Rochas da ilha do Pico
 

João Carlos Nunes*
Victor Hugo Forjaz**

Da natureza geológica do ilha do Pico sobressaem a presença de formações rochosas, a predominância de terrenos pedregosos e a pobreza dos solos existentes na quase totalidade da ilha, que constituem características marcantes da respectiva paisagem, tornando-a única no contexto da realidade vulcânica do arquipélago dada a natureza exclusivamente basáltica s.l. das lavas do Pico, pode observar-se nesta ilha um vasto conjunto de formas e de estruturas vulcânicas que são típicas de regiões de vulcanismo básico. Inversamente, depósitos, estruturas e paisagens vulcânicas intimamente associadas a erupções de magmas siliciosos (como é o caso de pedra pomes, ignimbritos, lahars, domas e agulhas) estão totalmente ausentes da ilha do Pico, embora façam parte da realidade geológica de outras ilhas do grupo central, nomeadamente da vizinha ilha do Faial.

Os mecanismos vulcânicos que condicionaram a tipologia das rochas existentes na ilha do Pico, moldaram, também, a sua morfologia. A imponente Montanha do Pico (o terceiro maior vulcão do Atlântico) e os cerca de trezentos e cinquenta cones de escórias basálticas (vulgarmente designados cabeços de bagacina) que caracterizam a paisagem são, assim, duas realidades importantes.

As rochas do Pico apresentam uma natureza marcadamente alcalina em que os termos mais evoluídos (como é o caso das rochas de composição traquítica - e.g. a pedra pomes) estão ausentes. Desse modo, cerca de oitenta por cento do total das rochas existentes na ilha são basaltos; os materiais efusivos (isto é, aqueles associados a escoadas lávicas) predominam relativamente aos produtos piroclásticos (as bagacinas), os quais estão, por seu turno, associados a explosões geralmente fracas a moderadas. Um aspecto intrínseco às rochas da ilha tem a ver com as elevadas temperaturas de emissão das respectivas lavas, temperaturas essas que se podem deduzir, nomeadamente, da composição mineralógica dessas mesmas lavas.

Se em termos da sua composição química as rochas da ilha do Pico apresentam uma grande homogeneidade, estas evidenciam, pelo contrário, uma grande variedade de texturas, na sua maioria expressas em afloramentos onde são evidentes diferenças mineralógicas. Esta diversidade de texturas traduz-se, nomeadamente, na presença ou ausência de certos minerais, nas suas variadas dimensões, diferentes hábitos, etc. Algumas rochas da ilha do Pico exibem minerais de dimensões consideráveis no seio da matriz que são facilmente observáveis e identificáveis à vista desarmada. Estes, designados por fenocristais, são constituídos essencialmente por plagioclases (de cor esbranquiçada), por piroxenas (de cor escura) e por olivina, um mineral de cor verde-claro, mais ou menos límpido ou translúcido.

De entre os diversos tipos de texturas da ilha do Pico, merece especial referência a presença de lavas onde os fenocristais de plagioclase se dispõem em forma de roseta (ou em estrela), as quais possuem dimensões variáveis. As rochas em que essas "estrelas" de plagioclase adquirem maiores dimensões e podem, por isso, ser facilmente identificadas no terreno são muitas vezes utilizadas como rochas ornamentais (como no caso da fachada da Adega Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico), exploradas em pequenas pedreiras, designadamente na zona do Cabrito. As lavas com rosetas de plagioclase existentes na ilha foram emitidas, na sua maior parte, do topo da Montanha do Pico, quer da área da cratera quer do próprio cone do Piquinho, estando, por isso, praticamente ausentes noutros locais da ilha. Por este motivo, durante as escaladas ao topo da Montanha, é esta a rocha que mais se observa ao longo do trajecto, por vezes com níveis ferruginosos superficiais, de cor avermelhada ou alaranjada, testemunho de uma intensa alteração química provocada pelos agentes externos (chuva, ar, temperatura, seres vivos, etc.).

Nos basaltos ditos de olivínico-piroxémicos (ou picríticos), os fenocristais são constituídos exclusivamente por olivina e piroxenas, em que a primeira surge em maior percentagem relativamente às segundas. Estas rochas estão presentes um pouco por toda a ilha, desde os Lajidos da Criação Velha, às lavas de São Miguel Arcanjo e às escoadas do Pico do Urze (nos matos de São João), bem como as rochas mais antigas da Lagoa do Capitão. Noutros casos, as rochas do Pico apresentam-se com uma elevada concentração de fenocristais de piroxenas, em geral de cor escura, facetados e, por vezes, com vários centímetros de comprimento, onde há, tambám, cristais de olivina associados. Tais rochas, designadas por ankaramitos, estão presentes em muitas áreas do ilha, com excepção da sua zona mais oriental.

