Graciosa, A Ilha Esquecida
 

Susana Goulart Costa *

A Graciosa é a prova de que, antes da “invenção” do conceito de ultraperiferia, actualmente utilizado na orgânica da Europa Comunitária, a ultraperiferia foi uma realidade para muitos espaços europeus. A Graciosa sempre foi uma ilha ultraperiférica... A Graciosa sempre foi uma ilha esquecida… De central, só a sua inclusão geográfica na rede das cinco ilhas do grupo central dos Açores. Ao longo do tempo, a Graciosa nunca teve a amplitude de São Miguel; a prerrogativa da precocidade da descoberta, como Santa Maria; a vida urbana da Terceira; o porto apetecível como o Faial; a majestosidade da montanha do Pico; a singularidade das fajãs de São Jorge; a implantação de uma base aérea internacional, como as Flores; ou a peculiaridade minimalista do Corvo.

O percurso histórico parece confirmar esta minha leitura. Em 1901, no contexto da visita régia aos Açores, o previsto desembarque dos reis na Graciosa não se efectua, por indisposição súbita da rainha D. Amélia, provocando grande desilusão nos graciosenses. Em 1924, a ilha continua a ser desconhecida para Raúl Brandão, que a retrata apenas da sua visão de embarcado, sem a Graciosa lhe ter merecido um passeio personalizado. Mais recentemente, com excepção de alguns breves estudos, a história da Graciosa não tem suscitado o interesse de investigadores e curiosos. Não se conhecem teses de Mestrado ou de Doutoramento sobre a Graciosa. Não há publicações sobre as genealogias da ilha. Raras são as obras sobre a evolução concelhia ou sobre temáticas específicas da vida graciosense. Os encontros científicos de âmbito regional seguem a mesma linha. Nos quatro volumes de actas dos Colóquios dedicados precisamente a estudar a periferia açoriana (“O Faial e a Periferia Açoriana – séculos XV-XX” organizados pelo Núcleo Cultural da Horta desde 1993), a Graciosa não merece nenhum artigo autónomo.

Aqui, pois, o meu apelo a uma redescoberta da Graciosa, que lhe garanta a manutenção da ultraperiferia geográfica, mas a posicione na centralidade histórica que a ilha merece.

1. Descoberta, Povoamento e Evolução Populacional

Perante a ausência de fontes credíveis, não é possível identificar com certeza a data da descoberta da Graciosa. Inserida no grupo central do arquipélago dos Açores, é natural que tenha sido avistada em 1427, numa viagem do piloto régio Diogo de Silves, como aponta um mapa elaborado em 1439 pelo navegador natural da ilha de Maiorca, Gabriel de Valseca. Na década de 1440, terá sido lançado na ilha algum gado diverso (vacas, cabras, ovelhas, coelhos…) e aves domésticas, de acordo com a ordem emanada pela Coroa portuguesa, em 1439.

O povoamento humano terá sido mais tardio, em data ainda incerta, provavelmente em resultado dos esforços desenvolvidos pelo Donatário dos Açores, o Infante D. Henrique. Quando, em 1460, o Navegador redige o seu testamento, faz referência a uma igreja que mandou estabelecer na ilha Graciosa. Decerto, esta referência do Infante expressa apenas uma intenção e uma territorialização política deste espaço insular e não, com efeito, a edificação de um templo religioso, mas ilustra a inclusão da Graciosa na tutela do emergente Império Português.

A tradição oral que sustenta os dados relatados pelo cronista Gaspar Frutuoso, em finais do século XVI, fixa o povoamento da Graciosa na década de 1470, embora liderado por duas figuras diferentes. Uma das propostas refere a iniciativa de um Vasco Gil Sodré, cavaleiro natural de Montemor-o-Velho, que tinha estado envolvido nas façanhas portuguesas no norte de África. Acompanhado de família e criados, Vasco Gil Sodré desembarca na Graciosa, depois de uma breve passagem na Terceira, estabelecendo-se numa gruta, a Furna do Castelo. Continuando a seguir o relato quinhentista de Frutuoso, temos a informação de que, dois meses depois, este pequeno grupo é atacado por espanhóis e, perante a sua resistência, o próprio Vasco Gil Sodré é levado pelos castelhanos. Numa outra versão, Gaspar Frutuoso refere o nome de Duarte Barreto, natural do Algarve e cunhado de Vasco Gil Sodré, que se terá estabelecido na zona da Praia na qualidade de capitão da Graciosa. Também aqui, o confronto entre Duarte Barreto e os espanhóis resulta no aprisionamento ou morte deste capitão português.

