Casas solarengas no concelho da Madalena
 

João Vieira Caldas*

A escolha do vocábulo solarengas para adjectivar as casas de feição mais erudita do concelho da Madalena não é nova 1, nem inocente e deve-se essencialmente a três ordens de ideias.

Por um lado, com essa designação, consegue-se abarcar não só as grandes casas rurais localmente chamadas "solares", mas também outras cujo porte e expressão denunciam um passado de relativo poderio socio-económico e alguma influência das correntes arquitectónicas eruditas.

Por outro, esse reflexo de carácter culto é ténue, mesmo nos referidos "solares", destacando-se estas habitações mais pela dimensão e pelo enquadramento paisagístico que pelas suas características tipológicas e formais.

Por último, estando o conceito de solar, em rigor, ligado a uma porção de terra identificável com uma linhagem nobre que aí tem a sua origem, dela recebe o nome e nela constrói uma habitação distintiva que passa a ser a sua morada permanente ou principal 2, a denominação solarenga é aqui utilizada com carácter aproximativo. De facto, os "solares" do Pico, ainda que tendo sido cabeças de extensas propriedades vitivinícolas e eventualmente mandados construir por uma família fidalga, não estão vinculados simbolicamente à origem dessa família e sempre foram, claramente, residências sazonais e secundárias 3.

As casas solarengas do concelho distribuem-se maioritariamente pela área envolvente da Vila da Madalena, com especial incidência no sítio da Areia Larga que se reparte pelas freguesias da Madalena e da Criação Velha. Podem, grosso modo, dividir-se em dois grupos segundo a localização, a época de construção e as características arquitectónicas:

No primeiro grupo incluem-se as propriedades que se encontram mais afastadas da costa (casa do Capitão-mor Diogo da Silveira, casa em "U" na Rua Secretário Teles Bettencourt) e aquelas que se situam mesmo no centro da vila (actual edifício dos Paços do Concelho da Madalena, casa com torreão na Rua Ouvidor Medeiros). Correspondem a construções aparentemente mais antigas, marcadas pela solidez construtiva e por uma volumetria atarracada que lhes são conferidas pelos possantes cunhais em cantaria e por terem o beiral praticamente assente na verga das janelas do piso superior. A impressão de horizontalidade sólida mantém-se mesmo quando as peças em cantaria mais notáveis são os aventais em "V" sob as janelas da fachada, como na casa com torreão, e acentua-se no edifício dos Paços do Concelho cujas fachadas, sendo atravessadas por faixas de pedra na vertical e na horizontal, cedem à preeminência destas últimas.

No segundo grupo incluem-se as propriedades implantadas no chão de lajido, junto ao litoral, correspondendo a edificações aparentemente mais recentes (construídas de finais do séc. XVIII até meados do séc. XIX) cuja origem está quase sempre ligada ao cultivo da vinha e à produção do vinho (Solares dos Limas e dos Salemas e a casa solarenga na Rua João Lima Whitton da Terra, mas também o Solar dos Arriagas, no Guindaste, e a casa senhorial ao Cachorro).

Os exemplares de ambos os grupos obedecem às características gerais da habitação rural do Pico: têm dois pisos, sendo o inferior reservado às lojas e o superior destinado à habitação propriamente dita, e têm a cozinha situada sistematicamente num corpo autónomo que encosta perpendicularmente ao tardoz do corpo principal (no que seguem exactamente o tipo de habitação mais comum no Pico). Para que a comunicação interna entre a cozinha e o resto da habitação seja possível, aquela é sempre implantada ao nível do piso superior do corpo principal, seja por aproveitamento do desnível do terreno, seja pela construção de um maciço que a eleva, seja pela extensão da loja térrea ao corpo da cozinha.