Nas escoadas lávicas mais fluidas, isto é nos chamados "lajidos" do Pico (ou lavas pahoehoe, em termos vulcanológicos), a quantidade e as dimensões desses fenocristais aumentam consideravelmente do topo para a base da escoada, devido a curiosos fenómenos de deposição gravítica dos fenocristais, dado a maior densidade dos cristais de piroxena e de olivina, relativamente ao líquido envolvente. É curioso referir, a propósito, que, pelo contrário, os fenocristais de plagioclase (em forma de acículas, rosetas ou cristais tabulares) concentram-se muitas vezes no topo das "lajes", devido a fenómenos de "flutuação" destes cristais durante a movimentação e a implantação das escoadas lávicas. Fenómenos de deposição gravítica, como os atrás descritos, podem ser observados em muitos locais do ilha do Pico, nomeadamente na área da Furna, freguesia de Santo António. Neste local, predominam os ankaramitos explorados no pedreira do Nariz de Ferro, utilizados nas obras do porto comercial de São Roque do Pico e que estarão, decerto, relacionados com a toponímia do local dada a elevada dureza e compacidade dessas rochas.

Ao contrário das rochas atrás descritas, que predominam na metade Oeste da ilha, isto é, no grande estratovulcão que constitui a Montanha do Pico, podem encontrar-se na metade Leste lavas em que existe uma elevada quantidade de fenocristais de plagioclase de hábito tabular, com dimensões médias da ordem do centímetro, e que atingem ocasionalmente 2 a 3 cm de comprimento. Este mineral, dado a sua abundância e dimensões, confere à rocha um aspecto "manchado" de bronco. Rochas deste tipo podem observar-se no ramal de acesso à Calheta do Nesquim, no região da Ponta das Prombetas, Cabeço do Rocha, nas Ribeiras e tantos outros locais do ilha do Pico.

Para além dos tipos texturais anteriormente enumerados, há, como se referiu, um vasto leque de aspectos que tipificam as rochas da ilha do Pico e que constituem, por isso, importantes ferramentas de pesquisa e de investigação e que entusiasmam especialistas em áreas como a petrologia e a geoquímica. Neste contexto, outros objectivos, outras abordagens e outros trabalhos revelariam, por exemplo, a presença de diversos outros minerais nas rochas da ilha como é o caso da horneblenda, da magnetite ou da apatite), ou a presença de xenólitos nalgumas rochas, por vezes com dimensões de alguns centímetros, os quais, constituindo corpos "estranhos" à lava, chegaram à superfície provindo de níveis profundos sob a ilha do Pico.

Como já mencionado, inúmeros cones vulcânicos estão dispersos pela ilha e contribuíram decisivamente para a sua morfologia e configuração actuais, em especial para a génese da extensa cordilheira vulcânica que constitui a sua metade oriental. Essas formas vulcânicas são constituídas na sua maioria por escórias basálticas, geralmente de cor negra, frequentemente vitrificadas e esmaltadas, popularmente designadas por "bagacina". Estes cones de escórias apresentam-se ora sob a forma de edifícios cónicos mais ou menos perfeitos, truncados no topo por depressões (e.g. crateras), ora correspondem a acumulações de materiais vulcânicos explosivos, moldados e soldados entre si (e.g. os "salpicos de lava" ou "emplastros"), conferindo às vertentes do cone e da cratera maior estabilidade e, como tal, verticalidade. Trata-se de material vulcânico amplamente utilizado em vias de comunicação, na construção civil ou, ainda, como terreno agrícola, designadamente em pomares e terrenos de vinha. Mais raramente, quando as escórias basálticas, antigas, se apresentam avermelhadas e mais compactas, são utilizadas como rocha ornamental, como se pode observar numa escultura de um crucifixo existente em São Miguel Arcanjo.

