Convento de São Boaventura
 

Jorge A. Paulus Bruno**

Ao contrário da generalidade das outras ilhas dos Açores, as condições físicas da ilha Graciosa fizeram com que ela fosse carente de água. Esta situação suscitou na população a necessidade do desenvolvimento de sistemas de captação e armazenamento desse precioso bem, hoje todavia ultrapassados e no essencial desactivados em virtude da execução de um plano geral de distribuição e abastecimento de água.

Por esta razão, uma relativa variedade de construções ligadas à captação, armazenamento e distribuição de água constitui hoje na Graciosa um interessante tema no campo da Arquitectura de Produção. A forma como foram implantadas no terreno, o modo como foram construídas e os materiais utilizados na sua construção são reveladores da criação de uma competente resposta à necessidade de lidar com a água como um bem de elevado valor mas de pouca abundância.

Esta resposta comporta particularidades que merecem ser destacadas e que ainda hoje podem ser observadas. Por esta razão, poderá falar-se de uma Arquitectura da Água na ilha Graciosa, sem que, todavia, estejamos perante obras de arquitectura monumental – à excepção de uma tipologia de construções: os grandes reservatórios de água enterrados –, mas sim perante obras de arquitectura popular, de acordo, aliás, com o essencial da arquitectura antiga que ainda hoje se pode encontrar na ilha.

As razões que mais directamente explicam a carência de água derivam da considerável extensão de superfície mais ou menos plana em grande parte da ilha, ao contrário das poucas áreas declivosas, e das poucas superfícies montanhosas, aliadas à sua baixa altitude. Estes são os principais factores responsáveis pela reduzida chuva orográfica que se verifica na ilha, porquanto estas superfícies não representam massas de relevo suficiente para o surgimento de precipitações abundantes.

As águas da chuva quando caem infiltram-se por gravidade até à base da ilha e formam uma espécie de toalha aquífera, que se mantém em contacto com a água salgada. É esta a origem dos charcos, por exemplo do charco permanente da Caldeira e de outros mais pequenos que secam geralmente durante o Verão. Em períodos de chuvas abundantes, em algumas terras menos permeáveis, formam-se pequenas poças (“olheiros”) (imagem 1).

Do mesmo modo, a natureza do relevo (fraco declive) e a raridade das camadas impermeáveis explicam a existência apenas de três nascentes, de caudal fraco e irregular: a do Tanque, no sopé da encosta norte da Serra Branca; a da Cova, na vertente oriental da Serra Dormida; e a das Fontes, na encosta setentrional da serra com o mesmo nome.

A falta de água nesta ilha chegou a ser de tal gravidade que a população se viu obrigada a retirar água do charco subterrâneo da Furna do Enxofre, pese embora a dificuldade e perigosidade do seu acesso (antes da construção do túnel e da escada de caracol). Em 1844 a seca atingiu foros de grande calamidade, a ponto de virem da vizinha ilha Terceira centenas de pipas de água para abastecimento e estar programada também a utilização de recursos de água de outras ilhas do grupo central.

Numa ilha com estas condicionantes, a água tinha um valor precioso e obrigava ao seu minucioso aproveitamento através de uma variedade de construções que encontramos espalhadas por toda a ilha. Das mais complexas e articuladas em diversas funções às mais simples e modestas, é possível ainda apreciar um curioso conjunto de estruturas que, na sua maioria, se desenvolveram ao longo de cerca de cem anos: da segunda metade do século XIX ao início da segunda metade do século XX, ocasião em que foi iniciado o Plano Geral de Abastecimento de Água ao Distrito de Angra do Heroísmo.

De resto, a toponímia da ilha expressa bem este tema: Fontes, Fonte do Mato, Serra das Fontes, Pauis, Canada do Poço, Caminho do Tanque, etc. Ao nível das estruturas públicas, podemos agrupar estas construções em várias tipologias consoante as suas funções de captação (charcos, poços e pauis), armazenamento (reservatórios e tanques) e abastecimento e distribuição de água (chafarizes, lavadouros e bebedouros).

As estruturas mais monumentais e singulares são os chamados “tanques”, que constituem normalmente um complexo integrado por um reservatório (coberto), um tanque propriamente dito (a céu aberto) e lavadouros. Estas construções eram as principais fontes de armazenamento e abastecimento de água da ilha (imagem 2).

Os reservatórios – normalmente associados à captação de água proveniente das nascentes – são estruturas enterradas, têm forma rectangular e em regra estão inseridas num recinto murado, também rectangular. O seu interior encontra-se dividido em naves por fiadas de arcos de volta inteira assentes em colunas, construídos em pedra de cantaria, que sustentam uma cobertura abobadada. O aspecto interior revela-se assim imponente e insólito (“Tanques Velhos” (1863) (imagens 3 e 4), na Serra das Fontes, “Tanque do Atalho” (1866) (imagens 5, 6 e 7), em Santa Cruz, e “Tanque Velho” (1869) (imagem 8), na Serra Branca).

