Ilha do Pico. Esboço Histórico
 

Susana Goulart Costa*

1. Descoberta
No contexto da epopeia dos Descobrimentos Portugueses, a 2 de Julho de 1439 a coroa de Portugal autoriza o Infante D. Henrique a colonizar as ilhas açorianas já conhecidas. É precisamente nesta carta régia que encontramos a primeira notícia sobre o Pico.

Esta ilha, situada no grupo central do Arquipélago dos Açores, integra-se no conjunto vulcânico de que fazem parte as ilhas de S. Jorge e Faial, destacando-se pela sua dimensão e pela sua montanha, situada no extremo ocidental da ilha. Os seus solos são constituídos, na sua maioria, por basalto recente: os denominados "mistérios" ou "biscoitos".

A topografia da ilha condicionou o rendilhado da orla picoense, que torna a abordagem marítima perigosa e difícil. Este factor, associado à infertilidade dos terrenos, à escassez de ribeiras na ilha e a um interesse prioritário sobre outras parcelas do arquipélago, terá sido uma das principais causas para a morosidade do seu povoamento.

Assim, e apesar da ordem de 1439, o povoamento da ilha montanha só terá tido início a partir da década de 1480, precisamente quando o Pico passa a ser parte integrante da capitania da vizinha Ilha do Faial. Deste modo, também no Pico comprova-se o êxito do sistema administrativo utilizado pela monarquia portuguesa para promover o povoamento e garantir a exploração económica desejada para os Açores: as donatarias-capitanias. Esta organização manter-se-á até 1766, ano em que o Pico passa a ser parte integrante da província dos Açores, liderada por um capitão-general sediado em Angra. Só em 1836 é que os picoenses são integrados no terceiro distrito açoriano, composto pelas ilhas do Faial, Pico, Flores e Corvo.

2. Povoamento e sociedade
Da década de 1480 até meados do século seguinte, o crescimento populacional picoense terá decorrido num ritmo positivo. Em primeiro lugar, este aumento ter-se-á verificado na zona das Lajes, facto justificado, talvez, pela proliferação de ribeiras (que os topónimos comprovam) e pelas temperaturas mais elevadas verificadas nesta zona. Desta forma, já nos finais do século XV, vemos surgir aqui o primeiro município do Pico.

Contudo, em meados do século XVI, uma nova área a norte da ilha, dedicada ao orago S. Roque, tornava-se igualmente atractiva para novos povoadores. Assim, em 1542, os habitantes desta área pedem ao rei D. João III a criação de uma segunda vila na ilha, apresentando-lhe a "opressão que os moradores das freguezias de nossa Senhora d’Ajuda e de São Roque da ilha do Pico da banda do norte recebiam em ser mal providos de justiça por os ditos lugares serem longe da vila das Lages de cuja jurisdição eram e o caminho ser muito mau de montanha e serra aspera e se faziam muitos males e roubos em suas terra por a justiça da dita vila não poder a isso acudir a tempo…"

A partir da sua elevação a concelho, a nova vila de São Roque ter-se-á desenvolvido cada vez mais, contribuindo para o evidente crescimento populacional da ilha nos séculos XVI e XVII. Se, nos finais do século XVI, a população picoense orçava cerca de 3432 pessoas, no final da centúria seguinte já se contabilizavam cerca de 8720 indivíduos. Aliás, será interessante realçar que este aumento populacional foi particularmente relevante precisamente na zona do recém-criado Concelho de São Roque. Na passagem do século XVI para o XVII, surgem cinco novas freguesias e, curiosamente, quatro delas situam-se justamente no espaço administrativo do novo município: Santa Luzia, Santo António, Santo Amaro e Bandeiras. Todavia, no decurso das centúrias seguintes, este município não acompanha o crescimento demográfico verificado nos restantes. Com efeito, em 1871, o Concelho de São Roque possui uma população de 6674 pessoas, bem distanciado dos dois concelhos mais populosos: o das Lajes com 9733 pessoas e o da Madalena com 9025 indivíduos.