Associados a erupções submarinas muito idênticas às que caracterizaram a fase inicial da erupção dos Capelinhos, os ilhéus da Madalena e o Cabeço Debaixo da Rocha (próximo da vila da Madalena) são constituídos por rochas ímpares nesta ilha, dada a sua raridade e as características distintivas que apresentam relativamente àquelas indicadas anteriormente. O aspecto estratificado, ou seja, em camadas, a coloração amarelada ou acastanhada e a compacidade elevada, são algumas das características destas rochas. Refira-se, ainda, que os ilhéus em Pé e Deitado da Madalena, verdadeiros ex-libris da "vila fronteira", apresentam-se fortemente degradados pela acção erosiva marinha e constituem os resquícios de um cone vulcânico, que teria um diâmetro da base da ordem de 500 metros, à cota do mar.

Embora não constituam, por si só, um tipo de rocha específico, refira-se, finalmente, a presença dos "mistérios" da ilha do Pico, os quais correspondem a zonas de vulcanismo muito recente, ocorrido após o povoamento da ilha, e que traduzem, desde tempos idos, um importante elo de ligação entre a natureza vulcânica da ilha e a natureza "espiritual" dos seus habitantes. Com efeito, na ilha do Pico, porventura mais do que em qualquer outra parcela do arquipélago dos Açores, percebe-se uma relação muito íntima, cúmplice até, entre o Homem e a Pedra que o rodeia: são os muros, as casas, as adegas e as atafonas erigidas em pedra seca, geométrica e cuidadosamente emparelhada; são os elegantes e austeros "maroiços", amontoados piramidais de fragmentos escoriáceos de basalto (chamados de clinker), meticulosamente empilhados no decurso de gerações; são os longos trilhos de carros de bois que sulcam os "lajidos" do Pico pelas tantas e tantas viagens efectuadas num mesmo percurso; são, ainda, os terrenos agrícolas fortemente emparcelados, muitas vezes conseguidos à custa de uma limpeza das "pedras infestantes" ou de terra "importada" da vizinha ilha do Faial, ou, por vezes, de um empréstimo, forçado, por parte de bagacinas de um qualquer cone vulcânico, próximo ou não.

Actualmente, as rochas da ilha do Pico são utilizadas na construção civil e em algumas peças ornamentais. Os basaltos compactos, densos, aplicam-se em obras portuárias, na feitura de diversos tipos de britas e em algumas pavimentações. Os basaltos porosos, não fornecendo boas britas, utilizam-se como sub-bases de rodovias, como elementos decorativos ou como revestimentos exteriores e interiores (sendo trabalhados em "serragens de pedra"). As bagacinas são aplicadas como camada de desgaste em caminhos, no fabrico de "blocos" e como solos artificiais (neste caso recobrindo terrenos de "lajido" e de "biscoito") que evoluem em cinco/seis anos, permitindo a constituição de novas hortas, vinhedos e pequenas quintas.

Nas primeiras construções de pedra, no início do povoamento, utilizaram-se certamente os blocos desmontados dos lajidos próximos do mar. As casas de pedra, no geral, eram construídas em "duas folhas" (uma parede exterior e outra interior, separadas por um enchimento de calhau miúdo, de clinker ou de bagacinas). Com a ocupação e o desenvolvimento da ilha surgiram pedreiras abertas a guilho e a cunhas de ferro, aproveitando diaclases e outras fendas das lavas. Posteriormente, passou a utilizar-se a pólvora em desmontes mais difíceis; a dinamite e a gelamonite só passaram a uso corrente, como técnicas de desmonte nas pedreiras, nos meados do século passado e eram explodidas em furos abertos mecanicamente.

Desde há uma dezena de anos apareceram novos tipos de máquinas de desmonte e de corte da pedra, que permitem quer racionalizar as explorações de rocha quer a obtenção de peças seleccionadas e mais perfeitas. Nos anos cinquenta, o preço da mão-de-obra tornou proibitiva, pelos elevados custos, a inserção de "pedra trabalhada" nas habitações que se iam construindo. Os novos equipamentos de desmonte e de acabamento ressuscitaram o uso das rochas como elementos decorativos integrantes da paisagem picoense.

* Licenciado em Geologia (ramo científico). Doutorado em Vulcanologia. Professor auxiliar e investigador no Universidade dos Açores.
**Licenciado em Geologia (Faculdade de Ciências de Lisboa). Doutorado em Vulcanologia de Engenharia (Universidade dos Açores). Professor associado e investigador na Universidade dos Açores. Fundador e consultor do Programa Geotérmico da ilha de São Miguel.

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Última actualização em 2006-03-09