Do relato de Gaspar Frutuoso, podemos concluir que a Graciosa conheceu a sua primeira leva de povoadores nos finais da década de 1470. Com efeito, o afrontamento entre os primeiros povoadores da Graciosa e espanhóis ocorre no contexto da guerra entre Portugal e Castela, que se desenrola entre 1475 e 1479, ano em que a paz é assinada no Tratado de Alcáçovas. Também se conclui a existência provável de dois núcleos distintos de povoamento, um liderado por Vasco Gil Sodré, na zona de Santa Cruz; e outro liderado por Duarte Barreto, na zona da Praia. A inexistência de documentação da época impede-nos de designar estes dois indivíduos como capitães da ilha, mas não deixa de ser uma hipótese a considerar, reforçada pelo facto de os dois terem falecido sem descendência e a Graciosa ter passado para as mãos de Pedro Correia da Cunha, já indicado como capitão de toda a ilha por volta do ano de 1485.

A localização da Graciosa no grupo central, a sua fertilidade e a sua ligação umbilical com a Terceira foi relevante para o processo de povoamento da ilha. A transição do século XV para a centúria seguinte foi particularmente positiva para o povoamento do grupo central, face ao dinamismo dos Donatários D. João, D. Diogo e D. Manuel, descendentes do Infante D. Henrique. O caso da Graciosa seguiu o processo similar ao de outras ilhas, acolhendo principalmente povoadores oriundos do continente português, mas que já tinham passado por outras zonas do Império, quer por África, Madeira ou por outras ilhas açorianas. A matriz populacional do reino não impediu a presença de povoadores com outras origens europeias, como italianos, de que é comprovativo, por exemplo, o sobrenome de Espínola.

De forma positiva, as gentes foram-se instalando na Graciosa, permitindo que, no final do século XVI, a ilha tivesse cerca de 2 708 pessoas. Nas centúrias seguintes, o crescimento demográfico faz-se de forma positiva até ser bloqueado em meados do século XX, como se observa no Quadro 1. Com efeito, a partir de 1950, observa-se uma fragilização populacional que assume particular acuidade entre 1970 e 1980, quando a população desce de 7 420 habitantes para 5 377 habitantes.

QUADRO 1
EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO DA GRACIOSA

XVI XVII XVIII Censo de 1864 Censo de 1950 Censo de 2001
2 708 6 656 5 447 8 718 9 617 5 189

Atraída por factores diversos (a fertilidade da terra, o apaziguamento das suas manifestações vulcânicas quando comparadas com as de outras ilhas, o apoio constante concedido pela vizinha Terceira…), a população da Graciosa aumentou consideravelmente ao longo do tempo, garantindo à ilha uma elevada densidade populacional, como ilustra o Quadro 2

QUADRO 2
DENSIDADE POPULACIONAL DA GRACIOSA

XVI XVII XVIII Censo de 1864 Censo de 1950 Censo de 2001
44,6 109,6 89,7 143,6 158,4 85,4

No século XVI, a ilha apresenta a segunda maior densidade populacional do Arquipélago dos Açores, com 44,6 habitantes por Km2, apenas superiorizada pela Terceira, com 54,3 habitantes por Km2. Esta característica será uma constante. Ainda em 1950, a Graciosa apresentava uma média de 156 habitantes por Km2, apenas superiorizada por São Miguel, com uma média de 210 habitantes por Km2.

O percurso demográfico graciosense ao longo de Oitocentos e principalmente ao longo do século XX conhece várias causas. No século XIX, há uma acalmia no crescimento demográfico justificada pela crise na produção vinícola, causada pelas pragas da filoxera e oidium, e que gera fluxos de emigração para o Brasil e para os Estados Unidos. De igual modo, as levas de recrutamento militar relacionadas com as guerras liberais também justificam muitas fugas de jovens rapazes para outros espaços. O volume desta emigração é difícil de quantificar, pois era, essencialmente, uma emigração clandestina, particularmente convidativa na Graciosa face à morfologia do terreno, que facilitava os embarques marítimos, e face à negligência das autoridades locais, que não tinham meios eficazes para a fiscalização das saídas clandestinas.