As prerrogativas solarengas podem suscitar maior complexidade na planta do corpo principal, substituindo-se, por vezes, o vulgar rectângulo da habitação corrente por um "L", ou mesmo por um "U". A adição do corpo da cozinha na perpendicular a um dos braços destes corpos habitacionais vai resultar, no primeiro caso, numa planta geral em "U" (casa na Rua Secretário Teles Bettencourt) e, no segundo caso, numa planta aproximadamente quadrada com pátio interior (casa senhorial ao Cachorro). Algumas destas edificações limitam-se a esboçar o "U", como na casa da Rua Ouvidor Medeiros, pela proeminência posterior do torreão, ou como no Solar dos Salemas, pelo encosto ao tardoz de um anexo de apoio à agricultura numa posição simétrica à do corpo da cozinha. O "U" que hoje exibe a casa solarenga na Rua João Lima Whitton da Terra resulta já de uma ampliação recente.

Clara prerrogativa das casas solarengas é ainda a opção, não generalizada, pela construção de uma escada interior, no que se afastam decididamente das habitações comuns em ambiente rural onde o acesso ao piso superior se faz obrigatoriamente em separado para o corpo principal e para a cozinha através de diferentes escadas exteriores com balcões. As grandes casas, no entanto, mesmo quando possuem escada interior, mantêm o acesso diferenciado à cozinha através de escada exterior e balcão, nas traseiras, acrescentando, por vezes, uma terceira escada, também exterior, que acede a balcões, alpendres, terraços ou miradouros.

É, de resto, o desenvolvimento das potencialidades de relação com a envolvente (viária, cultivada e paisagística, incluindo-se nesta a proximidade do mar) o principal traço distintivo do segundo grupo de casas solarengas em relação às restantes habitações abastadas do Pico.

Na verdade, estas residências, construtivamente simples e formalmente sóbrias, em pouco mais se diferenciam da habitação corrente que na dimensão, embora algumas insinuem uns laivos de cosmopolitismo nas sacadas ou nas persianas das janelas.

Desde o espartano Solar dos Arriagas, que apenas se distingue pela sobranceira simetria da fachada pontuada de cachorros junto às janelas, até ao extenso Solar dos Salemas, marcado axialmente por um apontamento de erudição no conjunto formado pelo portal e pela varanda que o encima.

Podem ainda destacar-se outras características comuns a este grupo de casas: as suas compridas e ordenadas fachadas principais evidenciam-se sempre à aproximação por terra e, quando possível, também à aproximação por mar (solares dos Arriagas e dos Salemas); todas tem um pátio/terreiro pontuado por um poço de maré 4, seja anterior (Solar dos Arriagas), seja posterior ao corpo principal (solares dos Limas e dos Salemas e casa solarenga na Rua João Lima Whitton da Terra); são dotadas de um percurso sobre um muro alto e largo que frequentemente é um dos que delimita o pátio/terreiro (como no Solar dos Limas e na casa solarenga no Rua João Lima Whitton da Terra). Este percurso culmina num mirante e faz parte de um sistema de enfiamentos visuais e pontos de observação, por vezes enriquecido com a existência de um balcão com alpendre de madeira junto a uma das empenas da habitação (alpendre coberto pelo prolongamento de uma das águas do telhado).

Mais importante ainda é o facto de todas elas usufruírem de um território visual utilitariamente organizado para a cultura da vinha. Dada a especificidade do solo e a proximidade do mar, que obrigaram à construção de uma retícula de muros que protegem a vinha e servem para acumular a pedra resultante da limpeza dos terrenos, este território adquiriu particulares qualidades paisagísticas. O aproveitamento da paisagem e dos percursos lúdicos é, nos exemplares mais elaborados (solares dos Limas e dos Salemas), completado por um pequeno jardim 5 que está separado do pátio/terreiro por uma leve vedação de madeira e onde se encontram espécies arbóreas exóticas 6 e, caso mais raro, um lago de maré 7.

É na capacidade de complementar o pequeno espaço recreativo do jardim com a fruição paisagística das culturas organizadas e na ambiguidade dos percursos elevados com mirantes, que tanto tem uma função lúdica como servem de postos de controlo dos campos de cultivo, que estas grandes casas rurais se aproximam das suas congéneres do Continente 8.

