Lajes do Pico. Breve Visão do Património Construído
 

José Manuel Fernandes*

As duas linhas de força mais expressivas deste concelho, no que toca ao seu Património edificado, serão possivelmente a dimensão rural e agrícola, e a relação da sua comunidade com o mar e a pesca, nomeadamente através da actividade baleeira.

Por esta razão surgem ainda hoje inúmeras peças construídas e elementos materiais que evocam a vida nos campos (embora sejam também estes os elementos onde mais se sente a extinção próxima da actividade tradicional) e as surtidas ao mar, na caça épica (e histórica) aos grandes cetáceos.

É assim natural que a larga maioria dos imóveis inventariados no Concelho das Lajes do Pico diga respeito às áreas rurais e piscatórias, podendo inserir-se em quatro grandes grupos temáticos: as pequenas construções agrícolas e piscatórias; as vastas unidades paisagísticas contendo edificação e elementos naturais; as adegas, construções essenciais na produção vinícola; e as casas rurais, constituídas quase sempre pelo conjunto da habitação com a cozinha e a atafona.

As pequenas construções rurais - que elegem preferencialmente a pedra vulcânica como estrutura - são os bebedouros com abrigos (para o gado), são as eiras (por vezes em articulação com atafonas ou palheiros isolados) para os cereais, são os moinhos de ribeira e de vento (estes últimos já só vestígios arruinados, ou modernizados e adulterados), e ainda o original "apiário fixista", obra isolada, mas significativa, dedicada ao mel.

Na ligação à costa e ao mar, encontramos os poços de maré, mas sobretudo os singelos núcleos litorâmeos, os caisinhos com abrigos para as embarcações, com as "casas dos botes" baleeiros; e ainda, mais afastadas e altaneiras, as panorâmicas vigias de baleias.

É interessante constatar uma certa "simetria" desta longa costa sul da ilha, em relação a uma idêntica expressão paisagística e até funcional, da costa nortenha picoense de São Roque. E um mundo semelhante de adegas e casinhas rurais, de recessos costeiros com os cais evocativos da época baleeira e dos campos de uma ruralidade imanente. No entanto, deve reconhecer-se que o Concelho das Lajes, se não possui a dimensão forte e cénica dos largos campos de vinha e adegas da costa norte, inclui por outro lado um assinalável núcleo urbano de qualidade e expressão vernácula como não há naqueloutra área da ilha: a vila das Lajes do Pico.

Esta povoação, de grande consistência e homogeneidade urbana, valoriza-se pela componente edificada de casas de dois pisos em pedra negra e cal, sobretudo dos séculos XVII e XVIII (com as suas coberturas incluindo muitas vezes as torrinhas de madeira, mais recentes, de gosto romântico e desenho "achalezado"), formando um assinalável conjunto, sobretudo na Rua do Capitão-Mor Gonçalves Madruga, que remata na monumental igreja oitocentista da Santíssima Trindade; e tal conjunto urbano, com alguns imóveis classificados regionalmente, e ainda completado e enriquecido pelo antigo núcleo conventual franciscano (hoje a sede camarária) e pelo conjunto de casas de botes e armazéns, fronteiro aos rampeados, da faina piscícola (hoje o Museu dos Baleeiros).

Mas voltemos atrás, e refiramos as portentosas unidades paisagísticas que igualmente encontramos nesta área da ilha: trata-se de conjuntos de paisagem e construção que incluem sistemas de muros em pedra solta (e os correspondentes resíduos acumulados e amontoados, os "maroiços"), envolvendo ou estruturando os "currais de vinha" e/ou campos de pasto, com os necessários palheiros e abrigos. São exemplos o Calhau (Canada do Morgado) e o Foro (Ladeira do Foro e Ladeira do Mar). Algumas destas unidades contém apenas a malha apertada dos "currais de vinha", com as correspondentes adegas e outros muros de vinhedo: é o caso das Canadas (Calheta de Nesquim), ou do Caminho de Baixo (nas Ribeiras); ainda outras unidades de paisagem incluem várias habitações com seu suporte produtivo de atafonas e eiras (como na Canada do Morro, na Calheta de Nesquim). Um caso singular é constituído pela unidade paisagística da Queimada, pontuada pela vigia de baleias, e com uma relação de vistas, em terreno com pendente quase "vertiginosa", sobre o largo oceano.

Outro tipo de conjuntos, mais simples e de pequena dimensão, e constituído por simples correntezas de construções de apoio à faina do mar e da pesca (como sucede no Porto da Baixa) ou de adegas, de que é exemplo - muito esclarecedor de uma evolução dos seus tipos edificados - o conjunto do Caminho de Cima, na Manhenha.

Das adegas e casas rurais, não caberá aqui um desenvolvimento em pormenor: apenas deve assinalar-se que são em grande número as espécies inventariadas, num e noutro caso - atestando a sua importância no concelho em termos de quantidade e que apresentam uma grande repetitividade de tipos, com as formas quase sempre em planta rectangular de pequena dimensão das adegas e a composição em "L" da casa rural, com a sua cozinha quase sempre em posição perpendicular ao volume dos quartos e a vizinhança, também habitualmente a pequena distância, da atafona, da cisterna ou da eira.

Menos importância neste concelho tem outro tipo de equipamentos e funções: é o caso das obras de carácter religioso, militar e civil. Mesmo assim, podem referir-se com algum relevo: as ermidas de Nossa Senhora da Conceição da Rocha (no Calhau, Piedade) e de Nossa Senhora do Socorro (Ribeiras); as igrejas da Piedade, de São Bartolomeu (Silveira) e de São João; os singelos "impérios", obras elementares de quase obrigatório portal gótico-ogival, tão ao gosto oitocentista (São João, Ribeiras, Silveira); os vestígios arruinados do forte de Santa Catarina (Lajes); e, no âmbito civil, obras díspares mas interessantes como a da Junta de Freguesia da Piedade ou o Farol da Ponta da Manhenha.

Uma última palavra deve mencionar a presença, embora humilde, de alguma arquitectura de cariz artesanal e mesmo industrial: casas da tenda de Ferreiro (Ribeiras) ou da carpintaria (Ribeirinha), e ainda da fábrica de manteiga do Paul, obra excepcional na localização em plena "montanha".

* Arquitecto. Licenciado pelo Escola de Belas Artes de Lisboa (1977). Doutorado pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa (1993), onde é professor agregado desde 1999. Dirigiu o Departamento de Arquitectura da Universidade Autónoma de Lisboa (1998-2000). Publica regularmente artigos, textos e livros sobre arquitectura e urbanismo.

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Última actualização em 2006-03-09