As População do Concelho das Lajes do Pico. Uma Perspectiva Histórica
 

Maria Norberta Amorim*

Ao percorrermos imagens do Património Imóvel do concelho das Lajes do Pico (como aconteceria em relação aos outros dois concelhos da ilha) ressaltam vivências de um passado não muito longínquo que se apresentam hoje quase inconcebíveis quer a visitantes quer a jovens naturais.

A circulação automóvel contínua nas estradas da ilha, as ligações regulares entre Pico e Faial, a abertura a um mundo global por via aérea, o acesso generalizado ao terceiro ciclo do ensino básico e ao ensino secundário e a novos meios de difusão de conhecimento, como a rádio, a televisão, o telefone, com apoio em divisas vindas de fora, alteraram profundamente nas últimas décadas o quotidiano tradicional.

A documentação escrita, a memória oral e o Património Imóvel ainda nos permitem vislumbrar o que teria sido a difícil luta pela sobrevivência das gentes que se foram fixando e reproduzindo nesta bela quanto fragosa ilha.

Supõe-se que a primeira fixação de povoadores se tenha dado por volta de 1460 nas Lajes e Ribeiras e, embora o povoamento rapidamente se tenha expandido para oriente e, pela vinda de novos colonizadores, abraçado a ilha pelo ocidente, a freguesia da Santíssima Trindade tenha permanecido ainda longo tempo como paróquia única. Passados menos de cinquenta anos, já existiria o concelho das Lajes do Pico como sede administrativa de toda a ilha (embora não se conheça foral, identifica-se vereação em 1501).

A dispersão do povoamento e as dificuldades de comunicação foram exigindo a formação de novas freguesias e, mais tarde, sem litígio, a formação de novos concelhos. Já em 1542 o desmembramento a Norte deu lugar ao concelho de S. Roque, vindo a formar-se a Oeste o concelho da Madalena em 1723.

O problema de abastecimento de água terá condicionado a primeira fixação junto de ribeiras na futura freguesia do mesmo nome e na Ribeira do Meio da freguesia da Santíssima Trindade, mas logo o povoamento atingiu zonas sem cursos de água, mesmo temporária. Gaspar Frutuoso nos finais do século XVI fala-nos da carência de água na ilha, maiormente no tempo de verão porque no inverno se apercebem e proveem de água de chuva em ribeiras secas, correntes que no dito tempo estão tapadas com seves de rama de arvoredos grandes, que cortam pera isso, e coutadas, pera que não entrem bestas dentro delas (...) e em outras partes há poços e água de maré de baixa mar (Saudades da Terra, livro Sexto: 299-300). A procura de veios de água doce na baixa-mar deve-se ter processado ao longo de toda a costa numa altura em que rústicas ferramentas não facilitavam o aprofundamento de poços de maré. Admito que a morte no mar de número significativo de mulheres no decurso do século XVII, documentada para a paróquia de S. João, se possa dever a essa busca de água na baixa-mar, com permanência, para lavagem de roupa, em sítios que o mar varria. No século XVIII já os poços de maré, com águas de maior ou menor teor de sal, se generalizariam, constituindo a principal fonte de abastecimento doméstico, complementada com a retenção de água das chuvas colhida dos beirais para grandes talhões de barro. Os tanques de eirado de cimento constituiriam um luxo a que só os mais abastados teriam acesso já num adiantado século XIX. A rede pública de abastecimento de água ao domicílio no último quartel do século XX tornaria obsoletos tanques de eirado e poços de maré, estes a constituir testemunhos vivos do esforço quotidiano de tantas gerações de mulheres que baldearam vezes sem conta ao fundo de poços para encher os potes que transportaram a cabeça pelas íngremes canadas que conduziam as suas habitações.

