Madalena do Pico: breve visão do património construído
 

José Manuel Fernandes*

Fronte da ilha açoriana de maior altitude, postada perante o urbano Faial e dele separada pelo "canal", o concelho da Madalena apresenta uma ocupação material edificada que atesta a sua intensa dimensão rural e a importância ancestral das culturas da vinha no território, com o seu acompanhamento inevitável de adegas, alambiques, armazéns e de grandes casas rurais. Um pouco como sucede nos concelhos vizinhos, mas aqui com uma articulação mais visível e directa com a "ilha em frente", o que faz da Madalena uma espécie de "interface" rural-marinho com o restante arquipélago.

De facto este "povoamento da vinha" - que já mereceu atenção e estudos de arquitectos (veja-se "O espaço lúdico nas construções do 'ciclo do verdelho' na ilha do Pico", por Martins Naia, in Atlântida, ed. IAC., vol.XXXl, de 1986) - inclui vastas áreas classificadas que procuram abranger os conjuntos ou edifícios isolados de adegas, de alambiques, de armazéns, contidos na área concelhia da Madalena, com a sua portentosa dimensão de unidades paisagísticas e mesmo com algumas construções de escala monumental, embora utilitária.

Destaquemos neste quadro funcional - as obras construídas com vocação utilitária - os que constituem verdadeiras unidades paisagísticas, definindo uma diversidade de formas e espaços, e atingindo uma significativa dimensão geográfica.

O futuro Museu do Vinho, nos Toledos - que foi casa dos antigos Carmelitas - é um exemplo de recuperação e reutilização cultural destes equipamentos (pelo arquitecto Paulo Gouveia) que merece por isso um destaque primeiro e positivo: inclui casa e cisterna, à roda de notável dragoeiro, e algumas obras novas, como o mirante sobre o vinhedo e o mar, além das instalações produtivas e museais propriamente ditas.

Outras unidades paisagísticas pertencem a este universo funcional: pertence-lhe o conjunto de aglomerados de adegas e de currais de vinha, na Pontinha, que faz parte da Paisagem Protegida (DLR n.º 12/96/A, de 27 de Junho), como o fazem também o conjunto de adegas e alambiques de Fogos, na Candelária, ou idêntico conjunto com seus armazéns e terrenos, junto ao Porto de Ana Clara, na mesma Candelária.

Outros locais ainda relacionam-se com este tipo de funções e construções: e o caso das unidades paisagísticas constituídas pelo grupo de casas rurais, com vigia de baleias e seus terrenos circundantes, na rua dos Caldeiroes, em São Mateus; da malha de muros de pedra para currais de vinha nos Lajidos (Criação Velha, na área da Paisagem Protegida de 1996); e do conjunto de maroiços e cerrados, no Bacelo, Valverde.

Certas outras unidades paisagísticas classificadas neste estudo não deixam de acentuar a vertente de paisagem rural e litorânea, mais genérica, da ilha: e o caso da Quinta das Rosas, um parque com pequeno edifício e mirantes, na Madalena; da Ermida de Nossa Senhora da Estrela, entre os cabeços Chão e de Baixo da Rocha (na área da Paisagem Protegida de 1996); do cabeço vulcânico, no Cabeço do Moio, Madalena, com cultivo no interior da cratera; e, já litoral, do Cais do Porto de São Mateus.

No sector dos chamados conjuntos edificados, podemos destacar igualmente certos agrupamentos (embora sem a dimensão vasta e a paisagem extensa presente nos conjuntos atrás referidos) ligados à função rural e/ou ex-vinhateira: são assim as adegas e currais de vinha na Canada das Adegas da Candelária (também em área de Paisagem Protegida); um cuidado conjunto com eira e cisterna em São Mateus; os quatro edifícios (de casa de alambiques, armazéns, cisternas e currais de vinha) no Guindaste, Candelária; as duas adegas e tenda de ferreiro, na Canada de Baixo, Candelária; e o conjunto de cerca de dez adegas, na Canada do Monte da Criação Velha (igualmente na área de Paisagem Protegida).

