começo do século XIX comprovam a dianteira da pecuária jorgense. Embora sem dados para a Terceira e S. Miguel, evidenciam a supremacia de S. Jorge que, nos bovinos, e se excetuado o Pico, atinge mais do dobro das restantes ilhas 18.
A fama da pecuária de S. Jorge depressa ecoa pelos Açores, movendo o interesse das autoridades encarregues do abastecimento público das cidades e das armadas de Além-Mar. Na verdade, após a instituição do governo-geral em 1766, o capitão-general incumbe às edilidades jorgenses o provimento de Angra e da Horta 19. Todavia, o novo poder apenas institucionaliza uma prática tradicional. De facto, já em 1552, Pero Anes do Canto, provedor das armadas da ilha Terceira, sugerira ao rei um contributo jorgense de 10 pipas de carne por ano, tanto quanto o conjunto Faial-Pico, para reabastecimento das carreiras comerciais 20. Porém, os bovinos jorgenses chegarão mais tarde ainda mais longe, por exemplo, a S. Miguel, inclusivamente à Madeira e a Lisboa, embora muitas vezes através dos portos de Angra e da Horta, que encobrem a verdadeira origem dos animais. A comprová-lo, em 1875, o caso da escuna Maria Margarida, procedente de Aveiro com carregamento de sal, que foi fretada para o transporte de gado da Calheta para S. Miguel. Já com 60 bois a bordo, o levantamento de um forte temporal obrigou a tripulação a um regresso a terra, pior do que isso, motivou a morte de uma companha da Ribeira Seca, que estimulada por copos de vinho aceitou a realização de uma vistoria à embarcação, que resultou em naufrágio dos afoitos 21. Os preços compensadores do gado nos mercados de Angra e Horta suscitam muitas vezes uma exportação em excesso, que gera a escassez de carne. O fenómeno ocorre mais no município de Velas, também por artifício das câmaras de Calheta e Topo, mais ricas em matéria de pecuária. Por isso, nos anos de 1743, 1748 e 1749, o executivo velense indexa o regular fornecimento dos açougues à cobrança de determinadas imposições, transferindo para os particulares uma responsabilidade tradicionalmente pública 22.
Em S. Jorge, predominam naturalmente os bovinos, que geram o maior proveito, resultante da comercialização da carne e do queijo. Todavia, em sítios mais inacessíveis, por exemplo, nos rochedos, nas encostas e nos maninhos, prepondera o gado miúdo. À cabeça, os rebanhos de cabras, que danificam as culturas, movendo a vigilância dos particulares até nos escalvados, por vezes regulada por legislação camarária. De maior conveniência, em tempos mais próximos, também as ovelhas, que facultam o incremento da tecelagem. Em 1887, no concelho da Calheta, contam-se cerca de 5500 cabeças, que fornecem a matéria-prima indispensável à laboração dos 712 teares inventariados pelo inquérito industrial de 1881, um número deveras significativo, se confrontado com os 850 de toda a populosa ilha Terceira 23.
Na atualidade, o destaque de S. Jorge na produção regional de leite, atrás somente da Terceira e de S. Miguel, comprova o desenvolvimento da pecuária, com origem no tempo do povoamento. Pela excelência das pastagens, não tanto pelo legado dos flamengos, o leite jorgense propicia o fabrico de um queijo de qualidade superior, considerado já o melhor dos Açores, por testemunho quinhentista de Gaspar Frutuoso. Localmente, a abundância converte o queijo em substituto de produtos básicos em conjunturas de maior escassez. Externamente, a categoria transforma o queijo em principal remessa jorgense, efetuada para todas as ilhas, um tanto à semelhança do barro de Santa Maria. A testemunhá-lo, o articulado das posturas do Topo de 1757, que determina o controlo para consumo e a franquia para exportação 24. Na transição para o século XX, o manejo artesanal do leite cede o lugar à industrialização, que torna os laticínios em relevante atividade dos jorgenses. Aliás, logo em 1910, para além da persistência da produção caseira, registamos a laboração de 11 fábricas em S. Jorge, um número apenas superado pelas 13 das Flores, mas certamente de menor dimensão 25.

3.2. A EXPLORAÇÃO FLORESTAL

Acima das pastagens, em sítios mais acidentados, prevalecem os matos, donde se extraem durante mais de um século madeiras grossas, que se exportam para a Horta, Angra e Ponta Delgada, destinadas à indústria do mobiliário, à execução de alfaias e à construção naval. Porém, na sucessão do tempo, a eventual redução da mancha florestal, fruto do consumo doméstico das lenhas, diminui a exportação de madeira, também prejudicada pela concorrência das madeiras exóticas do Brasil, da América e Europa do Norte, que movem a preferência dos construtores. Mesmo assim, ainda por meados do século XVIII, uma parte substancial da lenha que desembarca no porto de Angra procede de S. Jorge, sendo apenas superada pelos carregamentos do Pico 26.

3.3. OS CEREAIS

Ainda no século XVI, aos bons indícios da produção de trigo depressa sucedem os sinais de escassez, que a sucessão do tempo confirma. A testemunhá-lo, o relato de Gaspar Frutuoso sobre o Topo. De facto, o cronista regista o pagamento por Guilherme da Silveira de cerca de 60 moios ao dízimo, antes do arrastamento da terra para o mar, por consequência da chuva, que generaliza a esterilidade 27. Mais do que efeito de qualquer enxurrada, a insuficiência cerealífera jorgense, apenas superada pelas maiores carências do Pico, deriva da falta de terra lavradia, uma decorrência do relevo, do frio e da humidade. Nestas circunstâncias, pouco influem as incidências do acaso. A título de exemplo, em 1560, a praga de tentilhões nas searas do Topo, que move a câmara à organização de preces públicas, implorando a intercessão de Nossa Senhora do Rosário 28.
A injúria e a expulsão de Afonso Capiquo que, no inverno de 1552, intenta a extração em trigo das rendas régias já dizem bem dos receios de penúria, que provocam o alvoroço das gentes 29. Aliás, a insuficiência frumentária conhece um agravamento na sucessão dos séculos, talvez minorado pela melhor aclimatação do milho, que resiste mais às contrariedades do relevo e da humidade, sobretudo pelo cultivo do inhame, que medra nas escarpas aguadas. Na primavera de 1758, a compra nas Velas de 12 moios de milho pelo vigário do Topo, para remedeio de situações penosas, aponta para o reconhecimento de maior infertilidade cerealífera nos concelhos de Calheta e Topo, mais especializados no fomento da pecuária 30. A subida dos preços, mesmo que decidida em junta de proprietários e de comerciantes que, por mediação camarária, intenta a aplicação de valores justos constitui um sinal, primeiro e permanente, da crise frumentária. Todavia, o aprofundamento das carências motiva a adoção de medidas mais drásticas. Por exemplo, em 1758, no Topo, até a interdição das exportações de gado e de queijo 31. Nestas circunstâncias, ao tempo da instituição da Capitania Geral dos Açores, o esforço de inventariação dos recursos económicos insulares evidencia melhor o défice frumentário de S. Jorge, cujas colheitas não chegam, pelo menos de 1767 a 1769, para o pagamento dos oficiais civis e dos ministros eclesiásticos 32. Contudo, o insucesso dos celeiros públicos então instituídos em Angra e Ponta Delgada para garantir o atempado provimento das populações, através da regulação do mercado, deixa os jorgenses a braços com as carências cerealíferas do passado, por falta de qualquer solução alternativa.
Afora alguns indícios de exportação em anos de maior abastança, a subsistência dos jorgenses depende frequentemente da importação, já identificada na 2ª metade do século XVI. Por norma, os cereais afluem das ilhas circunvizinhas, sempre da Terceira, também da Graciosa, menos do Faial, que possui o encargo do provimento do Pico. Em conjunturas mais gravosas, também chegam de S. Miguel e até do estrangeiro, sobretudo da América do Norte.

