A propósito do Inventário do Património de São Roque do Pico
 

José Manuel Fernandes*

O Concelho de São Roque possui uma das mais representativas "fatias" da dimensão paisagística da ilha do Pico: a vasta zona de cultura da vinha da costa norte, que abrange as áreas de Santana, Cabrito, Arcos e Lajido.

Esta zona, que consideramos como uma verdadeira unidade paisagística, constitui uma área já classificada pelo Governo Regional, no seu conjunto, e actualmente candidata a Património da Humanidade pela UNESCO. Extremamente representativa da cultura agrícola que ali se desenvolveu secularmente, inclui os pequenos povoados conhecidos como "adegas", as construções a um tempo utilitárias e residenciais que preenchem esses núcleos (as "adegas" propriamente ditas, com exemplares notáveis no Cabrito), com os seus recheios (lagares, armazéns), os seus espaços sacros (com destaque para as ermidas do Cabrito e de Nossa Senhora da Pureza, esta do Lajido de Baixo), os muros de divisão dos vinhedos (que constituem um conjunto de "construção territorial" em si mesmo) e ainda vários pequenos objectos complementares da produção e da vida rural local (como os poços de maré no Lajido). Também inseridos neste conjunto, embora com uma lógica própria, podem referir-se os caminhos ou trilhos costeiros, sobre as lajes e pedras, para transporte dos produtos agrícolas, cujos sulcos ainda hoje encontramos na área do Lajido.

Associada a esta zona encontra-se uma área mais reduzida em extensão mas igualmente interessante como testemunho patrimonial agrícola: os chamados "currais de figueira", no Lajido, constituídos por muretes de pedra semi-circulares, de singular efeito na paisagem costeira da ilha. Abertos a sul, produzem um efeito plástico, escultórico e de conjunto, assinalável. Outra unidade paisagística muito "forte", quer como estrutura, quer no seu efeito visual, é a da Baía de Canas, a nascente de São Roque. Esta unidade, singularmente edificada ao longo da encosta abrupta que defronta o mar e termina na praia de calhau rolado, organiza-se ao longo de um caminho central distribuidor, incluindo calçadas e escadórios, muros e vinhas (tudo em pedra), e as pequenas adegas delas inseparáveis. Todo o conjunto é encimado pelo chamado "Convento dos Frades", um pequeno mas qualificado espaço edificado à roda de uma capela, com várias construções térreas residenciais, hoje reconvertidas como área de veraneio – e em articulação com o espantoso escadório implantado penhasco acima, que teria servido para conduzir os frades locais ao necessário contacto com o interior da ilha.

A actividade baleeira no Concelho de São Roque foi intensa – tal como nos outros concelhos do Pico, sobretudo nas Lajes – e dela ficaram alguns vestígios, sendo o mais significativo a chamada "Fábrica da Baleia". Trata-se de uma antiga fábrica de óleos e farinhas, sita no Cais do Pico, hoje musealizada no âmbito dos equipamentos culturais do Governo Regional. O edifício e o seu recheio (equipamento, maquinaria, mobiliário e documentação) constituem um testemunho global da actividade de caça à baleia, a qual durante décadas foi parte integrante da vivência do Picoense, a meias com a sua dimensão rural – islenha. Outras construções utilitárias igualmente com um valor próprio estão de algum modo relacionadas com este edifício, como é o caso do "tanque de água da baleia" sito na Ribeira Seca, e que se destinava a abastecimento daquela actividade fabril. Este "museu da baleia" deve entender-se também em conjugação com o outro museu da ilha, o dos baleeiros, implantado nas Lajes.

Associada a esta gesta sobretudo oitocentista, estão a emigração para a costa leste dos Estados Unidos da América e a consequente influência da tradição cultural norte-americana, sentida posteriormente nas características das construções locais da ilha, nomeadamente nas habitações.

