Construções de Falsa Abóbada de Pedra Seca da Madalena do Pico
 

Rui de Sousa Martins*

Na zona noroeste do imponente cone vulcânico da ilha do Pico, em cuja base se situa a vila da Madalena, os fenómenos eruptivos produziram dois tipos de solo, objecto de diferentes processos históricos de ocupação agrária, dos quais resultaram paisagens de estruturas construídas de pedra seca, muito marcantes 1.

A faixa litoral, pouco elevada e plana, é constituída por escoadas lávicas (chão de laiido), tem características climáticas próprias e, a partir do século XVI, foi sendo ocupada pela cultura da vinha, em abrigos de pedra seca (currais), construindo-se desta forma vastos reticulados que identificam a paisagem vitícola do concelho 2.

A sudeste da Madalena, na zona situada entre os 50 metros e os 200 metros de altitude (Valverde, Sete Cidades), os terrenos caracterizam-se pela presença de abundantes produtos piroclásticos. Este "chão de biscoito" foi aproveitado para cultivar cereais, certamente em data anterior ao século XVIII, quando o milho se generalizou no arquipélago 3. A necessidade de limpar as terras para as tornar agricultáveis obrigou a remoção das pedras soltas, normalmente de pequena dimensão, que não podendo ser arrumadas num sistema de muros, tiveram de ser acumuladas no local. Desta forma, produziu-se uma paisagem monumental, dominada por grandes montes de pedra (maroiços), de formas grosseiramente cónicas, piramidais, frequentemente escalonadas, ou então com a estrutura de maciço alongado, mais ou menos extenso.

Os maroiços têm paramentos laterais de aparelho irregular, construído com pedras maiores, enquanto o enchimento interno e a parte superior convexa são feitos com pedra miúda amontoada. Estes grandes maciços organizam-se no espaço e articulam-se com muros de vedação, delimitando e abrigando os terrenos de cultivo. Nas zonas de vinha, quando as paredes não arrumavam a pedra toda, também se ergueram maroiços que, neste caso, são um elemento paisagístico secundário 4.

Tanto nas áreas de currais como nas áreas de maroiços, a pedra solta foi utilizada em construções de falsa abóbada 5 que serviam de abrigo eventual a cultivadores, instrumentos de trabalho e mantimentos.

Com base em pesquisas de terreno realizadas em Novembro de 1992 6, procurarei analisar comparativamente as características dos referidos abrigos no contexto dos sistemas de produção agrária de vinha e cereais.

Os abrigos de maroiço são pequenas construções no interior dos grandes amontoados de pedra, comunicando directamente com o terreno de cultivo 7. Os dois abrigos observados (Valverde e Canada Nova) são de planta tendencialmente circular (100/140 cm) 8, cobertura-parede em falsa abóbada conoidal (alt. 200/160 cm) e porta rectangular (45x112 cm / 52x135 cm). As dimensões do vão indicam que a construção era usada sobretudo como abrigo de trabalhadores e alfaias agrícolas.

O abrigo de vinha que observei na Fajã (Criação Velha), construído num curral e encostado a um afloramento rochoso servindo de parede posterior, tem forma sub-hemisferoidal, planta interior rectangular (larg. 80 cm, profund. 126 cm), cobertura em pseudocúpula (alt. 114 cm) e porta trapezoidal (Iargs. 73 e 37 cm, alt. 85 cm). Era neste tipo de construção rudimentar que se guardavam as estacas de cana utilizadas para amarrar a vinha.

Tanto nos abrigos de maroiço como nos de vinha, as ombreiras das portas eram feitas com grandes pedras não aparelhadas e, no lintel, utilizam uma pedra com as dimensões adequadas ou então duas em ângulo (Canada Nova). Os vãos nunca eram fechados.

As construções em pedra seca desempenharam um papel central nos processos de exploração dos recursos naturais do arquipélago, produzindo soluções adequadas às diferentes condições geomorfológicas, biogeográficas, climáticas e culturais.

A nível mais elementar, a referida técnica consiste na selecção e recolha, no próprio local, de elementos pétreos, com dimensões manuseáveis, e na sua utilização selectiva, sem prévia transformação, não se recorrendo a argamassas nem se incorporando outros materiais. Desta forma, construíram-se paredes de suporte de terras, possibilitando a cultura de hortícolas nas vertentes inclinadas das ilhas, levantaram-se as grandes extensões de currais de vinha e de figueiras (semicirculares) e, na ilha de Santa Maria, ergueram-se espectaculares currais em sucalcos. Outros tipos de paredes delimitaram e protegeram terras de cultivo e pastagens. No Pico, algumas aberturas de passagem nestes muros eram também fechadas com pedras móveis que o utilizador desmontava e remontava. A pedra seca natural serviu igualmente para construir muros de delimitação de caminhos, pontes e escadarias que ajudavam a vencer os declives da ilha.