3.4. AS ATIVIDADES MARÍTIMAS

Na memória dos povos, ainda perdura a subida participação dos jorgenses na caça à baleia dos séculos XIX/XX. À vista das gentes, a persistência da indústria conserveira, particularmente na Calheta, testemunha a continuidade dos jorgenses nas fainas da pesca, por exemplo, do atum. Por capricho da natureza, a singular existência de ameijoas na Fajã da Caldeira de Santo Cristo também individualiza S. Jorge no roteiro marítimo dos Açores.
O Pe. Manuel de Azevedo da Cunha cognomina a Calheta de povoação marinheira, registando até que a própria vila possui a configuração de um batel. A investigação recupera, por seu turno, no passado de S. Jorge uma vocação marítima, apenas superada na ilha do Pico e no grupo ocidental. É o que se deduz da análise dos levantamentos de mareantes nos Açores, ordenados em 1770-71 pela recém-instituída Capitania Geral. Na verdade, entre os jorgenses, os homens do mar correspondem a uma percentagem de 2.1, à frente do Faial (1.9), da Terceira (1.3) e de S. Miguel (1.2) 33. Ademais, em S. Jorge releva a dianteira da Calheta, com 11.8% de marítimos, contra os 3.4% do Topo e os escassos 0.7% das Velas 34. Por isso, acreditamos que as contrariedades da terra, sobretudo as restrições da agricultura, movem maior procura de arrimo no mar, na pesca ou na navegação.
Por meados do século XIX, em 1840 e 1846, as mortes de Laureana Rosa e de António Inácio na apanha das lapas são dois episódios demasiado singulares, que não testemunham por si sós a inclinação dos jorgenses pelas lides do mar 35. No entanto, os muitos calhetenses com destaque em armações estrangeiras das longínquas fainas da baleia e do bacalhau já denotam o desenvolvimento das atividades marítimas, que exige ponderação. São os casos do mestre baleeiro João Faustino Blayer da Silveira, que morre na baía de Hudson, na 2ª metade do século XIX, na sequência do naufrágio de uma canoa, a caminho do Pólo Norte, e do mareante João Ferreira da Cunha que anda, desde 1870, em navios baleeiros por “… todos os mares do globo” 36. São também as situações dos comandantes bacalhoeiros. Entre eles, José de Azevedo da Cunha que, já idoso, e também na última metade de oitocentos, naufraga no gelo em Provincetown, depois de comandar por muitos anos “… navios da pesca do bacalhau nos bancos da Terra Nova” 37.
Nos estaleiros da Calheta, do século XVI ao termo do século XIX, o dinamismo da construção naval comprova a relevante expressão das atividades marítimas na ilha de S. Jorge. Com efeito, uma referência ao engenho do construtor oitocentista José António da Silva Regalo testemunha a feitura de “… barcos grandes de cabotagem, e barcos de pesca” 38. Contudo, o progresso dos transportes marítimos, bem percetível desde 1892, a partir da escala calhetense do Açor, da Companhia Insulana de Navegação, afrouxa a indústria náutica jorgense, agora mais cingida à armação de pequenos iates. Aliás, o falucho S. Jorge, lançado à água em 1875, foi o último barco de coberta construído em doca calhetense 39.

3.5. O INHAME

O remedeio das carências da agricultura depende mais da invenção de culturas de subsistência do que do arrimo das lides marítimas. Pela adaptação a terrenos íngremes e húmidos, os inhames foram vulgarmente o passadio dos pobres, pelo menos até à difusão do cultivo da batata inglesa, já em transição para o século XIX. No entanto, a excelente aclimatação em certos habitáculos gera produções de grande qualidade, que atingem altos preços. É o que acontece nas chamadas terras do Rio, na Fajã dos Vimes, cujos inhames são uma “preciosidade”, a crer no testemunho do Pe. Manuel de Azevedo da Cunha. Por isso, são estes terrenos muitíssimo disputados, vendendo-se pelo avultado valor de 1000$000/alqueire 40. Porém, em S. Jorge, é a singular constituição de um lucrativo e independente ramo dos dízimos que melhor testemunha a valia económica deste tubérculo. Aliás, até trilha as rotas da exportação, como se depreende da averiguação do movimento portuário de Angra 41. Nestas circunstâncias, releva por natural a vigilância municipal sobre os solos de inhames, que impede a utilização de atalhos por entre as plantações, para prevenir eventuais danos 42.

3.6. A FRUTA

Na costa sul, em habitáculos benignos, muitas vezes sob a proteção de paredes ou sebes, crescem as árvores de fruto, que registam algumas produções de nomeada. Na Fajã dos Vimes, a qualidade dos pêssegos é equiparada à dos congéneres de Amarante. Todavia, distinguem-se muitas outras espécies, por exemplo, de maçãs, peras, marmelos, figos e laranjas. É de crer que, à semelhança do que ocorre no demais arquipélago, o maior proveito resulte da exportação dos citrinos, desde o declinar do século XVIII e em parte substancial do século XIX. Todavia, após a sua revelação no Faial em 1838, a praga das laranjeiras atinge S. Jorge logo em 1843, constituindo uma ameaça à regularidade do comércio, embora com consequências dramáticas mais tarde 43.