Uma das mais representativas é a "casa azul de São Roque", que deve ter resultado de um projecto directamente "importado" daquele país no final de oitocentos, e que apresenta aspectos que recordam as habitações comuns em Boston ou na New Bedford daquela época: utilização de tábua de madeira aparente, pintada, na estrutura e revestimento do volume exterior acrescentado à construção existente, a nível do sótão, com janelas geminadas e grande pórtico avarandado sobre a entrada. De um modo mais elementar, também se sente esta influência em casas mais tradicionais, construídas em pedra, mas incluindo uma pequena mansarda em madeira na cobertura, aqui designada de "torre" ou "torrinha" – como é o caso de exemplos de habitações sitas em Santo António.

Mais genericamente, o século XIX marcou o Concelho de São Roque com algumas casas de habitação rurais (ou proto-urbanas) de dimensões mais avantajadas do que as tradicionais, por vezes com três pisos, e com remates dos corpos superiores que incluíam algumas sugestões classicizantes (frontões, cimalhas, etc.). Essa nova escala correspondia então à afirmação de uma presença social e económica do possidente acima dos valores locais, e deste modo assumida "para que todos vissem". Será o caso do exemplo sito na Canada do Mar, na Prainha, e datado de 1883.

Mas é de facto a arquitectura tradicional que mais coerência e continuidade exprime no território analisado, quer nas suas casas senhoriais rurais, quer nas pequenas casas agrícolas disseminadas por todo o concelho.

Como exemplos do primeiro caso podemos referir, entre várias: a Casa das Neves, no Caminho de São Pedro, Prainha de Baixo – com a sua sequência de volumes em pedra, linearmente dispostos e bem inseridos na paisagem agrícola e costeira envolvente; a Casa do Ouvidor de São Roque, cuja estrutura e tipologia apresenta parentescos com outras casas dos concelhos envolventes, como o da Madalena (vãos com aventais de pedra "em bico", planta em "U", etc.); e ainda o Solar dos Salgueiros, sito no Lajido de Baixo, e que contém já alguns elementos que apontam para o século XVIII (uma maior simetria compositiva).

Já as pequenas casas agrícolas apresentam aspectos muito constantes, na expressão construtiva e plástica, que apontam para um carácter próprio desta habitação popular picoense (nas proporções, materiais, forma e tipologia, pormenores em pedra, etc.), carácter esse distinto do de outras ilhas açorianas, embora integrável numa tradição geral comum. Por outro lado, a dimensão urbana está praticamente ausente das estruturas edificadas, neste concelho de expressão eminentemente rural. Apenas se pode referir com destaque a "rua" principal do Cais do Pico, que margina a pequena enseada, e apresenta um conjunto urbano sequencial, composto por edificações antigas e recentes, datáveis entre os séculos XVII ou XVIII e o século XX, com a particularidade de estabelecerem uma relação visual muito directa com as águas do Atlântico – aqui, no canal de São Jorge.

A arquitectura religiosa possui também alguns exemplos edificados com notabilidade neste concelho do Pico. O mais destacado será o do Convento de São Pedro de Alcântara, em São Roque, que se insere na tradição das casas franciscanas das ilhas, com a simplicidade de linhas e de espaços arquitectónicos comum a todas. Hoje constitui um espaço em transformação para servir como equipamento cultural. A sua relação paisagística com a envolvente, rural e marinha, é notável. Também as Igrejas de Nossa Senhora da Ajuda, na Prainha, e a Matriz de São Roque podem ser mencionadas como as duas mais notáveis do concelho, dentro de uma composição arquitectural de raiz "chã", mas não desprovida de certa originalidade compositiva e decorativa.

Concluindo, o Concelho de São Roque do Pico destaca-se, no conjunto açórico, fundamentalmente pela sua forte dimensão paisagística e rural, com notáveis exemplos edificados nos campos da arquitectura doméstica, religiosa e produtiva.

* Arquitecto. Licenciado pela Escola de Belas Artes de Lisboa (1977). Doutorado pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa (1993). Dirigiu o Departamento de Arquitectura da Universidade Autónoma de Lisboa (1998-2000). Publica regularmente artigos, textos e livros sobre arquitectura e urbanismo.

O Inventário do Património Imóvel do Concelho de São Roque do Pico
Ilha do Pico. Esboço Histórico
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Sobre a habitação tradicional de S. Roque
Pico. São Roque
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Última actualização em 2006-03-09