As construções pétreas de falsa abóbada, cónica ou em cúpula, foram usadas como instrumento da produção agre-silvo-pastoril, abrigando agricultores, pastores, alfaias, alimentos e animais (porcos e bezerros). De salientar que os abrigos de maroiços não têm autonomia estrutural, sendo comparados a grutas artificiais abertas nos maciços de pedra.

A adopção deste tipo de abrigo em diferentes contextos ecológicos e produtivos de algumas ilhas dos Açores (Santa Maria, Terceira, Pico, Corvo) deve-se ao facto da construção em falsa abóbada associar a abundância e a disponibilidade da matéria prima, a elementaridade das técnicas construtivas, a resistência dos materiais e da estrutura às inclemências do clima e aos perigos de incêndio e, sobretudo, as favoráveis características microclimáticas do interior que se mantém fresco nos dias muito quentes, conservando o calor nas noites frias e húmidas 9.

No entanto, a pobreza da matéria-prima e a elementaridade das técnicas não devem ser entendidas como sinónimo de um baixo nível de integração social. As monumentais obras de pedra seca exigiam um grande volume de mão de obra disponível que tinha de ser retribuída, assim como uma organização complexa dos processos de trabalho. Estas grandes obras e até os abrigos simples e exíguos não dispensavam o conhecimento especializado de pedreiros capazes de construir pseudocúpulas seguras, com pequenas pedras.

As técnicas aparentemente mais rudimentares eram sobretudo as mais eficazes e as de melhor adequação às condições ecológicas e sociais do arquipélago, cuja paisagem marcaram profundamente.

BIBLIOGRAFIA
Arquitectura Popular dos Açores. 2000. Lisboa, Ordem dos Arquitectos.
Costa, Carreiro da. 1991. Etnologia dos Açores, 2. Lagoa, Câmara Municipal.
Costa, Susana. 1997. O Pico (Séculos XV-XVIII). São Roque, Associação de Municípios da ilha do Pico.
Nunes, João. 1999. A actividade vulcânica na ilha do Pico do plistocénico superior ao hologénico: mecanismo eruptivo e Hazard vulcânico, 3 vols. Ponta Delgada, Universidade dos Açores. Tese de Doutoramenlo policopiada.
Oliveira, Ernesto, F. Galhano e B. Pereira. 1969. Construções primitivas em Portugal. Lisboa, I.A.C.
Rodrigues, Maria, P. de Sousa, H. Bonifacio. 1996. Vocabulário técnico e crítico de arquitectura. Coimbra, Quimera.
Ron, Zvi. 1997. "Microclimatic importance of stone huts in the mediterranean region", in La pedra en sec. Obra, paisatge i patrimoni. Mallorca, Consell Insular:351-372.
Silva, José. 1995. Pedras da Maia. Santa Maria. Vila do Porto, Câmara Municipal.
Silva, José. 1999. O Sul de Nossa Senhora da Boa Morte. Vila do Porto, Câmara Municipal.
Silva, Manuel. 1951. "A ilha do Pico sob o ponto de vista vitivinícola", Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, 14. Ponta Delgada, CRCAA:45-58.
Veloso, Ana. 1988. A ilha do Pico e a paisagem dos muros negros. Horta, Direcção Regional de Turismo.

* Professor de Antropologia Cultural da Universidade dos Açores.
1 Sobre o vulcanismo da ilha do Pico, consulte-se João Nunes, 1999.
2 Manuel Silva, 1951; Ana Veloso, 1988.
3 O cultivo de cereais na ilha do Pico foi estudado por Susana Costa, 1997.
4 Manuel Silva, 1951: 51. .
5 Sobre as construções com cobertura de pedra, no continente português, veja-se a obra de Oliveira, Galhano e Pereira, 1969: 145-187.
6 Projecto de pesquisa do Centro de Estudos Etnológicos da Universidade dos Açores sobre as construções de pseudocúpula no arquipélago.
7 Em 1991-92, o Círculo de Amigos da ilha do Pico promoveu a realização de um documentário sobre os maroiços da Madalena. A recolha de imagens foi feita por Arlindo Manuel Nunes Bettencourt, com a colaboração do engenheiro José Ferreira e do espeleólogo Albino Terra Garcia.
8 A primeira medida refere-se ao maroiço de Valverde e a segunda ao da Canada Nova.
9 As condições microclimáticos dos abrigos de pedra na região mediterrânica foram estudadas por Zvi Ron, 1997.

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Última actualização em 2006-03-09