3.7. A VINHA

Em S. Jorge, à semelhança do que historicamente sucede em ilhas alcantiladas, por exemplo, na Madeira, a tradição europeia força a cultura dos cereais, que depois recua perante cultivos de maior adequação, concretamente a vinha. De facto, logo no decurso do século XVI, as vides enraízam na costa do sul, sobretudo em locais mais soalheiros, por exemplo, entre a Queimada e as Manadas, nas fajãs Grande, dos Vimes e de S. João, e até no planalto da Ribeira Seca. Aliás, em anos de abundância, quando Frutuoso calcula colheitas, decerto excessivas, de cerca de 3000 pipas, já sucede a exportação, especialmente para a Terceira, reconhecida por Frédéric Mauro, quando assevera que o mercado de Angra recorre aos vinhos novos das parcelas circundantes 44.
Entre os séculos XVII e XIX, volvido o percalço do vulcanismo de 1580, que destrói muitas adegas, identificamos um progresso contínuo da viticultura jorgense, talvez estimulado pelos efeitos da crise económica insular de meados de seiscentos. Assim, acresce o volume e a geografia da extração, que impede o abaixamento interno dos preços, também justificado por uma política de uniformização de valores com Angra e Horta. A comprová-lo, entre 1756 e 1766, a preponderante produção vinícola do Pico, embora mais escoada pela baía da Horta, não ressalta da análise dos ingressos vinícolas do porto de Angra. Com efeito, entram 3354 pipas do Pico, um montante quase idêntico ao de S. Jorge, de 3139 pipas 45. Depois, em 1821, as vendas já atingem a ilha de S. Miguel, como se depreende do relato do naufrágio na Calheta do brigue Conceição e Almas, que viera de Ponta Delgada aos Terreiros carregar vinho 46.
As provas da riqueza vinícola de S. Jorge residem em indicadores menos quantificáveis, igualmente significativos. À cabeça de todos eles, a cobrança em separado, por altura das vindimas, de um dízimo dos vinhos na Urzelina, também em diversas localidades dos concelhos de Calheta e Topo, uma prática com paralelo apenas no Pico. Por isso, os franciscanos de Angra, que tradicionalmente realizam um peditório pelos lajidos picoenses, por ocasião das colheitas, repetem o procedimento nas fajãs jorgenses, considerando a fertilidade vinícola 47. Aliás, o zelo do poder municipal na proteção das vinhas, contra roubos e devastações, testemunha bem a valia deste ramo de atividade na economia jorgense. Assim, em 1759, no Topo interdita-se as entradas de gado miúdo nas vinhas, das podas às vindimas, com pena de $100, no demais tempo, com multa de $20 48. A mesma preocupação já levara os camaristas, após o terramoto de 9 de julho de 1757, à imposição de uma participação de duas pessoas por fogo, para desobstrução dos caminhos das vinhas, e conduzi-los-á, no verão de 1769, às ordens de cativeiro dos cães e de interdição da Fajã de S. João, para pernoita e circulação, antes do amanhecer e depois do pôr-do-sol 49. A necessidade da construção, do conserto e da conservação do vasilhame indispensável à guarda dos vinhos move ainda o resguardo e a disputa dos tanoeiros. Na verdade, estão sujeitos a um apertado controlo camarário, que no Topo de 1748 lhes barra a possibilidade do exercício da profissão fora da jurisdição, sob pena de $6000 50.
Nos Açores, durante longo tempo, por falta de qualidade, o vinho foi muito mais um ingrediente da alimentação do que propriamente uma mercadoria. No entanto, no século XVII, com o enchimento das ilhas mais periféricas do grupo central, a vinha descobriu terrenos de cultivo mais apropriados, que propiciaram colheitas comercializáveis de excelência, que a tradição considera constantes no Pico, não tanto em S. Jorge. Porém, por meados de oitocentos, Ferreira Drummond não hesita na consideração de que as castas brancas dos Casteletes produzem o melhor vinho dos Açores 51. Aliás, em 1775, fora servido em Lisboa no banquete da inauguração da estátua equestre do rei D. José I 52.
A produção de vinho ainda faculta o fabrico de aguardente, por vezes em excesso. Por isso, as câmaras municipais ora proíbem a laboração dos alambiques, para impedir a escassez dos vinhos, ora procedem ao lançamento de imposições, para compensar o decréscimo dos tributos vinícolas. Quer isto significar que acresce o valor mercantil da aguardente, ao ponto de nela serem convertidas as rendas régias, como sucede com o contrato do tabaco em 1762 53. Mesmo assim, no grupo central, em matéria de fabricação de aguardente, S. Jorge jamais assume a dianteira. Uma vez mais, a averiguação do movimento portuário de Angra de 1756 a 1766 regista um ingresso de 536 pipas, nitidamente à frente do Faial com 349 pipas, mas muito aquém da Graciosa e do Pico, com quantidades de 1866 e 1351 pipas, respetivamente 54.

3.8. OUTRAS CULTURAS

Historicamente, a urzela, o linho e a batata ainda demandam menção na ilha de S. Jorge. Aliás, o topónimo Urzelina indicia a abundância, e naturalmente a apanha e a comercialização, da tintureira, que no século XVIII mantém algum valor económico 55. Quanto ao linho, dados camarários de 1755 indiciam o valor da cultura, já que na Calheta se ordena o ajuntamento das cabras que vagueiam pelas escarpas, para evitar o desprendimento de pedras que danifiquem a rama que seca no sopé das encostas 56. Do mesmo modo, em 1822, João Soares de Albergaria e Sousa releva a excelência dos panos de linho jorgenses, que só soçobram por meados de oitocentos, em virtude do embaratecimento dos algodões e das casimiras externos 57. Acerca da batata inglesa, cuja difusão no século XIX contribuiu para a alavancagem do crescimento populacional, viu o seu cultivo estimulado por uma portaria de 16 de novembro de 1798 da Capitania Geral, que decretava uma isenção do dízimo por 10 anos 58. Já a batata-doce experimenta maior desenvolvimento a partir de 1861 59.