Refiram-se, ainda, neste grupo: os três palheiros nas Sete Cidades, Madalena; o conjunto do Cachorro (com adegas, alambiques, armazéns e casas senhoriais) e o Cais do Mourato, nas Bandeiras, com as idênticas adegas, alambiques, habitações e poços de maré. Em termos de obras isoladas, as construções utilitárias exibem também uma marcada representatividade deste sector funcional no concelho: é o caso dos tradicionais moinhos de vento (classificados oficialmente mas em geral degradados) na Terra do Pão, Monte da Candelária, Areia Larga/Criação Velha, na Canada do Monte e na Madalena (os três últimos na área da Paisagem Protegida); das atafonas (no Canada do Alferes) e das "casas de vacas" (no Canada do Terra Grosso, Criação Velha); e dos poços de maré, normalmente quadrangulares e peri-litorais (em São Caetano, na Furada/Candelária, no Porto de Ana Clara/Candelária, no Ramal de Areia Larga/Criação Velha, na Barca/Madalena e nas Bandeiras, sendo os cinco últimos sitos na área de Paisagem Protegida).

Outras construções utilitárias, mais esparsamente detectadas em exemplos merecendo destaque, são mesmo assim significativas do valor do mundo rural picoense. É o caso dos maroiços (na Madalena) e das eiras (de forma circular, nas Casas Brancas, Bandeiras), dos palheiro para bois (nas Bandeiras) e dos fornos de cal (de planta circular, no Madalena) - e, no domínio piscatório, as "casinhas de barcos" em pedra e cobertura de madeira telhada, no Porto do Prainha do Galeão, em São Caetano.

Mas o tema das construções utilitárias naturalmente mais evidenciado neste concelho é o que as relaciona com as actividades vinhateiras - já atrás mencionadas como um autêntico "leit-motiv" concelhio e de toda a ilha - pelo que são de mencionar aqui a série de espaços ligados a esta actividade, a um tempo produtiva e associada ao lazer.

Assim, temos os alambiques e armazéns (no Guindaste e no Monte, ambos na Candelária), e os edifícios com casas de alambique e adegas, nas Vinhas da Casa, São Mateus (estes na área da Paisagem Protegida de 1996); a adega e palheiro da rua das Dores, Criação Velha; e o abrigo de apoio à vinha, nos Lajidos (este igualmente em área de Paisagem Protegida).

Podem ainda referir-se, dentro deste tema: o conjunto de duas adegas no Cachorro, Madalena (no área da Paisagem Protegida); as adegas de grandes dimensões, na Barca, no Cachorro e nas Bandeiras; ainda outra adega de grande escala, com a datação de 1899 na verga da entrada, possuindo habitação, cozinha, cisterna e "casa de alambiques" (sita no caminho do Meio de São Caetano); e a excepcional Cooperativa Vitivinícola, na Madalena, obra de arquitectura industrial moderna, em betão armado, do século XX. Uma obra especial, ainda neste tema, é o das adegas e provável habitação, no Cais do Mingato, Candelária, na área de Paisagem Protegida, que constitui um verdadeiro vestígio arqueológico (Cemitério das Adegas).

O mais erudito e impressivo dos exemplos de arquitectura ligada ao espaço vinhateiro é, porém, o da antiga Casa Conventual dos Jesuítas, nos Toledos da Madalena, com o seu esplêndido, embora arruinado, conjunto edificado em torno de um pátio, onde o portal barroco se impõe, negro e branco, entre o verde da vinha e o azul forte do céu.

Como obras esparsas, dentro de um sentido utilitário e infra-estrutural, podem mencionar-se ainda a ponte em São Caetano (datada pelas "Obras Públicas", de 1873) ou a estrada da Canada das Casas Brancas, nas Bandeiras.