Mas qual terá sido a origem destes povoadores?

A naturalidade flamenga de Joz de Hutra, primeiro capitão-donatário do Faial e Pico, poderá ter condicionado, em parte, a origem dos primeiros povoadores picoenses, pois na sua viagem para os Açores terá sido acompanhado por diversos familiares e gente de sua casa. Todavia, parece-nos que mais importante foi o contributo de povoadores de origem portuguesa, oriundos de diversas zonas da metrópole, que provavelmente já teriam estado na Ilha da Madeira ou mesmo nas ilhas açorianas previamente povoadas, designadamente na Terceira. Esta hipótese parece-nos mais plausível, se relembrarmos que a primeira zona habitada do Pico foi a das Lajes, situada a sul da ilha, no lado oposto à localização da Ilha do Faial. Ora, a origem metropolitana dos primeiros povoadores foi determinante na organização da sociedade picoense. À semelhança do que sucedeu nas restantes parcelas açorianas, o Pico recebeu indivíduos de diversos grupos sociais, transplantando-se para a ilha a organização social reinol. Desta forma, encontramos indivíduos pertencentes a uma pequena nobreza, que se distinguem pela posse de terras e estilo de vida; verificamos uma forte presença do clero secular e regular, do qual se destaca a presença franciscana; e observamos um terceiro grupo, dividido entre mercadores, artífices, trabalhadores rurais e artesãos.

Para além destes três grandes grupos, que encerram em si mesmos uma diversidade considerável, há ainda a destacar a presença de judeus, comprovada nas Lajes nos inícios do século XVI e na Madalena, no decurso do século XIX; e de escravos, orientados para o trabalho rural e doméstico. As transformações económicas e mentais decorrentes na Europa ao longo dos séculos XVIII e XIX e uma óbvia humanização do escravo no seio doméstico garantiram a este instrumento de trabalho uma tardia mas consistente obtenção da sua alforria. Desta forma, ao longo do tempo, muitos dos antigos escravos foram-se misturando com a população branca, deixando de constituir um grupo social facilmente identificável.

Desta amálgama de gentes se formou o carácter picoense, descrito da seguinte forma por António Lourenço da Silveira Macedo, na sua obra História das Quatro Ilhas que formam o Distrito da Horta, datada de 1871: "São os picoenses geralmente dotados d’uma indole pacifica, laboriosos, engenhosos e robustos, sobretudo as mulheres, que muito ajudam os homens nos trabalhos rurais".

Com efeito, o estatuto feminino no seio da economia doméstica picoense deveria ser de elevada dimensão. Não deixa de ser curioso relembrar que, na época da Regeneração, as reformas realizadas no sistema de contribuição predial geraram no Pico diversos levantamentos populares, muitos deles protagonizados por mulheres. Aliás, perante estes "barulhos", a escassa força militar insular tornou-se insuficiente e o poder central foi obrigado a enviar uma esquadra do continente para acalmar os levantamentos femininos verificados, por exemplo, na freguesia da Candelária e na vila da Madalena.

3. Economia
Os principais traços económicos do Pico são o reflexo das características topográficas e climáticas da ilha. Neste sentido, a economia picoense resulta numa variedade produtiva considerável, imposta pela diversidade geográfica que a ilha apresenta e documentada em diversos períodos históricos.

Em primeiro lugar, destaque-se a produção e o comércio do vinho. Introduzidos na ilha nos finais do século XV, os vinhedos encontraram um espaço acolhedor no interior dos "currais" de rocha vulcânica e a produção de vinho alcançou os valores mais elevados ao longo dos séculos XVIII e XIX. Durante este período, o vinho picoense foi apreciado no espaço regional, sendo exportado para São Miguel e Terceira. Mas é no mercado internacional que encontramos os principais consumidores, não só do vinho como da aguardente picoenses, sendo aquele exportado principalmente para as colónias britânicas da América do Norte e esta para o Brasil.