4. FACTOS DIGNOS DE MEMÓRIA

4.1. O MOTIM DOS INHAMES

O motim dos inhames, também denominado motim da Calheta, prova bem a relevância do tubérculo na economia de S. Jorge, uma indispensabilidade na ótica da subsistência dos povos, uma conveniência na perspetiva do proveito do erário régio. A revolta deriva de uma ordem de cobrança de dízimo sobre a produção de inhames. Além disso, a contestação acresce por ação da insolência dos cobradores, que intenta a conversão dos contribuintes em carregadores. Com efeito, os agentes do fisco exigem o pagamento do tributo no centro das localidades, em vez da acostumada deslocação aos lugares de cultivo, as escarpas mais alcantiladas e perigosas.
A contestação irrompe em 1694, quando Amaro Soares de Sousa, escrivão do almoxarifado e sargento-mor das Velas, solicita a colaboração dos tabeliães da Calheta, no processo de identificação de cerca de 150 moradores, por incumprimento dos dízimos de 1692, 1693 e 1694. Alegando a incompetência dos cobradores, por supostamente agirem fora da sua área de jurisdição, o capitão-mor da Calheta, Gonçalo Pereira Machado, e a própria vereação incitam à desobediência, movendo o alvoroço dos populares, que organizam companhias de resistência e de reação. Acossados, os agentes fiscais logram refúgio na igreja de Nossa Senhora das Neves, do Norte Grande, apenas salvaguardada do fogo por intermediação do vigário. Mesmo assim, os revoltosos ditam a libertação dos já prisioneiros e a anulação da devassa entretanto aberta pelo almoxarife, que foi queimada na sineira.
Apurados sumariamente os principais factos, em agosto de 1695, o rei ordena ao corregedor a abertura de uma nova devassa. Temente da insolência dos locais, o ministro desembarca em S. Jorge em junho de 1696, protegido por um contingente de 50 militares do castelo de S. João Batista, que depressa consegue a neutralização e o aprisionamento dos infratores. À cabeça de todos eles, o capitão-mor Gonçalo Pereira Machado, mas também membros da vereação, capitães de ordenanças e muitos revoltosos, embora o vulgo da turba se confundisse com o essencial das populações da Calheta, do Topo e do Norte Grande. O castigo consiste em sequestro de bens, para pagamento dos elevados custos da devassa, com soldos, transportes e estadias, e inclui a prisão dos acusados, que são expatriados. Para a Terceira, partem os cabecilhas, ficando nas masmorras do castelo de S. João Batista os prisioneiros de maior cuidado, e os demais nas cadeias públicas da cidade de Angra. Para o Faial, seguem os insurgentes anónimos, que primeiramente logram a libertação. Todavia, para advertência de todos, o líder Gonçalo Pereira Machado viaja para Lisboa, morrendo na prisão do Limoeiro, sem a conclusão de qualquer processo judicial. No termo da discórdia, as notícias indiciam o decréscimo da produção de inhames, talvez por impedimento de muitos cultivadores. Contudo, a breve trecho, ressalta a retoma e o acréscimo das colheitas, indispensáveis à subsistência das populações, úteis aos cofres da coroa 60.
A partir de 1985, em rememoração da cultura do tubérculo e em respeito pelo motim popular, a heráldica da Calheta inclui duas folhas de inhame de verde em chefe. Acima de tudo, um preito à história.

