Três Aspectos da Arquitectura Vernácula das Lajes do Pico
 

João Vieira Caldas*

Apresentam contornos quase míticos algumas das verdades correntes sobre a arquitectura vernácula do Pico, ou sobre o uso de algumas tipologias arquitectónicas, que, generalizando-se a vastas áreas da ilha, adquirem tonalidades específicas no Concelho das Lajes. Encontram-se, entre elas: a constatação de que o Pico conservou até mais tarde um maior número de casas com a cozinha separada (se é que o não teve sempre, mesmo em relação a outras ilhas onde este tipo de casa comprovadamente existiu); a ideia de que a construção tradicional, utilizando a pedra vulcânica da ilha, encheria de negrume as povoações e os campos de cultivo (com as suas divisórias de pedra solta por vezes salpicadas de palheiros ou adegas); a importância que picarotos e não picarotos conferem à construção "adega" enquanto local de lazer momentâneo, ou mesmo de férias, por vezes maior que enquanto local de fabrico do vinho.

1. Quanto à habitação rural, o estudo Arquitectura Popular dos Açores (AAVV, Lisboa, Ordem dos Arquitectos, 2000) veio confirmar a constatação acima referida, elegendo até o lugar da Silveira, perto da Vila das Lajes, como uma das áreas onde se encontrou maior número de exemplares (logo a seguir à Freguesia da Prainha, no Concelho de S. Roque). O mesmo trabalho veio demonstrar que, estando a casa com cozinha separada em extinção e havendo já raros exemplares habitados, o tipo de casa tradicional mais corrente na ilha era, efectivamente, o da cozinha encostada, na perpendicular, ao corpo dos quartos. A cozinha deste tipo de casa é ainda um corpo destacado do resto do habitação mas encosta-se-lhe perpendicularmente, formando um "L" (com comunicação interna).

Em todo o arquipélago açoriano, incluindo a ilha do Pico, as casas rurais caracterizam-se pelo contorno geométrico (rectangular ou quadrangular) dos corpos que as constituem e pela ligação destes corpos segundo posições perpendiculares ou paralelas. Ora é justamente no Concelho das Lajes que se encontram algumas das mais significativas excepções a estas regras. Aparecem casas com formas irregulares, corpos da mesma habitação que se articulam segundo ângulos variáveis, ou ambas as coisas (fichas 6, 9 e 26). A adaptação da construção ao terreno, que, para manutenção do rigor geométrico da planta, se faz sempre no sentido do altura, nivelando-se o piso habitacional e preenchendo-se o espaço entre este e o terreno com uma loja ou meia-loja inferior, é feita aqui no sentido da superfície dando origem a formas pouco habituais.

A mesma "indecisão" que dá origem a estes desvios à regra geométrica parece reflectir-se no campo da tipologia. O contacto entre diferentes modelos de habitação, com o desenvolvimento sucessivo das comunicações, deu origem a tipos híbridos que predominam na área do Concelho das Lajes. Um dos mais significativos resulta do adaptação da casa linear (que tem todos os compartimentos organizados em linha formando uma planta rectangular alongada) ao hábito de se construir a cozinha encostada ao corpo dos quartos. Neste tipo, com a mesma organização em planta da casa linear, a cozinha acaba por se destacar em alçado (e volumetria) por ser ligeiramente mais alta que o resto da habitação e possuir telhado autónomo com as águas perpendiculares às do telhado geral (ficha 44).

2. A pedra vulcânica negra não rebocada é, de facto, comum no Pico, tendo sido, até há relativamente pouco tempo, quase o único processo construtivo utilizado nos edifícios de apoio às actividades agrícolas e na construção dos muros divisórios dos campos de cultivo. No que respeita à habitação, a construção não rebocada tem uma distribuição territorial mais irregular na ilha que, no Concelho das Lajes, é contrariada por uma disseminação constante que alterna com as casas caiadas. Há, porém, um tipo de construção de apoio à agricultura que, utilizando sistematicamente a pedra à vista, tem passado, naturalmente, mais despercebido, dada a sua falta de proeminência e o abandono funcional - a eira (fichas 4, 20, 46, 52).

O Concelho das Lajes do Pico conserva o maior número de eiras da ilha (se não entre todos os concelhos do arquipélago) com o acréscimo de fazer delas construções peculiares. A eira do Pico não é um simples terreiro lajeado, argamassado ou de terra batida, mas uma verdadeira construção em pedra elevada sobre o terreno, seja para nivelar a sua superfície circular delimitada por um murete (combro), seja para melhorar a sua exposição aos ventos. Algumas destas eiras estão montadas sobre verdadeiros maroiços ou, como a do Caminho de Baixo/Fetais (ficha 45), formam um complexo que liga um maroiço a uma eira e a um muro de suporte que é igualmente caminho de acesso, fazendo de um utilitário acumular de pedras uma construção imponente e monumental.

3. As adegas do Pico são, porventura, as suas edificações mais famosas dentro e fora da ilha. Não porque a sua arquitectura seja mais elaborada que qualquer outra, antes pelo contrário, mas por motivos históricos e práticos. É sempre bem lembrado o tempo em que a qualidade e quantidade de produção do verdelho permitia uma exportação que chegava aos czares russos, mas ainda melhor é o usufruto dessa pequena construção, com o seu lagar, que serve igualmente de casa de fim de tarde, de fim de semana, ou de fim de férias. De maiores ou mais pequenas dimensões, correspondendo a uma grande produção ou limitadas ao produto de meia-dúzia de pés de vinha, as adegas são sempre simples construções rectangulares de pedra à vista e telhado de duas águas que se confundem com os muros das maiores propriedades ou com os muretes dos currais de vinha, excepto quando a vertente estival tomou conta delas transformando-as em verdadeiras casinhas de veraneio.

Não é necessariamente assim no Concelho das Lajes. Aqui, sobretudo nas freguesias da Ribeirinha e de Piedade, as adegas assumiram desde cedo a sua vertente habitacional construindo-se quase sempre com dois pisos: no inferior funciona a adega propriamente dita e no superior instalavam-se já os pequenos proprietários quando, mesmo antes de se espalhar a moda de utilização das adegas para recreio e lazer, se deslocavam da sua residência habitual para a zona da vinha na época das vindimas. Essas adegas foram adquirindo as formas e os hábitos construtivos das habitações picoenses reproduzindo-as em pequena escala. Assim tanto surgem adegas construídas em pedra à vista como rebocadas e caiadas e tanto reproduzem modelos de habitação com a cozinha encostada como miniaturas de casas da segunda metade do século XX.

O tipo mais comum acaba, no entanto, por ser o que, provavelmente, provoca maior estranheza ao visitante. É o que reproduz a casa do tipo linear com a cozinha sobrelevada e telhado de águas perpendiculares ao da restante construção. A sua hibridez e ambiguidade, que pode admirar os mais incautos, é motivo de atracção para os construtores de simples adegas que assim lhes acrescentam uma dose de pitoresco sem se afastarem das formas conhecidas no concelho (fichas 15, 16, 25, 41, 42).

* Licenciado em Arquitectura (ESBAL, 1977). Mestre em História de Arte (FCSH-UNL, 1988). Assistente no IST, membro do ICIST.

O Inventário do Património Imóvel do Concelho das Lajes do Pico
As Populações do Concelho das Lajes
Lajes do Pico - Breve Visão do Património Construído
Casa Rural nas Lajes do Pico - Processos de Mudança
Três Aspectos da Arquitectura Vernácula das Lajes do Pico
Pico. Lajes
Inventário do Património Imóvel dos Açores
Última actualização em 2006-03-09