A Casa Rural nas Lajes do Pico. Processos de Mudança
 

Rui de Sousa Martins*

No contexto organizacional das unidades familiares implantadas no espaço agrário do concelho das Lajes do Pico, a casa de habitação, local de co-residência e comensalidade, articula-se com outras categorias de elementos: dimensão e composição etária e sexual da unidade; equipamento doméstico; alfaias agrícolas; construções funcionais especializadas (tanque, atafona, curral do porco, casinha do carro, eira, adega); terras de cultivo e pastos; actividades produtivas agrárias e caseiras (processos técnicos); relações sociais; complexo de ideias, valores, crenças e representações que organizam e legitimam o relacionamento entre os residentes, a partilha do espaço, as relações com as coisas e as práticas de trabalho.

No seu conjunto, a casa traduz o estatuto socioeconómico da unidade familiar e o lugar que ocupa na organização social da freguesia.

O conhecimento das construções rurais permitiu distinguir uma variedade de tipos morfológicos, sobretudo a nível das habitações, que traduzem diferentes processos evolutivos criados pelas opções técnicas adoptadas nos vários espaços, ao longo do tempo. As transformações operadas ao nível dos elementos da casa lajense (paredes, cobertura, divisórias) devem ser entendidas no contexto das unidades familiares, onde as inovações se relacionam de forma complexa e, por vezes, pouco visível, com os restantes elementos do sistema.

Na construção das casas utilizaram-se recursos naturais abundantes (pedra e madeira), elementos produzidos localmente (palha de trigo, cal) ou importados das ilhas vizinhas (telha), elaborando-se soluções adaptadas eficazmente às condições orográficas e climáticas da ilha.

As paredes de habitações e atafonas, construídas em alvenaria de pedra seca, eram dobradas e com cerca de sessenta centímetros de espessura. Porém, quando a construção se enterrava parcialmente no terreno em declive, a parede encostada a barreira podia ter apenas metade (parede de encosto) com burgalhau na parte posterior para encher.

As pedras eram arestadas com o malho, ficando com a face exterior direita, enquanto as pedras de cantaria (ombreiras, corredores, vergas) eram picadas, primeiro com o picão (martelo de bicos) e depois com a picareta (martelo com duas arestas).

O aparelho mais simples era feito apenas à silharia nas duas metades, preenchido no meio com pedras miúdas. Quando a arte dos cabouqueiros venceu a dificuldade de cortar as pedras à medida, as paredes passaram a ser generalizadamente amarradas com liadouros cujo comprimento corresponde à espessura das paredes. Este aperfeiçoamento do aparelho generalizou-se e permitiu construir edifícios mais altos e mais resistentes à actividade sísmica.

As habitações começaram por ser rebocadas apenas no interior com argamassa de barro e cal que foi sendo substituída por outra, mais consistente, feita de cal e areia.

Apesar das carências cerealíferas, os edifícios, de duas, três ou quatro águas, começaram por ser cobertos com palha de trigo fixa numa armação de madeira que evoluiu de acordo com três modelos.

No mais simples, a estrutura era formada por varais (asnas) espaçados e assentes nos fechais (de frechal). Sobre as pernas da asna pregavam-se ripas de tamujo às quais se amarrava a palha por meio de vimes. Um modelo mais complexo e designado por armação de alivel. Nos fechais, agora ligados por tirantes de amarração, formando a grade, assentam as pernas dos caibros ou tesouras travados pelos aliveis. Sobre os caibros, pregavam-se as ripas que, por sua vez, suportavam a palha. Este tipo de estrutura, fortemente travada por tirantes e aliveis, não só amarrava as paredes da casa como permitia aumentar em altura o volume interior da cobertura, muito embora o comprimento dos tirantes condicionasse a largura do edifício. De salientar que a inclinação e altura das coberturas de palha fragilizavam muito as empenas de pedra seca, o que favorecia a existência de empenas de palha e de coberturas de quatro águas.

Modelo de estrutura mais recente a designado por armação de burra e resulta da evolução do anterior. Mantém a grade, mas caibros perdem os aliveis e unem-se no trave da cumeeira (burra). O desaparecimento dos aliveis relaciona-se com a diminuição do declive das águas exigida pela adopção do telha de meia-cana que não era encaliçada mas segura com fiadas de pedra.