O esforço de afeiçoamento do terreno áspero, cortando as lenhas e grossas madeiras dos terrenos baixos e das encostas, roçando o mato, rasgando as terras de pão, amontoando as pedras em maroiços, construindo currais de vinha na beira costa, é ainda facilmente perceptível nas marcas deixadas no terreno. Em cada lugar souberam os povoadores extrair da terra o que ela podia dar. Se, na zona do actual concelho, a madeira, a lenha e algum gado se exportavam nos primeiros tempos por todos os pontos de acesso pelo mar, como o Calhau Gordo, Calheta de Nesquim, Santa Cruz das Ribeiras, Lajes ou Baía do Arruda, as condições do terreno ditaram as zonas de cultivo de cereais, de vinha ou de árvores de fruto, empurrando os gados para o mato. Ao nos fazer percorrer a ilha e ao identificar três das actuais seis freguesias do concelho das Lajes, Gaspar Frutuoso já refere algo dessa especificidade que se irá manter ao longo dos séculos seguintes. A freguesia do Ponta, então com 90 vizinhos e 362 almas de confissão (entenda-se indivíduos com mais de sete anos), a estender-se por quatro léguas para a banda do sul e do Norte, a incluir o espaço das actuais freguesias da Ribeirinha (criada em 1980), Piedade (freguesia mãe) e Calheta de Nesquim (criada possivelmente no início da década de 1720), sério terra de trigo, de vinho, de gado, de madeira e também de muito mel de abelhas e cera. A freguesia de Santa Bárbara das Ribeiras contando também 90 vizinhos; no légua seguinte de caminho, teria muita quantidade de vinhas, que dariam cada ano mil e duzentas pipas de bom vinho. A apanha de bom peixe na lagoa das Lajes e documentada por Gaspar Frutuoso, mas na extensão das três léguas de costa que a freguesia da Santíssima Trindade abrangia, então com 145 fogos e 586 almas de confissão, haveria também muitas vinhas em muito crescimento, grandes criações de gado vacum e ovelhum e algumas cabras e terras, não muitas, de lavoura de trigo e outros legumes, e muita madeira, que ali se tira do mato (Saudades da Terra, Livro Sexto: 288-294). Na légua seguinte, a zona que viria a ser a freguesia de S. João, só posteriormente desmembrada da de S. Mateus (os primeiros registos paroquiais conhecidos datam de 1637), estaria centrada em boas terras de pão que as lavas do vulcão de 1718 viriam a destruir.

Se nos finais do século XVI a população do actual concelho das Lajes teria à volta de 1800 residentes (considerando que são indicados 40 fogos para S. João no início do século XVII e que às almas de confissão indicadas ou estimadas há que acrescentar as crianças menores de sete anos, numa percentagem que avaliamos a volta de 18% em relação ao total de residentes), dois séculos mais tarde (1799) a população mais que quadruplicara com 8521 pessoas, em distribuição desigual pelas diferentes freguesias. A freguesia mais populosa era então a Piedade com 2559 residentes, seguida das Lajes com 2372, vindo depois as Ribeiras com 1618, S. João com 1106 e por último a Calheta de Nesquim com 866. Crescimento que se processara apesar das crises vulcânicas de 1718 e 1720 que isolaram a freguesia de S. João entre dois mistérios, derretendo as suas melhores terras de pão e obrigando a população ao arroteamento de terrenos fragosos mais a oriente, e das grandes crises cerealíferas de meados do século que empurraram de toda a ilha muitos casais para o Brasil, nomeadamente para Santa Catarina. Posteriormente, apesar de não se abandonar a mobilidade para o Brasil, nas primeiras quatro décadas do século XIX a população do concelho crescia em ritmo muito acelerado, contando-se 11160 residentes em 1840, o dobro dos nossos dias (em 1991 contaram-se 5505 residentes).

Seria realmente na década de 1840 que a população atingiria o maior volume de toda a sua história. A ruptura entre a gente e os recursos que já se evidenciava (todo o terreno era incansavelmente explorado e a terra de cansada comia as sementes) agravada pela crise das vinhas, iria empurrar, nos três quartos de século seguintes, jovens e mais tarde famílias inteiras para o Brasil e Estados Unidos da América.

O crescimento acelerado de população que só a emigração massiva susteria parece ter a sua principal explicação na mortalidade suave. O Governador Civil da Horta, António José Vieira Santa Rita, escrevia no seu Relatório de 1861 que felizmente para os habitantes do districto da Horta a sua condição hygienica é excelente, pois que não obstante a falta de recursos da medicina em algumas das suas ilhas, as estatísticas da sua mortalidade apresentam uma cifra bastante lisonjeira, comparada com a dos paízes que se reputam como mais sadios. No ano em causa, apesar da miseria que oprimia as classes indigentes e dos maus alimentos a que muitos recorreram, a proporção entre os obitos e o número da população fora de 1 para 55. A ilha do Pico com a proporção mais favorável de todas, de 1 para 67, então com uma população de 27360 almas, ainda não conseguira que um facultativo ali quisesse exercer a sua clinica, apesar dos partidos que as comaras de S. Roque e Lajes para o mesmo estabeleceram e dos inuteis esforços que tem empregado a auctoridade administrativa. A análise demográfica já desenvolvida para períodos anteriores confirma essa situação favorável. Esperança de vida à nascença a abeirar os cinquenta anos nos finais do Antigo Regime contrastam com os valores abaixo de quarenta, generalizados na Europa do tempo.