A casa de habitação rural é um segundo tema essencial na compreensão do território construído tradicional do concelho da Madalena - não desenvolveremos aqui a análise das casas de grandes dimensões, isoladas, de feição mais ou menos erudita, mas há que fazer referência aos edifícios isolados mais correntes. Estes são de dimensão mais humilde, mas mesmo assim merecedores de um destaque neste inventário: é o caso da casa linear com cozinha alteada, de dois balcões, na Terra do Pão, São Caetano; da casa com quartos e cozinha encostada, na Mirateca, Candelária; do edifício com o corpo principal e cozinha, formando um "L", na rua da Eira, Candelária; da casa rural com cisterna e curral de porco, na rua das Dores da Criação Velha; da habitação com cisterna da rua Direita da Criação Velha; e da casa rural no Ramal da Areia larga, também na Criação Velha, sendo esta última em plena área de Paisagem Protegida. Finalizemos esta série com a referência às duas casas com cisterna, referenciadas nas Bandeiras, e à casa de veraneio no Porto da Barca, igualmente na Madalena.

Um tema especialmente interessante no concelho da Madalena é o dos conjuntos edificados com carácter urbano ou proto-urbano, raro mas apresentando dois casos muito qualificados: o do centro urbano da vila da Madalena, pontuado pelo emblemático e vetusto edifício da câmara, pelos edifícios que com ele formam um todo e pela igreja da matriz da vila, todos articulados entre si pelos espaços públicos que se vão aproximando da área portuária e marinha; e o conjunto da rua Direita e largo da igreja da Criação Velha, com a Igreja de Nossa Senhora das Dores, o "império" de 1902, o cemitério e a vasta e frondosa alameda de plátanos com os edifícios correntes da envolvente.

O "resto" das ocorrências tipológicas neste concelho é praticamente do domínio da arquitectura religiosa que, como habitualmente, se exprime e afirma como um sistema de elementos pontuais, organizando simbólica, social e esteticamente o território e os seus núcleos edificados, na complementaridade com a dimensão das construções rurais e produtivas - sendo estas o "leme" do concelho, como já se disse - e com a arquitectura doméstica que tantos exemplos notáveis possui aqui.

Assim, refiram-se em São Caetano a ermida de Santa Margarida (de 1879) e a igreja de São Caetano (com inscrição de 1878); a de São Mateus (com frontão datado de 1890) e a ermida do Porto de São Mateus na freguesia deste nome; na Candelária, a igreja de Nossa Senhora das Candeias (com inscrição no frontão de 1803) e a ermida de Santo António do Monte; na Criação Velha, a ermida de Nossa Senhora do Rosário, no Ramal da Areia larga; na Madalena, a ermida da Conceição, em Valverde (com inscrição no lintel de 1712), a capela do cemitério, a igreja matriz e o "império" da Sete Cidades. Ainda na área da vila da Madalena, refira-se a ermida das Almas, nos Toledos; nas Bandeiras, a de São Caetano, no Cabeço do Chão, o "império" das Bandeiras no largo da Igreja e a própria igreja da Bandeiras.

Em síntese, foi assente num "triângulo", constituído pela actividade produtiva dominantemente vinhateira, complementada esta por uma forte componente doméstica e residencial, e enquadrada ainda pela presença de espaços religiosos, que a estrutura construída marcou e caracterizou o espaço de ocupação humana nesta área poente da ilha do Pico.

* Arquitecto. Licenciado pela Escola de Belas Artes de Lisboa (1977). Doutorado pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa (1993), onde é professor agregado desde 1999. Professor do Departamento de Arquitectura da Universidade Autónoma de Lisboa (desde 1998-2003). Director do Instituto de Arte Contemporânea, desde 2001. Publica regularmente artigos, textos e livros sobre arquitectura e urbanismo.

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Última actualização em 2006-03-09