4.2. O TERRAMOTO DE 1757

O vulcanismo e a sismicidade influem muito no quotidiano dos açorianos, dificilmente habituados ao convívio com a imprevisibilidade e a devastação das erupções e dos terramotos, que obrigam à reconstituição de vidas e de vivências, por vezes em paragens bem longínquas. Em S. Jorge, historicamente, por entre uma diversidade de manifestações sismo-vulcânicas, avultam as erupções de 1580 e de 1808, da banda das Velas, e o enormíssimo terramoto de 1757, do lado da Calheta. Mais recentemente, ainda sobressaem a crise de 1964 e o sismo de 1980, que motiva o abandono da Fajã Redonda e do Sanguinhal.
Às 23 horas e 45 minutos de sábado, dia 9 de julho de 1757, com maior incidência nas jurisdições da Calheta e do Topo, ocorre o maior terramoto da história dos Açores, cuja intensidade máxima atinge, na Fajã dos Vimes, o grau 11 da Escala de Mercalli Modificada de 1931. A inexistência de tremores premonitórios e o recolhimento noturno amplificam consideravelmente a dimensão da tragédia, aferida por uma grande destruição e por muitas mortes. No entendimento mais recente dos especialistas, ainda firmado na análise e na crítica das descrições coevas, ressalta à evidência a origem tectónica do sismo. Assim, cai em descrédito a tradicional hipótese do consequente surgimento de uma erupção submarina, que originaria o aparecimento, logo na manhã de 10 de julho, de cerca de 18 ilhotas contíguas à costa de nordeste 61. Ao abalo, segue-se um ténue maremoto, sendo os efeitos de ambos os fenómenos também sentidos nas demais ilhas do grupo central, acompanhados de danos no património, eventualmente de perda de vidas 62. Os epítetos populares de “O Grande” e de “O Mandado de Deus” testemunham bem a gravidade do desastre, que Frederico Machado inclui nas principais catástrofes sísmicas mundiais 63. Por isso, surgem várias descrições do cataclismo, que conseguem uma divulgação rápida nas ilhas, no Reino e até no estrangeiro, por via da realização de traduções, sobretudo na então preponderante língua francesa 64.
Os homens sofrem duramente as consequências do terramoto. Ao todo, morrem para cima de 1000 pessoas, a que ainda acrescem muitos mais feridos, sobretudo nos concelhos de Calheta e Topo. Estes números correspondem a uma elevada taxa de mortalidade de 20 a 30% nas zonas epicentrais, que origina alterações demográficas sensíveis. Aliás, a acumulação dos corpos e o desmoronamento dos templos impedem a realização dos funerais pelas práticas tradicionais, já que passam de incumbência particular a diligência comunitária. Na verdade, a generalidade dos enterros ocorre em valas comuns escavadas nos adros das igrejas e em terrenos contíguos. Porém, muitos sinistrados jazem definitivamente sob o peso dos escombros, em mais uma demonstração do ímpeto do sismo e da insuficiência dos meios de ação técnica. A comprová-lo, registemos, por exemplo, a situação do Topo, onde morrem 125 criaturas, ficando 40 sob as ruínas e das restantes 85, 84 sepultadas em conjunto no reduto do templo e apenas 1 no interior da matriz 65. Quanto a feridos, a proposta da vereação velense tendente ao lançamento de uma imposição sobre sal, azeite, aguardente e linho para pagamento dos serviços do cirurgião escocês Adam Francisco Grant, que tratara inúmeros estropiados, demonstra uma elevada soma de maltratados, muitos dos quais sucumbem sob os destroços antes da chegada de qualquer assistência 66.
As moradias, os edifícios, as igrejas e as fortificações também não resistem ao impacto da tragédia, ficando quase tudo por terra, nas zonas de intensidade máxima. Assim, a reconstituição das vivências comunitárias obriga ao levantamento de barracas, para abrigo das gentes e para acomodação dos serviços públicos e das cerimónias religiosas. Inclusivamente, na Calheta, admite-se o envio de prisioneiros para as Velas, perante a manifesta insuficiência do armazém da pólvora, convertido em improvisado aljube 67.
Entre os principais edifícios, reconhecemos sobretudo a ruína das câmaras da Calheta e do Topo. Na Calheta, a reutilização dos paços do concelho, embora em condições de extrema precaridade, ocorre apenas a partir de novembro de 1758, pois só em janeiro de 1761, o pedreiro João Pereira da Silva finaliza o restauro dos aposentos camarários 68. No Topo, a reconstrução da casa da câmara experimenta uma dilação excessiva, que determina a intervenção da administração régia. Com efeito, na correição de 1764, perante o impasse do projeto de recuperação da sede concelhia, o corregedor determina a arrematação do conserto à custa das receitas da edilidade, processo somente concluído em abril de 1766 69. Destruídas ficam igualmente as cadeias da Calheta e do Topo. Por falta de meios para a reconstrução, a vereação calhetense solicita à coroa que os reparos decorram à custa das rendas sequestradas ao marquês de Castelo Rodrigo. No entanto, independentemente da sorte da súplica, o processo conhece uma grande demora, pois só em dezembro de 1764 se procede à outorga do conserto a José Machado Silvestre 70. Na ocasião, ainda persiste o derrubamento dos cárceres do Topo 71.
Os principais registos de ruínas patrimoniais respeitam às igrejas, sobretudo as disseminadas por vilas, freguesias e lugares das jurisdições da Calheta e do Topo. Aliás, o Pe. Manuel de Azevedo da Cunha alude aos estragos e aos respetivos consertos, concluindo pela beneficiação da generalidade dos templos, que vencem constrangimentos do tempo do povoamento.72 Com efeito, o historiador jorgense alude, por exemplo, ao restauro e ampliação das matrizes da Calheta e do Topo e das igrejas de S. Tiago (Ribeira Seca), S. Sebastião (Fajã dos Vimes), S. João (Fajã de S. João), S. Miguel (Ribeira da Areia), N.ª Sr.ª das Neves (Norte Grande) e S. Lázaro (Norte Pequeno).73 Neste conjunto, ressalta a omissão da matriz das Velas, cuja torre experimenta um considerável dano, que motiva o vigário Jerónimo Sousa Cabral ao requerimento de uma contribuição real para a compra de novos sinos e de um órgão.74
O grosso da informação sobre a ruína dos templos corresponde, entretanto, à matriz da Calheta, que se acha em processo de reconstrução desde 1732, consoante recomendação de uma visita episcopal de 1731. 75 Todavia, não resiste à violência do abalo, sofrendo danos irreparáveis, que obrigam à sua proteção com muros de pedra solta, para obviar até à eventual entrada de gado. 76 Assim, a primeira providência consiste na edificação de uma ermida na Relvinha, para serventia da paróquia. 77 Depois, sempre sucede o conserto da matriz a partir de 1760, ainda de acordo com o projeto de ampliação da década de trinta. No entanto, os trabalhos decorrem a bom ritmo, porque em 1761 o corpo da igreja se encontra já levantado e coberto, facultando a realização das celebrações religiosas com o indispensável decoro. 78 Ainda no capítulo do conserto de construções religiosas, encontramos alusão à igreja de N.ª Sr.ª das Neves do Norte Grande, numa visitação do bispo D. António Caetano da Rocha, em setembro de 1761. Na ocasião, o prelado ordena ao vigário José Sousa Machado a solicitação do auxílio régio para a reedificação da capela-mor, que permita o resguardo do Santíssimo, até então recolhido num humilde casebre. 79
Na orla costeira, o estremecimento de 1757 causa grande ruína nas principais fortificações. Com efeito, os relatos aludem à derrocada dos fortes da jurisdição da Calheta. 80 No entanto, registamos também danos consideráveis nas fortalezas do concelho das Velas, apesar do maior distanciamento da zona epicentral. Aliás, ainda em abril de 1762, no quadro das prevenções militares resultantes do envolvimento de Portugal na guerra dos Sete Anos, o capitão-mor velense Gabriel Inácio Pereira insiste na necessidade de rápida reparação dos baluartes, sugerindo a utilização de proventos camarários, na falta de outro financiamento. 81
Nas encostas alcantiladas, o desprendimento de grandes massas de terras altera em muito a fisionomia das escarpas, até das próprias fajãs da beira-mar. Estes aluimentos movem a iniciativa da câmara do Topo, que esboça um processo de tomada de posse destes promontórios, como se de novos achados se tratasse 82. Neste caso, o estremecimento provoca mesmo a intransitabilidade de muitos caminhos, movendo diligências municipais, que acautelam a reposição da normalidade. A título de exemplo, em janeiro de 1758, a câmara do Topo constrange os proprietários ao tapume das paredes das vias públicas, para garantia do amanho das terras 83. Porém, logo no mês imediato, a insuficiência da disposição move os camaristas ao ensaio de um novo procedimento que, sob pena de $200, ordena a participação de dois homens de cada lar na reparação das estradas 84.
Além da morte e do ferimento dos homens, da ruína do património e da alteração da paisagem, o terramoto de 1757 molesta a estruturação comunitária, que só lentamente logra recomposição. Neste particular, assinalamos algumas repercussões que, na organização política, alteram o quotidiano administrativo civil e eclesiástico. Na generalidade, estas modificações implicam o recurso à governação das Velas, que depois suscita a resistência dos calhetenses, receosos da instituição de laços de dependência. No foro civil, por falta de condições de aposentadoria, a correição de 1758 ocorre no município velense, obrigando à deslocação da vereação da Calheta. 85 No domínio religioso, a situação adquire maior melindre. Na sequência do falecimento do ouvidor e do escrivão do eclesiástico calhetenses, o bispo opera a sua substituição por clérigos residentes na jurisdição das Velas, respetivamente o licenciado Francisco Xavier Machado, vigário das Manadas, e o Pe. Raimundo José de Sousa, cura da mesma paróquia.86 Neste caso, o procedimento dos nomeados gera a repulsa calhetense, porque resulta num governo à distância, ainda caracterizado por manifestações de despotismo, como a obrigatoriedade de deslocamento dos réus ao lugar de residência do ouvidor. 87 Nestas circunstâncias, por iniciativa do procurador do concelho de 30 de março de 1759, a câmara da Calheta solicita ao bispo, sob a ameaça de apresentação do caso ao rei, a designação de um novo ouvidor eclesiástico, pertencente à área de alçada da Calheta. Após apreciação do processo, a diocese atende ao precatório, determinando a exoneração do licenciado Francisco Xavier Machado e a concomitante indigitação do Pe. António Silveira Vilalobos, pároco de S. Tiago da Ribeira Seca. 88
Em S. Jorge, a ocorrência do terramoto de 1757 menos de dois anos após a queda e o incêndio de Lisboa do 1º de novembro de 1755, que gerara uma consternação geral, e ainda no seio de uma acentuada crise cerealífera, que grassa entre 1756 e 1759, agrava nitidamente os efeitos da catástrofe nas suas dimensões material e espiritual.