Na primeira metade do século XX, observa-se um novo aumento populacional, particularmente gizado por circunstâncias externas, face aos constrangimentos da política de imigração norte-americana no contexto de recessão que marca o período após a Segunda Guerra Mundial. Assim, nos vinte anos que decorrem entre 1930 e 1950, a população da Graciosa aumenta em mais de 1 000 indivíduos.

A pressão demográfica alcançada na década de 1950 vai gerar uma nova fase de desvitalização populacional. A emigração volta a surgir como resposta eficaz perante as crises económicas e a guerra colonial, que será cada vez mais marcante a partir de 1960. Neste período, observa-se a deslocação de alguma mão-de-obra para a ilha Terceira, atraída pelo desenvolvimento laboral da Base das Lajes, mantendo-se uma elevada atracção pelos Estados Unidos e pelo Canadá. A fragilização populacional que ocorre até 1980 não será compensada posteriormente. O envelhecimento da população e a baixa taxa de natalidade são os actuais factores dominantes da sociedade graciosense que apresenta, no censo de 2001, um número de indivíduos próximo ao que existia no século XVIII.

2. Organização Política

Como senhores dos Açores, os reis portugueses definem o modelo da Donataria para governar o arquipélago à distância. Do Donatário, a Coroa espera o desenvolvimento do povoamento das ilhas e a consequente exploração económica, concedendo diversos privilégios judiciais e fiscais, mas reservando para si certos direitos como a declaração de guerra; a assinatura da paz; a cunhagem de moeda; a proibição da venda da Donataria a estrangeiros; e a manutenção da jurisdição suprema no que respeita a pendências que implicam a condenação à morte ou a amputação de membros. Nos finais do século XV, a Donataria dos Açores foi dividida em várias Capitanias, constituindo a ilha Graciosa uma única circunscrição.

A capitania da Graciosa terá funcionado de forma semelhante às demais capitanias insulares. Os capitães eram detentores de prerrogativas diversas, quer de cariz judicial no cível e crime, usufruindo do poder de ordenar o degredo e castigos corporais (com excepção de pena de morte e mutilação); quer de cariz económico, possuindo o monopólio sobre moinhos, fornos de pão, venda e compra de sal, cabendo-lhes ainda a recepção das rendas das terras régias. Estes poderes obrigavam a uma selecção cuidada dos capitães, que deveriam ser elementos de confiança do círculo régio e donatarial. Assim, depois do desaparecimento dos eventuais dois primeiros capitães da Graciosa, foi designado para novo capitão da ilha Pedro Correia da Cunha, talvez em 1484 ou 1485. Fidalgo de confiança da família dos Donatários dos Açores e cunhado do navegador Cristóvão Colombo, Pedro Correia da Cunha já tinha experiência administrativa na gestão da ilha de Porto Santo, no arquipélago da Madeira. Pedro Correia estabeleceu residência na zona de Santa Cruz, onde vem a falecer em 1495. Sucede-lhe o seu primogénito Duarte Correia da Cunha, que morre em 1507, sem descendentes.

Vaga a Capitania, o Donatário-Rei D. Manuel I nomeia como novo gestor da Graciosa Fernando Coutinho, como prémio de serviços que este marechal tinha prestado à Coroa. Continuou-se aqui a aplicar o estipulado nas cartas de doação, que exigia a transferência dos bens a título vitalício, hereditário e por linha direita masculina. A carta de doação da capitania da Graciosa a D. Fernando Coutinho, em 1507, é bem clara a este propósito, esclarecendo-se que, depois do seu falecimento, a ilha será herdada pelo “seu filho varão lidimo que á hora de seu falecimento ficar; e assim d’ahi em diante de descendente em descendente por linha direita masculina”.

Como podemos observar no Quadro 3, a Graciosa foi dominada pela família Coutinho até meados do século XVII. A partir de então, aplica-se na Graciosa um modelo de doação que já espelha o esvaziamento do conteúdo político que terá afectado parte das Capitanias açorianas, nomeadamente estabelecendo-se doações apenas por uma vida e reduzindo-se a jurisdição à alcaidaria-mor, com competências principalmente de cariz militar.