É na sua implantação perto das bordas do lajido, mostrando-se à ilha vizinha com o cone do Pico ao fundo, que elas adquirem uma valência única.

* Licenciado em Arquitectura (ESBAL, 1977). Mestre em História de Arte (FCSH-UNL, 1988). Docente no IST, membro do ICIST.
1 Martins Naia - "O Espaço Lúdico nas Construções Solarengas do 'Ciclo do Verdelho' na ilha do Pico", in Atlantida, vol. XXXI, 1° semestre 86, Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura, 1986, pp. 5-25.
2 "(...) o mais ordinario foi tomar cada um o nome da terra, onde tinha senhorio, ou alguma jurisdição (...). A estas terras chamavão Solares, derivando o nome da palavra latina solum, que quer dizer terra, e assento, donde o homem está." (Manuel Severim de Faria, cf. José Custódio Vieira da Silva - Paços Medievais Portugueses, Lisboa, IPPAR, 1995, p. 68).
3"(...), a descoberta das potencialidades que o solo de lava oferecia para o cultivo dos bacelos, veio dar origem a uma actividade económica vitivinícola notável, cujo período áureo terá ido desde os princípios do século XVIII, a meados do século XIX, (...) riqueza e dinâmica desenvolvida neste período pelas familias fidalgas faialenses, (...) neste contexto de grande proprietário, semi-absentista, que só na época de veraneio visita as suas propriedades e, por intermédio de um encarregado, o feitor, as explora; (...)" (Martins Naia, idem, p. 8).
4 "O poço, de secção quadrangular ou aproximadamente circular, é escavado na rocha (...), procurando captar os veios de água que correm em galerias subterrâneas com pendente para o mar (...). Devido à proximidade do mar, a água acumulada ressente-se da influência das marés e apresenta, por vezes, um grau de salinidade apreciável." (AAVV - Arquitectura Popular dos Açores, Lisboa, Ordem dos Arquitectos, 2000, pp. 408-409).
5 "Em Portugal (...) predomina a exploração agrícola e a casa raramente atinge proporções monumentais, ocupando o jardim um simples terraço mais ou menos discreto ao lado daquela." (Ilídio de Araujo, cf. João Vieira Caldas. A Casa Rural dos Arredores de Lisboa no Século XVIII, Porto, FAUP publicações, 1999, p. 93).
6"(...) a sobriedade dos materiais construtivos é compensada pela diversidade do mostruário botânico, como que a atestar o cosmopolitismo dos seus proprietários." (Martins Naia, idem, p. 22).
7 "(...) recinto[s] delimitado[s] por alvenaria de pedra com acesso para um pequeno bote de recreio em plano inclinado, com água salobra em comunicação com o mar devido à permeabilidade do solo (...)" (Martins Naia, idem, p. 201.
8 "Como só muito raramente a função recreativa constitui a determinante exclusiva do ordenamento de grandes espaços particulares, na maior parte dos casos eram os campos de cultura arvense, os prados, as matas, os pomares, tal como os hortos com as suas fontes e tanques de rega, as servidões carrais e acessos às folhas de cultivo, os estábulos e pombais, armações de vinha e outro equipamento, que eram dispostos e concebidos por forma a obter-se, de par com a produção de bens de consumo, um ambiente repousante para o espírito, pela via da composição paisagística daqueles elementos (...) em conjunto de agradável encanto para a vista e para os outros sentidos." (Ilídio de Araújo, cf. João Vieira Caldas, idem, pp. 92-93). É de salientar, no entanto, a particularidade de estas propriedades do Pico assentarem praticamente na monocultura da vinha e de a organização do terreno de cultivo ter um carácter puramente utilitário com consequências paisagísticas inicialmente não projectadas, embora de uma qualidade que desde logo deve ter tocado os terratenentes e suscitado a sua fruição visual e recreativa.

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Última actualização em 2006-03-09