4.3. A LIBERTAÇÃO DA TERRA

As incidências do povoamento jorgense geraram relações de dependência externa, leia-se das ilhas circunvizinhas, que perduraram até ao advento do liberalismo. Ao tempo da erupção vulcânica de 1580, Gaspar Frutuoso assinala que a maioria das propriedades pertence a senhorios de fora 89. Em 1717, na sua História Insulana, o Padre António Cordeiro até considera S. Jorge uma quase enfiteuta ou feudatária da Terceira 90. Aliás, se da cidade de Angra chegavam os precisos essenciais à sobrevivência em comunidade, tanto os víveres como os manufactos, era também para lá, mesmo em anos de penúria, que se extraíam consideráveis quantidades de trigo, fruto do obrigatório pagamento de rendas. Do burgo terceirense, no início do século XIX, sobretudo para a Calheta e Topo, vinham ainda filhos segundos ou membros de ramos secundários de famílias afidalgadas para consórcio com as filhas dos morgados mais abastados 91.
No século XIX, Ferreira Drummond ainda denuncia a sujeição dos jorgenses, particularmente dos moradores da Fajã dos Vimes, mas também dos residentes das fajãs dos Bodes, Redonda e da Caldeira, dos três Lourais e do Sanguinhal, se bem que atenuada por uma intervenção pombalina 92. A dependência possuía origem num vínculo de Jerónimo Corte-Real, transmitido a seu neto, conde de Aveiras, objeto de venda ao angrense Francisco Sá Salazar, por escritura de 20 de novembro de 1681, e pertença de Caetano da Rocha e Sá à entrada da 2ª metade do século XVIII. Após o violento terramoto de 9 de julho de 1757, que desorganizara o convívio social e a base económica, e também depois da instituição da Capitania Geral dos Açores em 1766, que questiona direitos tradicionais, uma carta régia de 24 de outubro de 1775 reduz os arrendamentos a um censo perpétuo, muito menos oneroso. Neste desfecho, impera o empenhamento do novo juiz de fora de S. Jorge, Dr. Ricardo Galhano, que expõe o caso à coroa, suscitando consideração pela labuta dos populares na sucessão dos séculos, que facultara a transformação de maninhos em solo arável e até a organização de povoados, de pronto reerguidos, após a destruição do “mandado de Deus” de 1757. Assim, de nada serve a contestação dos descendentes de Caetano da Rocha e Sá, dado que uma nova carta régia de 26 de setembro de 1806 confirma o entendimento do tempo de Pombal. De muito menos vale a alegação de posse sustentada pelo destemido José Correia Borges, regressado de Pernambuco, que na passagem por Angra comprara privilégios sobre os terrenos então censíticos. Neste caso, a tentativa de ocupação das terras pelo comprador origina um grande desacato, culminando na morte de Francisco Machado Vieira e no grave ferimento do reclamante, que só obtém segurança quando, na sequência de uma precipitada fuga pela rocha alcantilada, alcança um barco de cabotagem do Topo, ocasionalmente de passagem pelo local. Posto isto, os povos aproveitam a revolução liberal para se eximirem de qualquer pagamento, beneficiando do desaparecimento dos títulos do primitivo arrendamento, entretanto convertido em censo 93.
A sujeição dos jorgenses aos senhorios absentistas entretanto prossegue até à aproximação do século XX. De concreto, reportamo-nos às populações dos Rosais, e também do Norte Grande, que exploram os arrendamentos ditos do Pinto e da Pontinha. Em 1780, as centenas de rendeiros iniciam um processo de contestação, caracterizado por episódios de violência, que só termina em 1896, quando em simultâneo os revoltosos acatam as decisões da justiça, em benefício dos senhores, e os proprietários reconhecem o direito dos arrendatários às benfeitorias, consentindo também na transação dos títulos de posse. Todavia, o maior alvoroço sucede por volta de 1880, já depois da redução das prestações a censo, sendo muito determinado por um desentendimento entre progressistas e regeneradores, que disputavam a administração dos arrendamentos, em representação dos donos ausentes. Sob a ilusão de que os terrenos estariam já livres de quaisquer encargos, por cerca de 15 anos, os povos desafiam com denodo, quer as sentenças dos tribunais, quer as ameaças das milícias. De facto, só o experimentado Joaquim Zeferino de Sequeira Morais, propositadamente nomeado administrador do concelho das Velas em 1894, consegue a acalmia dos insurgentes, dissuadidos do levantamento por maior cerco dos militares, também por maior condescendência das autoridades, que induzem os legítimos senhorios à venda das propriedades 94.

