Sobre a habitação tradicional de S. Roque
 

João Vieira Caldas*

** A arquitectura vernácula do Pico, dentro do sistema de relações da arquitectura açoriana, insere-se no conjunto das cinco ilhas "mais ocidentais" (São Jorge, Pico, Faial, Flores e Corvo) estabelecendo um particular parentesco com as duas ilhas vizinhas: São Jorge e Faial. A proximidade geográfica e arquitectónica entre estas três ilhas, que se exprime em soluções semelhantes para alguns tipos de edifícios e quase idênticas para outros (nomeadamente no que se refere às construções de apoio às actividades rurais), não anula a identidade de cada ilha que se revela, com mais nitidez, na habitação.

Essa identidade, que a tradição oral e escrita concentrou, no que respeita ao Pico, na expressão rude das casas, adegas e outras edificações, frequentemente construídas em alvenaria de pedra sem qualquer reboco interno ou externo, tem dois pontos altos no Concelho de São Roque: um no âmbito da habitação tradicional corrente, dita "popular", outro no âmbito da habitação de "influência erudita", quase solarenga.

A construção corrente está especialmente bem representada na freguesia da Prainha onde se encontram algumas das casas aparentemente mais antigas e, embora ao abandono, relativamente bem conservadas. Da construção de "influência erudita" conserva este concelho alguns dos exemplares mais significativos da ilha, embora surjam disseminados por diferentes freguesias.

Apesar de não haver uma fronteira nítida entre as casas "populares" e as de "influência erudita’’, podendo-se encontrar diversos casos que estabelecem a transição e anulam qualquer hipótese de delimitação rígida, não é vã a tentativa de caracterização comparada.

As habitações de ambos os grupos inserem-se em ambiente rústico e comungam características próprias do contexto agrícola, como a de possuírem lojas térreas e surgirem muitas vezes acompanhadas de edificações de apoio à agricultura. Umas e outras são, portanto, casas rurais. As diferenças mais evidentes encontram-se na dimensão e na frequência, já que as habitações comuns possuem menos e menores compartimentos, mas podem ainda ser encontradas em pequenos núcleos, enquanto as casas maiores, tendo pertencido a proprietários mais abastados e socialmente mais proeminentes, são de ocorrência excepcional. Um dos núcleos de habitação popular mais significativos é o que faz parte da unidade paisagística construída da Ribeira de Nossa Senhora/Sul.

Certos aspectos construtivos e expressivos são também comuns às casas mais antigas, independentemente do estatuto sócio-económico de quem as mandou construir, nomeadamente o já referido ar rude e arcaico e uma proporção atarracada. A fama de negrume que envolve a arquitectura do Pico, resultante da utilização da pedra vulcânica sem qualquer revestimento (pedra que aparenta ser mais preta aqui que em qualquer outra ilha), é que nem sempre corresponde a uma realidade construtiva. De facto, todas as casas de "influência erudita" e muitas de arquitectura corrente foram rebocadas e pintadas de branco pelo menos nas fachadas principais. Mas o Concelho de São Roque está virado a norte, menos exposto ao sol e mais à influência dos ventos marítimos e das humidades que reduzem a uma mancha escura qualquer caiação que não seja regularmente renovada. A vizinhança dos muros e das atafonas ou dos palheiros construídos em pedra seca, por vezes sobre um fundo de lavas em desagregação, acentua este ambiente de negrura.

As próprias características distintivas das casas senhoriais ou mais abastadas, isto é, aquelas que permitem identificar a influência de uma linguagem erudita, vêm opor-se à claridade dos rebocos. Assim, mesmo no exemplar mais conservado, os grossos cunhais, os socos, as faixas, as cornijas, as pilastras ou os aventais em cantaria limitam a expansão das superfícies rebocadas e envolvem de negro os troços caiados.

No Pico, quanto mais expressivas são estas características mais a solidez que transmitem aproxima estas casas da "arquitectura chã" do Continente. A Casa do Ouvidor de São Roque representa, neste contexto, um dos melhores exemplos. Os socos e os cunhais aparelhados vão perdendo espessura à medida que a construção se torna corrente.