Para a suavidade da morte contribuiria o clima seco da ilha, mas também certamente a dieta alimentar, o isolamento de contágios e a austeridade de costumes.

Dieta alimentar supostamente pobre. Estatísticas do Governo Civil da Horta bastante circunstanciadas, referentes ao ano de 1884, permitem-nos ainda avaliar da frugalidade alimentar no concelho e das dificuldades para obter o alimento básico, o bolo de milho.

A produção de milho no concelho não ultrapassara nesse ano os 520.000 litros e a quantidade necessária para consumo das pessoas e dos animais domésticos seria de 1.880.000 litros a que se devia juntar 68.000 litros para semente. As freguesias da Calheta e Piedade produziam então cerca de 63 litros anuais dos 188 necessários por habitante, mas nas Lajes e Ribeiras não se chegava aos 45 litros e a produção em S. João quedava-se abaixo dos 37. Era necessário recorrer ao milho de fora, principalmente do Faial, a troco das produções da terra e da indústria das suas gentes. O trigo produzido no concelho medira apenas 142.400 litros, sendo mais de metade (80.000 litros) colhido nas Lajes. Considerado um cereal de luxo, era nas Lajes que mais se consumia - 144 litros anuais por habitante a contrastar com os 45 litros para S. João. Um pouco de mistura para o bolo quotidiano e o pão do Espírito Santo seriam motivos quase únicos para o uso de farinha de trigo entre a generalidade da população. A batata inglesa, difundida desde meados do século XVIII, e a batata doce, só generalizada nas décadas de 1860/70, traziam sazonalmente alguma fartura a muitos lares em que o bolo de milho escasseava, sendo os inhames (com maior incidência na Piedade) o recurso tradicional para a escassez cerealífera.

O consumo de carne era reduzidíssimo se tivermos em conta os padrões actuais. Nas Lajes, onde o consumo era maior, a cada habitante em cada ano correspondia 2,5 kg de carne de vaca ou vitela, 8,5 kg de carne de porco, rondando os 0,5 kg de carne de carneiro ou chibato. Em S. João, a freguesia de consumos mais reduzidos, não chegaria a 1,5 kg.

O consumo médio anual de carne de bovino por habitante (a generalidade da população só acederia ao seu consumo pelo Natal e pelo Espírito Santo) e mesmo o consumo de carne de porco pouco ultrapassava os 5 kg por pessoa/ano (note-se a ausência de consumo de azeite e a dependência da banha de porco nos usos culinários).

Também nas Lajes, embora reduzido a 4,5 litros pessoa/ano, o consumo de vinho era superior ao das freguesias do concelho, estas com menos de 2 litros pessoa/ano. Enquanto em S. João e na Calheta se consumia apenas o vinho produzido na terra, os excedentes da Piedade cobriam praticamente as importações das Ribeiras e das Lajes.

O leite e seus derivados, o peixe e frutos diversos (nomeadamente laranjas, pêssegos e nêsperas) enriqueceriam a alimentação dos naturais e juntamente com o corte de madeira e lenhas serviriam de moeda de troca com o exterior (embora não conste dos estatísticas oficiais, era do mar que vivia a comunidade de Santa Cruz das Ribeiras, como importantes franjas da população da Calheta e da Vila). O número relativo de vacas em relação ao número de bois reflectia os diferenciados recursos entre as freguesias do concelho. Enquanto na Piedade as lavouras impunham a criação de 300 bois para apenas 150 vacas (o boi era o único animal de tracção utilizado em S. João) criavam-se 200 vacas e apenas 50 bois. Todos os terrenos altos haviam sido roçados para a criação de gado e nas Lajes, Ribeiras e S. João produziam-se anualmente 9.500 kg de queijo de vaca e 150 kg de manteiga (neste caso só nos Ribeiras e Lajes). Das altos pastagens de S. João, a três horas de penosa subida diária (sem auxilio de bestas para o transporte do leite) produziu-se um afamado queijo típico, bem difundido no Faial e na Terceira. Mulheres e filhas de pastores percorreram dezenas de quilómetros com pesadas selhas à cabeça para colocar à volta do ilha ou no porto da Madalena o queijo do seu fabrico. A criação de cabras para alimento de crianças e velhos era um recurso dos marítimos de Santa Cruz das Ribeiras, mas também de outras zonas (270 cabras na vila, 250 nos Ribeiras, para números entre 50 e 90 nos restantes freguesias).