QUADRO 3
LISTA DOS CAPITÃES DA GRACIOSA (1485-1734)

Pedro Correia da Cunha 1485-1495
Duarte Correia da Cunha 1495-1507
D. Fernando Coutinho, 1º 1507-1510
D. Álvaro Coutinho 1524-1552
D. Fernando Coutinho, 2º 1552-1572
D. Fernando Coutinho, 3º 1573-1592
D. Fernando Coutinho, 4º 1593-1626
D. Fernando Coutinho, 5º 1626-?
D. Luís Mendes de Elvas 1666-?
Pedro Sanches de Farinha 1674-?
Rodrigo Sanches Baena 1708-1730
Pedro Sanches Farinha Baena 1734-1737

Em 1766, as reformas políticas levadas a cabo no reinado de D. José I extinguem a Capitania da Graciosa, ficando a ilha sob a tutela da Capitania-Geral dos Açores, sedeada na cidade de Angra. As alterações político-administrativas do Liberalismo, a que a Graciosa adere em Julho de 1831, desmontam a estrutura da Capitania-Geral, instituindo-se três distritos regionais. Em 1836, a ilha passa a integrar o Distrito de Angra, a par das ilhas Terceira e São Jorge.

O crescimento dos ideais autonómicos fazem com que, em 1898, a Graciosa faça aplicar a legislação autonómica regulamentada pelo Decreto de 2 Março de 1895, conseguindo eleger os primeiros procuradores (do Partido Regenerador) à Junta Geral Autónoma do Distrito de Angra. A estrutura distrital apenas seria extinta na sequência da Revolução de 25 de Abril de 1974 e regulamentada na Constituição de 1976. A criação da Região Autónoma dos Açores promoveu a representação proporcional de todas as nove ilhas do arquipélago, permitindo a participação da Graciosa na Assembleia Regional através de um círculo eleitoral composto por três deputados.

A par dos representantes do poder central, desde os primórdios do povoamento da Graciosa que se observou o fortalecimento das estruturas políticas e administrativas locais. A instituição do município de Santa Cruz data de 1486, o que reflecte a coeva maturidade organizacional dos primeiros núcleos de povoadores. Rapidamente, é perceptível a necessidade de uma proximidade entre os poderes locais e as comunidades envolventes, o que justifica novas orgânicas administrativas. Assim, o crescimento da zona da Praia emerge como argumento para a constituição do segundo concelho graciosense, o que vem a suceder em 1546. Com efeito, os moradores do sul da ilha solicitam ao rei D. João III a criação de um novo município, queixando-se da distância existente entre esta zona e Santa Cruz e expressando a necessidade de responder de forma mais eficaz às necessidades locais, nomeadamente a construção de fontes e tanques e a reparação do porto marítimo. Os dois concelhos da Graciosa mantêm-se até ao século XIX. No contexto da administração liberal, em 1855 é decretada a extinção do município da Praia, o que vem ser concretizado em 1867. A partir de então, a Graciosa passa a ter somente uma autarquia, sediada em Santa Cruz. Esta orgânica, que se mantém na actualidade, é apenas retocada em 2003, quando a Praia readquire o estatuto de vila perdido em 1855, por via do Decreto Legislativo Regional nº 29/2003/A de 24 de Junho.

3. Organização e Exploração do Território

Com origem vulcânica como as suas congéneres açorianas, a ilha Graciosa desde sempre apresentou uma paisagem singular no seio do arquipélago. Aos primeiros navegadores, não foi indiferente a beleza da ilha, cujo traçado pouco montanhoso se distinguia das cotas mais elevadas das parcelas vizinhas, entre as quais a montanha picoense. Justificou-se, pois, a designação da ilha, face à harmonia e à graciosidade da sua aparência para quem vinha de viagens marítimas, por vez muito morosas e agrestes.