Própria das casas mais antigas e abastadas é também a utilização do telhado de quatro águas ou de uma adaptação das quatro águas a plantas mais complexas. As habitações comuns têm normalmente um telhado de duas águas. Mais ainda que as características expressivas, são, porém, os aspectos funcionais e de organização interna da habitação que importa evidenciar nos exemplares deste concelho. Nomeadamente no que se refere à zona da Prainha onde se encontra o maior número de casas "populares" com cozinha separada.

As habitações em que a cozinha constitui uma edificação francamente separada do corpo dos restantes compartimentos são hoje, nos Açores, quase exclusivas do Pico e, se bem que nesta ilha haja ainda um núcleo significativo na Silveira (Concelho das Lajes), o número e a qualidade dos exemplares da Prainha, embora quase todos desocupados, merece um especial destaque. Tanto mais que, devendo ter sido este, no passado, o tipo de casa mais frequente nesta zona da ilha, a sua hipotética evolução e o contacto com modelos vindos de fora ou de outros pontos do Pico deu origem a soluções de passagem que abundam também na freguesia. Dentre estas são especialmente significativas as que utilizam um telheiro de ligação (meia-água), construído ou não em materiais precários, entre o corpo da cozinha e o corpo dos quartos, ou aquelas em que o corpo da cozinha já aparece encostado ao corpo dos quartos mas ainda não possui ligação interna.

Estas casas com a cozinha separada têm, em regra, dois compartimentos no corpo dos quartos, sobre as lojas, e ambos os corpos (cozinha e quartos) têm uma planta rectangular. As casas mais abastadas, ou solarengas, com mais compartimentos, têm frequentemente uma planta em "L". A cozinha, porventura primitivamente separada, encosta agora nas traseiras, num dos extremos do "L", esboçando ou desenvolvendo a forma de "U". O primeiro caso está exemplificado no Passal de Santo Amaro. A Casa das Senhoras e a Casa do Ouvidor, ambas na freguesia de São Roque, formam um "U" completo. A sua concepção, porém, não se filia na planta dos grandes solares continentais que utilizam a mesma forma, eventualmente importada de França (Carlos de Azevedo, Solares Portugueses, 1969), já que o "U" picoense está virado do avesso ficando a fachada principal do lado externo, na base do "U".

A Casa do Passo Branco de Baixo, na freguesia da Prainha, constitui talvez o mais interessante exemplar de transição: o corpo dos quartos forma um "L", como nas casas mais abastadas, mas a cozinha surge num corpo separado (ligado por uma meia-água) como nas casas "populares". A dimensão do "L" é tão pequena que a cozinha acaba por preencher quase todo o ângulo interno, deixando apenas uma estreita passagem e dando ao conjunto uma planta quadrada.

A familiaridade tipológica entre as casas solarengas e as casas "populares" é, de resto, um fenómeno comum e exemplificável a partir do tipo de habitação mais corrente no Pico: a casa que tem a cozinha encostada, na perpendicular, ao corpo dos quartos. Tanto a Casa Solarenga da Prainha como o Solar dos Salgueiros no Lajido (freguesia de Santa Luzia), cuja complexidade de habitações senhoriais resulta na dobragem dos compartimentos (uso de compartimentos para a frente e para trás) e não numa extensão linear em "L" ou em "U", apresentam o corpo da cozinha na perpendicular ao rectângulo principal como na mais vulgar casa picarota.

A concentração no Concelho de São Roque de exemplares arcaizantes, tanto no domínio da casa "popular" como na habitação de "influência erudita", no seio de um acervo rico e variado de tipos arquitectónicos que estimula o estudo cruzado de influências, confirma a importância do património edificado deste município no campo da habitação tradicional.

*Licenciado em Arquitectura (ESBAL,1977). Mestre em História de Arte (FCSH-UNL,1988). Assistente no IST.
** Este texto pressupõe o conhecimento prévio do conteúdo do livro Arquitectura Popular dos Açores, actualmente no prelo.

O Inventário do Património Imóvel do Concelho de São Roque do Pico
Ilha do Pico. Esboço Histórico
A propósito do Inventário do Património de São Roque do Pico
Sobre a habitação tradicional de S. Roque
Pico. São Roque
Inventário do Património Imóvel dos Açores
Última actualização em 2006-03-09