Os valores elevados de gado ovelhum nas diferentes freguesias, principalmente nas Lajes, reflecte ainda uma tradição, que se ia perdendo, de fiação e tecelagem doméstica. Em 1884 ainda se produziam 6.800 metros de panos de lã no concelho (apenas nas Ribeiras se produzia ainda 100 metros de linho) tecendo-se colchas nas Lajes e Ribeiras (45 no total em cada ano). A indústria de vimes tinha grande expansão nas Lajes e Piedade, as tranças para chapéus e esteiras eram especialidades da Calheta e das Ribeiras, mas os bordados então apenas se faziam na Vila.

Para 1836 ou 1838, período em que a população ainda crescia e a reprodução social não se via alterada pelo retorno de emigrantes de sucesso, dispomos de estatísticas que nos permitem observar de perto a repartição das actividades em cada freguesia e ajuizar sobre o estatuto socio-económico dos seus residentes. As listas de 1838 de que dispomos para as freguesias do Piedade, Calheta e Ribeiras dão-nos a distribuição por fogos e, em hierarquia familiar, a idade exacta de cada residente, estado e profissão, quer de mulheres quer de homens. Não dispondo dessas listas para S. João e Lajes usamos outras de 1836 em que a distribuição da população por fogos não é claramente explicitada, enquadrando-se cada indivíduo num grupo de idades, na situação de proprietário, não proprietário ou mendigo, especificando-se os que vivem exclusivamente do rendimento das suas propriedades e os que juntam a esse rendimento algum fruto do seu trabalho. Nessas listas de 1836 os dados estatísticos são acompanhados de relatório.

Para S. João o Vigário António Silveira Bulcão nesse relatório refere: grande abundância de pastos onde se criam muitos gados vacum e ovelhum e por isso ha grande número de pastores. Na criação de gados he que consiste o maior estabelecimento dos habitantes, não só pelo muito gado que vendem, mas pelos bons e muitos queijos que fabricão, e exportão, com que suprem huma parte do sustento, que a Freguesia não produz. Exportão igualmente muita Lenha para as Ilhas do Fayal e Terceira, e quaze todo o producto he consumido em linho, anil e tabaco de fumo, de que fazem grande uso. Uzão muito do anil para tingir pannos de lãa da terra, de que tanto os homens como as mulheres se vestem diariamente. Ordinariamente falando são estes povos amantes do luxo, pouco industriosos, e pouco inclinados a Officios mecanicos (...). Nota depois que he raro o que não possue propriedade sua, nem tão bem se encontram mendigos próprios da Freguezia.

Optando apenas pela observação do posicionamento dos chefes de família do sexo masculino, sem considerar os dependentes, vemos que, de facto, só 3% dos mesmos não tinham propriedade alguma, vivendo unicamente do seu trabalho mecânico ou indústria, 14% viviam dos rendimentos das suas propriedades, reunindo, os restantes 83%, ao seu trabalho alguma outra renda ou ordenado. Lavradores, pastores e trabalhadores constituíam as ocupações dominantes, 6%, 17% e 49% respectivamente. Encontramos depois 23% de chefes de família dedicados a outras actividades (marítimos, sapateiros, carpinteiros, serradores, pedreiros, ferreiros, cesteiros, um curtidor, um alfaiate e ainda três escrivães), além de 5% de indivíduos incapacitados ou enfermos.

Se repararmos depois na estatística de 1838 referente à freguesia da Ponta, verificamos que a composição socio-económica não era muito distinta. Dos chefes de família do sexo masculino 7% eram lavradores (com o significado, tal como em S. João, de proprietários mais abastados), 22% dedicavam-se a ofícios mecânicos ou serviços, 64% eram trabalhadores (o que pode significar que davam dias para fora por não terem propriedade ou para completar o rendimento da pequena propriedade que possuíam). A diferença mais significativa entre as duas freguesias encontrava-se na inexistência de pastores na Piedade e na percentagem, já com algum significado, de marítimos (7%) entre os chefes de família. Entre os oficiais mecânicos, os pedreiros tinham na Piedade maior expressão envolvendo 7% dos chefes de família, seguidos dos sapateiros, com 4%, sendo menos expressiva a percentagem de carpinteiros, ferreiros ou caiadores. Havia ainda um tanoeiro, um latoeiro, três alfaiates, um ourives, um professor de primeiras letras e dois escrivães.