A aparência convidativa da Graciosa foi comprovada com a frutuosa exploração económica. As planícies da ilha permitiram que, desde cedo, o povoamento se fizesse não só no litoral, como Santa Cruz e Praia (um topónimo esclarecedor), mas também em zonas mais interiores, como Guadalupe e Luz. Naturalmente, isto permitiu um aproveitamento mais equilibrado de toda a ilha, que se prolongou até ao século XX, quando a agricultura ainda constituía a principal actividade económica. Ainda em 1930, a Graciosa apenas possuía 200 hectares de terra incultos, um dos valores mais baixos de todas as nove ilhas. Por outro lado, a exploração fundiária mais disseminada por todo o território da ilha, deverá ter sido alimentada por uma distribuição de terra mais equilibrada, o que terá gerado uma estrutura social mais paritária quando comparada, por exemplo, com as estruturas sociais micaelense ou terceirense.

A distribuição da terra na Graciosa foi feita, logo nos primeiros tempos, de acordo com o sistema das sesmarias. A terra era entregue a um explorador, que se responsabilizava pela sua arroteia e produtividade ao longo de cinco anos. Em caso de sucesso, o explorador passava a ser, de facto, o proprietário da terra. Para a Graciosa, temos notícias de contendas sobre sesmarias que remontam a 1515 e a 1528, o que significa que o processo era aplicado com rigor, penalizando todos os que não cumpriam com o contratualizado no sistema de exploração.

Para estes primeiros povoadores, a exploração da terra não foi fácil, apesar da evidente fertilidade da ilha. As queimadas permitiram a limpeza dos terrenos, sendo o carvão aproveitado para combustível, enquanto a madeira permitiu, paulatinamente, a construção de cafuas mais elaboradas do que as cavernas onde se terão albergado as primeiras gentes. Contudo, cedo os graciosenses se aperceberam de duas fragilidades da ilha. Primeira, a falta de água, precisamente devido à sua estrutura pouco montanhosa e à baixa pluviosidade. O recurso a água doce, naturalmente, implicou um esforço elevado por parte dos munícipes da Graciosa, o qual se espelha hoje na designada “arquitectura da água”, que implicou a construção de reservatórios, cisternas e tanques, para além dos fontanários, estruturas oitocentistas fundamentais para a distribuição da água nos crescentes aglomerados populacionais.

A segunda fragilidade económica foi a falta de matas, o que exigiu uma forte vigilância na utilização da madeira, mas também permitiu a utilização de materiais alternativos para a elaboração de artefactos e ferramentas. Ainda no século XIX, o relato do terceirense Félix José da Costa (degredado para a Graciosa em 1847 pelas suas ligações aos Partidos Histórico e Progressista) continuava a apontar a escassez de árvores, listando apenas a existência de faias, giestas, álamos e poucos pinheiros. Do ponto de vista das produções, a Graciosa caracterizou-se pela cultura de cereais, nomeadamente o trigo. Contudo, neste sector a ilha singularizou-se no seio do arquipélago, porque sempre teve resultados elevados no cultivo da cevada, cereal quase sem significado em outras parcelas. O valor da cevada reflectiu-se, por exemplo, no facto dos dízimos da ilha serem sempre pagos neste cereal.

Uma estatística de finais do século XVII retrata as culturas dominantes na Graciosa: 2 000 moios de trigo; 1 000 moios de cevada; 2 000 pipas de vinho; e 100 quintais de linho. A partir dos inícios do século XVIII, o milho assume cada vez maior importância na dieta dos graciosenses e, face à sua elevada resistência ao clima insular, torna-se um cereal de referência no século XIX, cuja produção superioriza a do trigo, embora ainda inferior à da cevada. Nos inícios do século XX, o milho ainda constituía a maior exportação da ilha.

Merece ainda particular realce o cultivo da vinha, integrando-se no modelo vinícola das ilhas do grupo central. É certo que o volume da produção de vinho é inferior aos níveis observados nas vizinhas ilhas de São Jorge e Pico. Em valores seiscentistas, as 2 000 pipas produzidas na Graciosa estão bem distantes das 10 000 pipas oriundas de São Jorge e ainda mais longe das 20 000 pipas produzidas nos lajedos picoenses. No que respeita à qualidade, os vinhos do grupo central deveriam ser oriundos de castas similares, mas os diferentes microclimas originariam vinhos diversos. Em comum, decerto, a qualidade inferior destas produções, quando comparados com o gabarito de outros vinhos nacionais, como o do Porto e o da Madeira. Por isso, rapidamente a estratégia foi a queima do vinho, o que também permitia uma maior durabilidade da bebida. O valor da aguardente graciosense no contexto da economia local açoriana não deve ser menosprezado. Em 1702, uma carta da rainha D. Maria informa que, perante a ausência de moeda que se observava no arquipélago, as trocas comerciais do grupo central eram feitas em aguardente.