1 Pe. Manuel Luís Maldonado, Fenix Angrence, transcrição e notas de Helder Fernando Parreira de Sousa Lima, I, Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira, 1989, p. 85.
2 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, Notas Históricas, I. Estudos sobre o Concelho da Calheta (S. Jorge), recolha, introdução e notas de Artur Teodoro de Matos, Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1981, p. 43.
3 Avelino de Freitas de Meneses, “O Povoamento”, in Nova História da Expansão Portuguesa, III, t. I, A Colonização Atlântica, coordenação de Artur Teodoro de Matos, Lisboa, Editorial Estampa, 2005, p. 246.
4 Pe. Manuel Luís Maldonado, ob. cit., I, p. 128.
5 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., I, p. 111.
6 Doutor Gaspar Frutuoso, Livro Sexto das Saudades da Terra, Ponta Delgada, Instituto Cultural, 1978, p. 238.
7 A contrariar este entendimento, apenas o reconhecimento em S. Jorge, no final do século XVI, da maior taxa de concentração de sacerdotes por fogos, na ordem de 1 para 40, inclusivamente acima da relação da Terceira, sede da diocese, de 1 para 48 (Cf. Susana Goulart Costa, “A Igreja: implantação, práticas e resultados”, in História dos Açores. Do descobrimento ao século XX, direção científica de Artur Teodoro de Matos, Avelino de Freitas de Meneses e José Guilherme Reis Leite, I, Instituto Açoriano de Cultura, 2008, p. 192).
8 António dos Santos Pereira, “São Jorge (ilha de). História”, in Enciclopédia Açoriana (edição eletrónica).
9 Artur Teodoro de Matos, “Origem e reminiscências dos povoadores das ilhas atlânticas”, in Congresso Internacional Bartolomeu Dias e a sua Época. Actas, III. Economia e Comércio Marítimo, Porto, UP-CNCDP, 1989, p. 247.
10 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., I, p. 142.
11 Cit. por Frederico Maciel, Misericórdia das Velas. Provedores, factos e documentos, Santa Casa da Misericórdia da Vila das Velas, 2007, p. 21.
12 Fr. Diogo das Chagas, Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores, direção e prefácio de Artur Teodoro de Matos, colaboração de Avelino de Freitas de Meneses e Vítor Luís Gaspar Rodrigues, s/l, SREC-DRAC/UA-CEGF, 1989, p. 498.
13 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., I, pp. 17 e 46.
14 Fr. Diogo das Chagas, ob. cit., p. 505.
15 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., I, p. 87.
16 Cit. por Paulo Lopes Matos, O Nascimento fora do Matrimónio na freguesia da Ribeira Seca da Ilha de São Jorge (Açores): 1800-1910, Guimarães, Universidade do Minho-Instituto de Ciências Sociais (NEPS), 2007, pp. 113-114.
17 Francisco Ferreira Drummond, Apontamentos Topográficos, Políticos, Civis e Ecclesiásticos para a História das nove Ilhas dos Açores servindo de suplemento aos Anais da Ilha Terceira, com um estudo introdutório, leitura, fixação do texto e índices de José Guilherme Reis Leite, Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira, 1990, p. 14; Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., I, p. 364.
18 Ricardo Manuel Madruga da Costa, Os Açores em finais do regime de Capitania-Geral. 1800-1820, Horta, Núcleo Cultural/Câmara Municipal, 2005, p. 260.
19 Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Angra do Heroísmo (BPARAH), Capitania Geral, Livro de registo de portarias e ordens do Governo Geral (1766-73), fl. 24, portaria sobre exportação de gado, Angra, 24 de setembro de 1767; Correspondência, m. 22 (1768-1828), doc. s/nº, carta da câmara de Santa Cruz das Flores ao capitão-general, Santa Cruz, 20 de maio de 1768.
20 Arquivo dos Açores, I, Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1980, p. 136; António dos Santos Pereira, A Ilha de S. Jorge (séculos XV-XVII). Contribuição para o seu estudo, Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1987, p. 183.
21 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., I, p. 523.
22 Arquivo Municipal das Velas (AMV), Vereações (1748), fls. 48-49v, acórdão de 28 de setembro de 1748.
23 Paulo Silveira e Sousa, “As Actividades Industriais no Distrito de Angra do Heroísmo, 1852-1910. Um mundo de possibilidades escassas”, in Arquipélago-história, Revista da Universidade dos Açores, 2ª série, IV (2), Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 2000, pp. 138-139.
24 BPARAH, Câmara do Topo, Posturas (1757), fl. 2.
25 Carlos Enes, “Uma economia em transformação, mas uma pobreza que persiste”, in História dos Açores. Do descobrimento ao século XX, direção científica de Artur Teodoro de Matos, Avelino de Freitas de Meneses e José Guilherme Reis Leite, II, Instituto Açoriano de Cultura, 2008, p. 199.
26 Avelino de Freitas de Meneses, “A Economia”, in Nova História da Expansão Portuguesa, III, t.I, A Colonização Atlântica, coordenação de Artur Teodoro de Matos, Lisboa, Editorial Estampa, 2005, p. 402.
27 Doutor Gaspar Frutuoso, ob. cit., p. 232.
28 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., I, p. 131.
29 Arquivo dos Açores, IV, Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1981, pp. 64-65.
30 BPARAH, Câmara do Topo, Vereações (1758), fl. s/nº, acórdão de 15 de abril de 1758.
31 BPARAH, Câmara do Topo, Vereações (1758), fl. s/nº, acórdão de 17 de junho de 1757.
32 Avelino de Freitas de Meneses, Os Açores nas encruzilhadas de Setecentos II. Economia, Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1995, p. 49.
33 Avelino de Freitas de Meneses, “Os Marítimos nos Açores em 1770-1771”, in Portos Escalas e Ilhéus no Relacionamento entre o Ocidente e o Oriente, Actas do Congresso Internacional Comemorativo do Regresso de Vasco da Gama a Portugal, Ilhas Terceira e S. Miguel (Açores), 11 a 18 de abril de 1999, 1º volume, Universidade dos Açores/Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2001, pp. 441-442.
34 Avelino de Freitas de Meneses, “Os Marítimos nos Açores (…)”, já cit., in Portos Escalas e Ilhéus no Relacionamento entre o Ocidente e o Oriente, p. 455.
35 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., I, p. 139.
36 Id., ibid., pp. 91-92 e 116.
37 Id., ibid., p. 87.
38 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., I, p. 103.
39 Id., ibid., p. 525.
40 Id., ibid., p. 292.
41 Avelino de Freitas de Meneses, Os Açores nas encruzilhadas (…), já cit., II, pp. 80 e 163.
42 AMV, Vereações (1753), fl. s/nº, acórdão de 9 de março de 1753; BPARAH, Câmara da Calheta, Vereações (1752-56), fls. 53v-54.
43 Fátima Sequeira Dias, “A economia ao sabor das circunstâncias. Produções, agentes e intercâmbios”, in História dos Açores. Do descobrimento ao século XX, direção científica de Artur Teodoro de Matos, Avelino de Freitas de Meneses e José Guilherme Reis Leite, II, Instituto Açoriano de Cultura, 2008, p. 40.