A substituição da palha pela telha obrigou a subir as paredes e a alargar o ângulo das empenas.

Na opinião dos habitantes, a cobertura de palha justificava o facto da cozinha ser inicialmente separada do edifício dos quartos (casa), criando-se um espaço de comunicação aberto. Para facilitar a circulação entre os dois corpos, a porta do quintal, normalmente na empena, dava para a porta da cozinha e era distinta da porta de fora que era a entrada do casa.

O uso da telha favoreceu a ligação dos dois corpos e permitiu o aparecimento de telhados com ângulos reentrantes, solução que a palha dificultava ou impossibilitava.

A cozinha separada, encostada ou integrada era constituída por um só compartimento rectangular, espaço onde se preparavam e se consumiam os alimentos, onde se lavava a louça e se fazia a higiene do corpo. Para que os porcos pudessem ser dependurados, por alturas do matança, havia casas em que a porta da cozinha era mais larga e abria ao meio (quatro folhas), visto as dobradiças da época não aguentarem muito peso.

A fim de evitar o perigo dos incêndios e facilitar a saída do fumo, a cozinha era frequentemente mais alta que o corpo dos quartos e o chão era total ou parcialmente terreiro.

O espaço de repouso/trabalho, reduzido a uma só divisão multifuncional, no tipo de habitação elementar, ampliou-se, dividiu-se e especializou-se em dois ou três compartimentos (salas).

Na casa com duas divisões, a menor e a mais reservada (sala de dentro) servia de dormitório, tinha uma janela muito pequena, por vezes de soleta e uma porta lateral que comunicava directamente com o exterior ou com a cozinha integrada.

Na sala mais ampla (sala de fora), com janela maior, ficava a porta da casa (porta de fora). Este compartimento multifuncional podia servir de dormitório mas, se era necessário realizar trabalhos, folgas ou festejar o Divino Espírito Santo, retiravam-se as camas.

Os modelos de habitação mais desenvolvidos podiam ter uma terceira divisão com janela (quarto ou sala do meio), aumentando-se o espaço de dormir quando havia condições económicas para o fazer. Por vezes, a terceira divisão (quarto) era construída nas traseiras da casa.

Os compartimentos eram separados por encanastrados (cana da terra) ou por frontais de madeira, situando-se as portas de comunicação normalmente junto da fachada.

A inclinação do terreno favoreceu a divisão vertical das habitações e a estratificação funcional dos pisos. A loja térrea serviu para criar rezes, guardar alfaias, instalar as atafonas de gado e as de braço, ou como espaço de arrumação.

A melhoria das condições económicas permitiu que as unidades familiares optassem por construir atafonas separadas da casa. Estes edifícios funcionais especializados tinham normalmente dois pisos: o inferior, dividido entre a máquina da atafona (monte de moer) e o espaço dos animais de trabalho e o superior destinado a guardar alfaias, pastos (folha, espiga e casca de milho) e produtos agrícolas.

As mudanças efectuadas na casa rural das Lajes do Pico foram no sentido de melhorar e reforçar as estruturas, de integrar os quartos e a cozinha, de diferenciar o espaço interno e de multiplicar e articular as construções funcionais. Às preocupações de segurança e eficácia produtiva, juntaram-se exigências de privacidade, intimidade, comodidade e higiene, à medida que os novos tempos chegavam à ilha.

BIBLIOGRAFIA
Arquitectura Popular dos Açores. 2000. Lisboa, Ordem dos Arquitectos.
Costa, Carreiro da. 1991. Etnologia dos Açores, vol.2. Lagoa, Câmara Municipal.
Fernandes, José Manuel. 1996. Cidades e Casas do Macaronésia. Porto, Faculdade de Arquitectura do Universidade do Porto.

FONTES ORAIS
Pesquisas de terreno realizadas em 1989, 1990 e 1991 no concelho dos Lajes do Pico.

* Professor de Antropologia Cultural da Universidade dos Açores.

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Última actualização em 2006-03-09