As pragas que atacam os vinhedos açorianos na segunda metade do século XIX tornam-se devastadoras para muitos agregados familiares, provocando a emigração de vários sectores sociais. Nos inícios do século XX, a revitalização da vitivinicultura seria processada com outras castas, produzindo-se o designado “vinho-de-cheiro”. Em 1957, é fundada em Santa Cruz uma cooperativa vinícola que, nos últimos anos, tem apostado na diversidade e na qualidade do vinho graciosense.

Para além da cevada e do vinho, a Graciosa também sempre conheceu um desenvolvimento da actividade leiteira, integrando-se no modelo das suas congéneres. As pastagens da ilha receberam gado de espécies diversas e temos notícia de que, em 1519, o ilhéu da Praia foi doado pelo rei D. Manuel a Mundos Furtado de Mendonça, para ser utilizado como zona de pastagem de cabras. O volume da produção de leite e queijo acompanhou o desenvolvimento da economia açoriana e, em 2004, foi inaugurada uma nova fábrica de lacticínios.

As dificuldades crescentes da sociedade graciosense ao longo da segunda metade do século XX conduziram a um esforço para diversificar as actividades de exploração. A partir de 1956, a obtenção de ágar-ágar, substância presente em algas de cor vermelha, assume alguma importância. Em 1968, por exemplo, 10% da população da ilha pede licença para poder apanhar estas algas. Mais recentemente, o investimento em novos produtos, como o alho ou a meloa, insere-se na mesma linha de diversificação da oferta agrícola insular.

À semelhança das demais ilhas, até finais da década de 1970 a Graciosa sempre se caracterizou pelo predomínio do sector primário, que até então ocupou cerca de 70% da população. A indústria sempre foi o sector com menor representatividade, ligada a manufacturas simples, que ilustram a relevância de profissões como as dos sapateiros, tanoeiros, carreteiros, artesãos, fiandeiras, entre outros. Ao longo do século XIX, surgiram pequenos investimentos ligados à produção de sabão, telha e cal que, na centúria seguinte, acabaram por não ter expressividade. No século XX, seria a transformação vinícola e do leite que mereceriam novos projectos, como já referido. Paralelamente, começou-se a observar o desenvolvimento do sector terciário, que vai absorver uma grande fatia da população até então ligada ao sector primário. No censo de 2001, observa-se já o predomínio do sector terciário, que hoje ocupa cerca de 60% da população, particularmente ligada à administração dos serviços públicos.

Um dos principais óbices económicos da Graciosa foi e ainda se centra nos meios de transporte. A sua profunda ligação à Terceira foi marcante desde o século XVI, de onde a ilha recebia os produtos de que carecia, como é o caso do azeite e madeiras, parte destas provenientes da ilha do Pico, mais rica em matas. Até tarde, as principais trocas comerciais efectuaram-se em géneros e, neste particular, os apoios angrenses foram fundamentais para a sobrevivência da população graciosense. Recorde-se apenas que, em 1844, num período de seca muito grave, o Governador do Distrito de Angra ordenou o envio de um navio carregado de água da Terceira para a Graciosa.

A extrema dependência das ligações marítimas das populações açorianas iria conhecer algum desenvolvimento em meados do século XIX. Em 1858 é criada a Companhia União Mercantil que, até ao ano da sua extinção, em 1864, fazia uma viagem mensal até à Graciosa. Na década de 1870, esta tarefa passará a ser da responsabilidade da Insulana. Se a passagem da navegação à vela para a navegação a vapor dinamizará os circuitos comerciais marítimos, a sazonalidade das viagens, centradas no período do verão, será sempre um constrangimento que apenas a navegação aérea irá colmatar, com a construção do aeródromo da Graciosa em 1980.