Na freguesia da Calheta de Nesquim os homens do mar adquiriam um peso bem mais significativo: 27% dos chefes de família eram marítimos, para 6% de lavradores e 49% de trabalhadores. O ofício mecânico que ganhava maior expressão era o de carpinteiro (que supomos essencialmente ligado à construção de embarcações), representando 3% da actividade dos chefes de família. A existência de três taberneiros e de seis cabos de polícia reflecte ainda essa relação com o mar. Além dos ofícios comuns registava-se a existência de dois foliões e de um sangrador.

Na freguesia das Ribeiras 21% dos chefes de família eram marítimos (centralizados dominantemente em Santa Cruz), 49% trabalhadores e 19% lavradores, esta a percentagem mais expressiva das freguesias analisadas. Os ofícios mecânicos mais significativos eram os de ferreiro e carpinteiro, identificando-se também um calafate e um mercador, dois alfaiates e dois escrivães, sem esquecer profissões comuns como a de pedreiro, sapateiro e serrador.

Nas Lajes as distinções sociais eram mais nítidas, mas o quadro sócio-económico dos cinco lugares rurais da freguesia não se distinguiria muito do da freguesia de S. João no ano analisado de 1836. Para o conjunto dos chefes de família encontramos nas Lajes 5% de lavradores, 10% de pastores e 49% de trabalhadores. Os 10% de marítimos e os 3% de carpinteiros referiam-se dominantemente à Vila, assim chamado o espaço urbano onde se concentravam serviços e a administração do concelho. Na Vila residiam seis famílias cujas mulheres eram tituladas de donas, com alguns (poucos) criados e criadas. Encontramos também treze clérigos, dois advogados, um professor de latim, um professor de primeiras letras que era clérigo, além do sargento-mor. Estranhamente apenas um negociante é referido. Chefes de família sem propriedade a viver exclusivamente do seu trabalho eram 12%, mas apenas é referido um mendigo.

Para as freguesias das Ribeiras, Calheta e Piedade, tendo, nas listas de 1838, acesso à informação sobre a actividade das mulheres, verificamos que a maioria delas aprendiam desde meninas a fiar e exerciam essa actividade durante toda a vida.

Na Piedade, dos indivíduos do sexo feminino com mais de 12 anos, 90% eram fiadeiras, 3% tecedeiras, 2% dedicavam-se à actividade de rendeiras (em número de 17) e costureiras (em número de 9).

Na Calheta, para o mesmo grupo etário, encontramos 81% de fiadeiras e 9% de tecedeiras, referindo-se ainda duas esteireiras, uma costureira e uma mestra de curas.

Das três freguesias aquela onde as actividades femininas apareciam mais especializadas e mais diversificadas era a das Ribeiras. No grupo etário das maiores de 12 anos encontramos 46% de fiadeiras, 34% de costureiras, 10% de tecedeiras, 4% de meeiras e ainda 8 cardadeiras, 6 esteireiras, 3 bordadeiras, 2 vendeiras, uma alfaiata, uma mestra e uma fâmula, perfazendo no seu conjunto 3% desse grupo etário. Inseriam-se nos ambientes familiares dos lavradores mais 15 criadas, as quais foram indicadas profissões de fiadeira, tecedeira ou costureira, como as mulheres e filhas dos mesmos.

Nesse segundo quartel do século XIX a estrutura da população do concelho apresentava-se ainda relativamente equilibrada, embora na Piedade os indícios de uma emigração diferencial se apresentassem já com clareza (contavam-se 83 homens para 100 mulheres, com apenas 57 rapazes entre os 15 e os 20 anos para 100 raparigas do mesmo grupo etário). Seria já o início da emigração massiva de jovens do sexo masculino.