44 Doutor Gaspar Frutuoso, ob. cit., p. 242; Frédéric Mauro, Le Portugal et l’Atlantique au XVIIe siècle: 1570-1670 (étude économique), Paris, 1960, p. 230.
45 Avelino de Freitas de Meneses, Os Açores nas encruzilhadas (…), já cit., II, p. 163.
46 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., I, p. 501.
47 BPARAH, Almoxarifado de S. Jorge, m.5 (1756-58), Livro de Receita e Despesa (1758).
48 AMV, Vereações (1753), fl. s/nº, acórdão de 9 de março de 1753; BPARAH, Câmara do Topo, Posturas (1757), fl. 5.
49 BPARAH, Câmara do Topo, Vereações (1758), fl. s/nº, acórdão de 25 de fevereiro de 1758; Vereações (1769), fl. s/nº, acórdão de 9 de julho de 1769; fl. s/nº, acórdão de 5 de agosto de 1769.
50 BPARAH, Câmara do Topo, Vereações (1748-50), fl. s/nº, acórdão de 6 de julho de 1748.
51 Francisco Ferreira Drummond, ob. cit., p. 353.
52 Fernando Castelo-Branco, “Subsídios para a História do Faial e da Periferia Açoriana”, in O Faial e a Periferia Açoriana, Atas do Colóquio realizado nas ilhas do Faial e Pico de 10 a 13 de maio de 1993, Horta, Núcleo Cultural, 1995, p. 102.
53 Avelino de Freitas de Meneses, Os Açores nas encruzilhadas (…), já cit., II, pp. 100-101.
54 Avelino de Freitas de Meneses, Os Açores nas encruzilhadas (…), já cit., II, pp. 163.
55 BPARAH, Almoxarifado de S. Jorge, m. 7 (1761-62), Livro de Receita (1761), fls. 13-15v, receita dos direitos de entrada e saída, S. Jorge, 1761.
56 BPARAH, Câmara da Calheta, Vereações (1752-56), fl. s/nº, acórdão de 26 de fevereiro de 1755.
57 Artur Teodoro de Matos, “Calheta, concelho da. História”, in Enciclopédia Açoriana (edição eletrónica); Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., I, p. 393.
58 Carreiro da Costa, “A Cultura da “Batata Inglesa” nos Açores, no século XVIII”, in Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, 3, Ponta Delgada, 1946, pp. 103-104.
59 António dos Santos Pereira, “São Jorge (…)”, já cit., in Enciclopédia Açoriana (edição eletrónica).
60 Sobre o motim dos inhames, veja-se, por todos, Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, Notas Históricas, II. Anais do Município da Calheta (S. Jorge), Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1981, pp. 623-630.
61 José Agostinho, “Tectónica, Sismicidade e Vulcanismo das Ilhas dos Açores”, in Açoreana I (II), Angra do Heroísmo, Sociedade Afonso Chaves, 1935, p. 90.
62 Avelino de Freitas de Meneses, “S. Jorge, 9 de julho de 1757: a memória de um terramoto devastador”, in Antigamente, Era assim! Ensaios de História dos Açores, Ponta Delgada, Publiçor, 2011, pp. 513-529.
63 Frederico Machado, “O terramoto de S. Jorge em 1757”, in Açoreana, IV (4), Angra do Heroísmo, Sociedade Afonso Chaves, 1949, p. 311.
64 Arquivo dos Açores, IV, já cit., p. 359.
65 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, “Contribuição para a história da freguesia da Calheta de S. Jorge”, in Arquivo dos Açores, XIII, Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1983, p. 455.
66 Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, Desembargo do Paço, Ilhas, m. 25, nº 47, carta régia ao corregedor, Lisboa, 7 de abril de 1758.
67 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., II, p. 696.
68 Id., ibid., p. 703.
69 Avelino de Freitas de Meneses, “S. Jorge, 9 de julho de 1757 (…)”, já cit., in Antigamente, Era assim! Ensaios de História dos Açores, pp. 518-519.
70 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., I, p. 216; II, p. 708.
71 BPARAH, Câmara do Topo, Livro de Correições (1668-1813), fl. 73v, correição de 27 de junho de 1764.
72 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit.,, II, p. 214.
73 Id., ibid., p. 215.
74 BPARAH, Junta da Fazenda, Ilha Terceira, m. 3 (1763-1824), doc. avulso, ordem para o provedor da fazenda informar sobre a restauração da matriz das Velas, Lisboa, 7 de junho de 1758.
75 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., I, p. 202.
76 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, “Contribuição para a história (…)”, já cit., in Arquivo dos Açores, XIII, p. 458.
77 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., I, p. 214.
78 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., I, pp. 204 e 217; id., “Contribuição para a história (…)”, já cit., in Arquivo dos Açores, XIII, p. 412.
79 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., I, p. 212; id., “Contribuição para a história (…)”, já cit., in Arquivo dos Açores, XIII, p. 455.
80 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., I, p. 215.
81 AMV, Vereações (1762), fl. s/n, acórdão de 19 de junho de 1762.
82 Arquivo dos Açores, IV, já cit., pp. 356-357.
83 BPARAH, Câmara do Topo, Vereações (1758), fl. s/nº, acórdão de 20 de janeiro de 1758.
84 BPARAH, Câmara do Topo, Vereações (1758), fl. s/nº, acórdão de 25 de fevereiro de 1758.
85 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., I, p. 216.
86 Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., II, p. 700.
87 Id., ibid., p. 700.
88 Id., ibid., pp. 700-701.
89 Doutor Gaspar Frutuoso, ob. cit., p. 247.
90 Pe. António Cordeiro, História Insulana das Ilhas a Portugal Sugeytas no Oceano Occidental, reimpressão da edição princeps de 1717, Angra do Heroísmo, SREC/DRAC, 1981, p. 431.
91 Paulo Silveira e Sousa, “As Elites Insulares”, in História dos Açores. Do descobrimento ao século XX, direção científica de Artur Teodoro de Matos, Avelino de Freitas de Meneses e José Guilherme Reis Leite, I, Instituto Açoriano de Cultura, 2008, p. 591.
92 Francisco Ferreira Drummond, ob. cit., cap. III, art. IV.
93 Sobre este caso, veja-se, por todos: Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, ob. cit., I, pp. 291-300.
94 José Cândido da Silveira Avellar, Ilha de S. Jorge (Açores).Apontamentos para a sua História, Horta, Typ. Minerva Insulana, 1902, pp. 105-108 e 293-297; J. Duarte de Sousa, Ilha de S. Jorge. Apontamentos Historicos e Descripção topographica, Angra do Heroísmo, Empreza Typo-Lyth. União, 1897, pp. 167-168.

* Professor Catedrático da Universidade dos Açores/Presidente da Assembleia Geral do Centro de História de Além-Mar – CHAM (Universidades Nova de Lisboa e dos Açores).

O Inventário do Património Imóvel do Concelho da Calheta
A Calheta de S. Jorge – apontamentos da sua história
Calheta de São Jorge – aspetos do seu urbanismo
Janelas de guilhotina – proposta de investigação
São Jorge. Calheta
Inventário do Património Imóvel dos Açores