4. Estrutura Social e Quotidiano

Nos tempos do povoamento, a estrutura social da Graciosa espelhou o paradigma da época. A leitura das crónicas de Gaspar Frutuoso, mimetizadas nos cronistas dos séculos seguintes, lista os nomes das famílias ilustres que vieram para a Graciosa, clara tentativa de justificar a origem nobiliárquica das mesmas, correlacionando-as com linhagens ilustres do reino: Mendonça, Vasconcelos, Perestrelo, Espínola, Ornelas, Câmaras, Quadros, Limas, Silvas… É certo que julgamos ter de existir algum cuidado na interpretação literal das informações apresentadas, pois o povoamento da ilha fez-se com uma amálgama de gentes maiores e menores, extremamente resistentes ao isolamento insular e capazes de desafiar uma natureza agreste.

A divisória social existia, com base no privilégio inerente a cada grupo, cujo circuito era restrito. Recordemos aqui o caso da jovem D. Branca, filha do capitão Pedro Correia. O pai tinha combinado o casamento desta sua filha com um nobre do reino. Desgostosa com este arranjo e apaixonada por Diogo Vaz Sodré, D. Branca casa-se a furto com este, apesar dos impedimentos paternos, justificados pelo facto do pretendente açoriano ser considerado de nível social inferior ao da jovem. Este caso não só confirma que as ligações matrimoniais eram um assunto resolvido pela esfera paternal, como reflecte a importância da paridade social dos nubentes, para que as descendências não fossem espoliadas dos seus bens, privilégios e honras.

Entre os grupos sociais de menor gabarito, a ideia geral que nos perpassam as fontes disponíveis reflectem uma sociedade harmoniosa, sem grandes tumultos ou comportamentos heterodoxos. Nas três visitas que a Inquisição efectua ao arquipélago nos finais dos século XVI e inícios do século XVII, surgem apenas cinco acusações na Graciosa, que não chegam a processo acusatório: dois indivíduos acusados de bruxaria; dois acusados de desrespeito para com a Igreja e um acusado de bigamia. De igual modo, numa devassa feita pela Diocese de Angra em 1791-1792, há 54 denúncias sobre comportamentos considerados desviantes de acordo com os cânones da época: incorrecções nos comportamentos do clero paroquial (não administração de sacramentos ou excessiva intimidade com o sexo feminino); práticas de feitiçaria; indivíduos que não respeitam o descanso dominical, que faltam à missa ou que têm disputas públicas. Contudo, a situação mais denunciada é a existência de relações afectivas ilícitas (29 acusações). Este indicador é comprovado por outros dados, embora mais tardios. Em 1838, 16,7% das crianças da Graciosa nascem fora de relações matrimoniais, valor que ascende para cerca de 25% em 1873. Ora, esta elevada taxa de ilegitimidade (que também se verifica na ilha de São Jorge, por exemplo) não implica um correlativo abandono infantil. Com efeito, na Graciosa, a exposição de crianças é uma prática menos comum do que em outras ilhas. A título de exemplo, em 1849, são abandonados na Graciosa apenas 0,8% dos bebés nascidos, valor muito aquém dos 23,7% abandonados na ilha do Faial.

Os reduzidos casos de exposição infantil relacionam-se com famílias empobrecidas, que pretendem procurar novas formas de subsistência. Assim parece suceder em 1854, quando duas crianças são abandonadas porque os pais pretendem emigrar para o Brasil. Mas o escasso número de crianças abandonadas prender-se-á, decerto, com o entendimento social que a comunidade graciosense faz sobre o valor do casamento e as relações entre os casais. A aceitação familiar de descendentes ilegítimos parece ser frequente, pois cerca de 31% destas crianças (na segunda metade do século XIX) vive com os avós. Assim, a concertação das comunidades graciosenses sobre as crianças nascidas fora dos matrimónios parece ser uma realidade a merecer estudos aprofundados.

A par da nobreza e do povo graciosense, o clero assumiu relevância na configuração da ilha. O clero secular foi distribuído pelas igrejas e ermidas criadas à medida que o povoamento se dispersava. No século XVII, a ilha possuía duas igrejas matrizes sediadas nas duas vilas, doze ermidas e um convento franciscano, fundado em 1609, na vila de Santa Cruz. Sem nunca ter tido um convento feminino, a ligação aos frades franciscanos parece ter sido relevante até à extinção das Ordens Religiosas, já em 1834. Talvez aqui, possamos prestar alguma atenção ao relato de François-René de Chateaubriand, que desembarca na Graciosa no ano de 1791: “na ilha não havia modo de vida senão o de ser frade” … “Sem exageração, me pareceo que metade da Graciosa era povoada de frades e que a outra metade lhe deve pertencer por ternos laços. Tenho para formar este juízo, não só a confissão de muitas molheres, mas ainda pelo que eu próprio observei, de modo a não me deixar a menor duvida”.