O acompanhamento do movimento da população de S. João ao longo da segunda metade do século XIX e inícios do século seguinte mostra-nos distorções impressionantes nas pirâmides de idades, salientes ainda em 1920. Se no segundo quartel do século XIX a percentagem de jovens com idade inferior a 15 anos oscilava entre os 34 e os 35% e a de velhos (65 ou mais anos) entre os 7 e os 8%, os valores em 1920 seriam de 24% de jovens para 20% de velhos. A taxa bruta de natalidade, que no fim do século XVIII se colocava nas 36,9 crianças nascidas em mil habitantes, em 1920 (por distorção da pirâmide etária, mas também já por controlo do natalidade) era de 15,8 em mil. A taxa bruta de mortalidade correspondente, apesar da grande evolução sanitária entretanto verificada, apresentava-se superior em 1920 a de 1799 (19,3 mortes por mil habitantes em 1920, contra os 15,4 de 1799). O celibato definitivo feminino atingia em 1920 a impressionante percentagem de 46,6%, embora no final do século XVIII as solteiras com 50 e mais anos representassem já 18,3% das mulheres desse grupo etário. Passada uma geração, em 1950, decorrente do estancamento da emigração para os Estados Unidos da América, a população de S. João crescia como não acontecia há quase cem anos, com a taxa de natalidade a subir para 28,3 em mil, a taxa de mortalidade a colocar-se nos 15,4 em mil e o celibato definitivo feminino a descer para 22,3%.

Crescimento que logo se comprometeria no final dessa década e inícios da de sessenta com novo surto emigratório para os Estados Unidos e Canadá, a que se aliaria a saída sem regresso de jovens estudantes que demandavam as escolas de ensino secundário da Horta e Angra do Heroísmo ou as Universidades do Continente. Espanta-nos hoje a coragem de tantos que saíram tão jovens da sua terra para enfrentar, com o único recurso dos seus braços, estranhos e longínquos mundos. Custa-nos hoje a perceber como crianças, menores de 12 anos, foram sozinhas, sem pais ou irmãos, para o outro lado do Atlântico, embora muito haja ainda a estudar sobre solidariedades e redes de acolhimento.

Essa continuada ligação com o mundo exterior e o retorno definitivo ou temporário de alguns não foi de molde a distorcer os padrões culturais tradicionais. A apetência para a literacia das gentes do Pico é documentada através da frequência de assinaturas nos assentos paroquiais ao longo do século XVIII e XIX, apesar da introdução tardia de escolas públicas. Já em 1911 encontramos em S. João 46% de população masculina a saber ler e escrever e 40% da população feminina (apesar da grande percentagem de idosos). Em 1950 esses valores seriam de 89 e 83%, respectivamente, panorama muito diferente do que se poderia encontrar contemporaneamente em zonas rurais do Continente. A intervenção dos emigrantes de sucesso favoreceria ao longo do século XIX e inícios do XX a reestruturação das igrejas, a construção de ermidas e beneficiaria a arquitectura civil, ao mesmo tempo que favoreceria a criação de instituições culturais das quais as filarmónicas centenárias são exemplo expressivo.

Talvez porque, ao longo dos seus cinco séculos de história, se irmanaram na luta pela sobrevivência, na dependência de uma natureza caprichosa, as gentes do Pico mantiveram uma consciência muito viva da sua dignidade, claramente expressa nas suas Festas do Espírito Santo, festas únicas em que rico e pobre, criança e velho, homem e mulher, natural e estrangeiro, recebe pão, não de esmola, mas de pertença.

BIBLIOGRAFIA SUMÁRIA
AMORIM, Maria Norberta e CORREIA, Alberto, Francisca Catarina (1846-1949). Vida e Raizes em S. João do Pico (BiograFia, Genealogia e Estudo de Comunidade), Universidade do Minho, Instituto de Ciências Sociais, NEPS, nº5, 1999.
AMORIM, Maria Norberta, Evolução DemográFica de Três Paróquias do Sul do Pico, Universidade do Minho, Instituto de Ciências Sociais, 1992.
COSTA, Susana Goulart, Pico. séculos XV-XVIII, Ponta Delgada, Associação dos Municípios da Ilha do Pico, 1997.
FRUTUOSO, Gaspar, Livro Sexto das Saudades da Terra, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1978.
Relatório do Governador Civil, Horta, 1961.

* Doutorada em História Moderna e Contemporânea. Especialista em Demografia Histórica. Professora catedrática do Universidade do Minho e directora do Núcleo de Estudos de População e Sociedade desta Universidade.

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Última actualização em 2006-03-09