O êxito da produção e consequente comercialização do vinho picoense reduz-se, todavia, a partir de 1852, quando o "oidium" ataca as vinhas. As consequências desta doença provocaram um longo marasmo na produção vinícola picoense e só muito recentemente se observam sinais de recuperação desta produção com fins comerciais.

Curiosamente, ao longo da segunda metade do século XIX, os picoenses encontraram outros produtos que permitiram uma reutilização dos terrenos anteriormente explorados pela vinha. O cultivo de frutos como as laranjas, maçãs, pêssegos e figos (estes dois últimos também utilizados na produção de aguardente) tornou-se uma importante actividade alternativa, que rapidamente atingiu níveis capazes de suportar a exportação no circuito regional. Desta forma, tornou-se um hábito diário a deslocação de picoenses para a Ilha do Faial com o objectivo de proceder à venda da fruta. Durante o verão, também os mercados terceirense e micaelense tornavam-se importantes zonas de consumo destes géneros.

Todavia, a economia picoense não se esgota na exploração dos seus solos vulcânicos. Por um lado, a existência de numerosos matos em diversas áreas da ilha contribuiu para o comércio de madeiras e carvão, embora igualmente circunscrito ao mercado regional. Por outro, a criação de gado tornou-se numa importante actividade, exercida, aliás, desde a descoberta da ilha. Com efeito, ainda antes do povoamento ser uma realidade concreta, as pastagens picoenses foram utilizadas para a criação de gado, exploradas designadamente por habitantes das ilhas do Faial e da Terceira. Esta situação não se manteria ao longo da história picoense, verificando-se crises na actividade pecuária a partir do século XVIII, provavelmente pelo excesso de exportação.

Ao longo da história picoense a diversidade produtiva foi essencial para a sobrevivência da população da ilha. À instabilidade das produções alimentares, factor que caracteriza a economia agrícola do Antigo Regime, acresce a improdutividade dos solos picoenses, uma vez que a profusão dos "mistérios" por toda a ilha não só torna escassa a produção do cereal, alimento essencial na dieta mediterrânica, como de outros bens. Desta forma, os anos de fome eram uma realidade temida pela população, como sucedeu em 1713, quando "o povo se viu obrigado a comer soccas e raizes para sustentar a misera existencia".

Além do mais, a economia picoense tem como principal óbice ao seu desenvolvimento os limites geográficos. A faixa costeira picoense, como já afirmámos, é muito recortada. Esta realidade impede a existência de bons portos naturais na ilha, existindo uma série de pequenas enseadas e calhetas apenas navegáveis durante o período estival. É desta forma que se compreende o forte elo que se criou entre as ilhas do Pico e do Faial. O seguro porto da Horta tornou-se, pois, o único meio de internacionalização da economia picoense, principalmente utilizado na exportação do vinho e da aguardente picoenses, estabelecendo-se entre ambas as ilhas uma cumplicidade histórica que perdura até aos nossos dias.

As características naturais da orla marítima picoense explicam a reduzida faina piscatória. A pesca ter-se-á reduzido a mera actividade de subsistência, embora existam zonas em que ela tenha uma actividade mais representativa, como a vila da Madalena e a freguesia de Santo Amaro, do Concelho de São Roque. Teremos de chegar ao século XIX para observar uma efectiva exploração marítima, mas neste caso com as características especiais que rodeiam a caça à baleia. Assim se formou a imagem do picoense baleeiro, hoje em dia associada como característica tradicional da Ilha do Pico.

* Assistente em História Moderna no Departamento de História, Filosofia e Ciências Sociais da Universidade dos Açores.

O Inventário do Património Imóvel do Concelho de São Roque do Pico
Ilha do Pico. Esboço Histórico
A propósito do Inventário do Património de São Roque do Pico
Sobre a habitação tradicional de S. Roque
Inventário do Património Imóvel dos Açores
Última actualização em 2006-03-09