O exagero óbvio desta apreciação deve-se ao facto de Chateaubriand ter limitado a sua visita à área de Santa Cruz, mas não deixa de ser interessante esta ideia da pujança dos religiosos, com claro monopólio na ilha no que respeita ao clero regular. Aliás, em 1660, a tentativa de implantar um Convento do Carmo, com ligações à estrutura faialense, falha completamente, pois a pobreza da população graciosense não permitia a existência de mais que um mosteiro. Retomando o relato de Chateaubriand, é indicado que o convento franciscano era o melhor local para a recepção dos convidados ilustres que passavam na Graciosa, pois o edifício possuía maior magnificência do que a casa do próprio capitão da ilha.

Periférica e isolada, a Graciosa viveu um quotidiano sem grandes percalços. Esta acalmia foi interrompida ocasionalmente por eventos diversificados. Por um lado, a natureza desafiava o torpor dos dias quando os terramotos eram sentidos com mais intensidade. Assim sucede em 1730, 1787, 1817, 1837 e, mais recentemente, em 1980. Também ameaçadoras foram algumas das investidas do corso atlântico. Em 1623, a Graciosa é atacada por mouros oriundos do norte de África e, em 1691, por piratas ingleses. A prática corsária e a insularidade da ilha conduziram à constituição de um sistema defensivo terrestre e marítimo. A constituição de Ordenanças Militares data de 1560 e, na frente costeira, foram construídas várias fortalezas, como o Forte da Barra (actual Clube Naval); Forte de Santa Catarina (em estado de ruína); ou o Fortim da Calheta (Farolim). O quotidiano da Graciosa nem sempre foi quebrado apenas face à existência de ameaças externas. A ilha recebeu vários visitantes conhecidos, o que faz com que Raul Brandão a considere uma “ilha ilustre e literária”. É o caso do Padre António Vieira, em 1654, que permanece na Graciosa cerca de dois meses, depois do seu navio oriundo do Brasil ter naufragado; é o caso do já referido François-René de Chateaubriand, que em 1791 se hospeda no convento de Nossa Senhora dos Anjos; é o caso de Almeida Garret, que em 1810 passa pela Graciosa para visitar o juiz de fora que era seu tio; é o caso do Padre Jerónimo Emiliano de Andrade, que permanece em exílio três anos na ilha, entre 1828 e 1831; e é o caso do Príncipe Alberto do Mónaco que, na sua condição de naturalista, visita as Furnas do Enxofre em 1879.

5. A terminar, recordemos a descrição de Raul Brandão sobre a Graciosa em Junho de 1924: “Na luz matutina e fria das quatro horas tenho diante de mim um espectáculo único, quatro ilhas saindo do mar ao mesmo tempo – a Graciosa dum verde muito tenro acabando dum lado e do outro em penhascos decorativos… É só num ponto e passa num instante porque o navio não pára…enquanto a Graciosa ali perto se mostra toda verde”. O verde (e não o branco!) graciosense parece ter sido reconhecido pela UNESCO que, em 2007, declara a ilha como Reserva da Biosfera. Desejamos, pois, que a graciosidade inerente à sua natureza se complemente agora com este Inventário do Património Imóvel. E, por esta via, que a ilha, os seus moradores e as suas obras sejam sempre lembrados e que a Graciosa deixe de ser a Ilha Esquecida!

Bibliografia

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* Universidade dos Açores

O Inventário do Património Imóvel do Concelho de Santa Cruz da Graciosa
Graciosa, A Ilha Esquecida
Santa Cruz da Graciosa, O Concelho - Aspectos do Urbanismo e da Arquitectura
Arquitectura da Água na Ilha Graciosa
A Casa da Graciosa
Graciosa. Santa Cruz
Inventário do Património Imóvel dos Açores