Por sua vez, os tanques são também rectangulares, protegidos por um murete que normalmente não chega a um metro acima do nível do chão e a céu aberto. Constituem outra estrutura de armazenamento de água em articulação com os reservatórios, uma vez que enchem a partir das sobras daqueles. Há também casos de tanques que não estão associados a reservatórios (tanque no Caminho do Tanque, na Luz) (imagem 9).

Os lavadouros aparecem integrados nestes sistemas, do mesmo modo que aparecem associados a chafarizes e bebedouros. Por vezes encontram-se isolados e outras vezes em séries de pias localizadas debaixo de telheiros (imagens 10 e 11).

Outras estruturas também peculiares são os poços. Normalmente situados à beira da estrada, têm formas variadas, desde a circular à rectangular, ajustando-se frequentemente às condicionantes do terreno. São escavados abaixo do nível do chão e quase sempre circundados por um murete baixo, cuja parte superior é rematada de forma arredondada. Pelo menos num dos troços do murete encontra-se geralmente uma reentrância que permite o acesso à água (imagens 12 e 13).

Estes poços, também em alguns casos designados por tanques, de água imprópria para consumo doméstico, estão associados ao consumo de água pelos animais e no âmbito da actividade agrícola, embora secassem com frequência no Verão. O exemplo mais paradigmático destes poços são os “Pauis da Vila”, que hoje constituem um elemento fundamental da organização da praça central da vila de Santa Cruz da Graciosa, mas que outrora para além disso eram um importante recurso de água para os seus habitantes (imagens 14 e 15).

Também no âmbito dos poços, regista-se a existência de poços do tipo poço de maré na freguesia de Guadalupe que, desde a segunda metade do século XIX (1850), procuraram responder à falta de água, captando-a a uma profundidade aproximada de 10 metros, mas que se revelaram de duvidosa validade em virtude da pouca quantidade de água captada e da sua suspeitosa qualidade.

Estes poços do tipo poço de maré, situados, por exemplo, ao longo do Caminho da Igreja, estão implantados ao centro de recintos semicirculares, murados, enquanto as suas bocas são protegidas por muretes circulares construídos em pedra de cantaria (imagens 16 e 17). Os chafarizes e bebedouros são outro dos elementos recorrentes desta temática da Arquitectura da Água, com grande profusão e variedade por toda a ilha, embora na Graciosa não apresentem características distintas de outras localidades.

Desde a segunda metade do século XIX, quando surgem os primeiros chafarizes de abastecimento público às povoações, até meados do século XX, quando este começa a ser doméstico, podemos encontrar várias tipologias de chafarizes. Por regra, sempre implantados junto às estradas ou em sítios proeminentes, estas estruturas eram o meio de abastecimento e distribuição de água mais próximo da população. A sua proliferação também se verificou na Graciosa, do mesmo modo que em todo o país, e por isso hoje podemos encontrar exemplares com valor tipológico especial.

Do século XIX, para além do caso do chafariz monumental da Praia (1864) (imagem 18), que marca a política de abastecimento e distribuição de água da segunda metade deste século, ostentando um brasão com as armas reais portuguesas encimado por uma coroa em relevo, situado em posição destacada no Largo Padre Dr. Manuel Rocha, encontramos ainda dessa época, por exemplo, o chafariz que está integrado no complexo do Caminho do Tanque, na Luz (imagem 19), de 1850 (de entre os datados, o mais antigo), e o típico chafariz das últimas décadas de oitocentos (1896) (imagem 20), na Lagoa. Já do século XX são numerosos os chafarizes do Estado Novo (imagem 21), construídos em pedra de cantaria à vista, de desenho austero e de inspiração nacionalista, por vezes tendo na sua proximidade um telheiro, também ao gosto do Estado Novo com lavadouros (imagem 22).

No que respeita aos bebedouros, os mais significativos em termos tipológicos são aqueles que correspondem a um modelo difundido na ilha nos meados do século XX e que se situam sempre junto à estrada, num recesso semicircular, murado e pavimentado. O bebedouro é construído em betão moldado, tem um formato semelhante a uma banheira e apresenta o frontal rematado em curva revestido a azulejos brancos, expressando deste modo preocupação com a higiene e saúde pública e fazendo uso de materiais e técnicas ao alcance na época (imagem 23).

Ao nível das estruturas de carácter doméstico, ou seja daquelas que aparecem na arquitectura doméstica, poderá referir-se que as águas das chuvas que caem no telhado da habitação voltado para o tardoz são recolhidas numa caleira, normalmente aberta na parede, e conduzidas através de uma conduta para uma cisterna que se encontra situada em frente à parede, no logradouro traseiro da habitação (imagem 24).

Este sistema doméstico surge com frequência na casa rural graciosense, a qual tem, por regra, uma cisterna enterrada no seu tardoz, alimentada principalmente pela água recolhida numa parte do telhado. Uma vez mais, a captação e armazenamento de água são um factor essencial, neste caso ao ponto de levar à ocupação do reduzido logradouro traseiro de uma habitação com uma cisterna (imagem 25).

Em síntese, a Graciosa (onde existe também uma fonte de água termal que deu origem a uma pequena estação termal: as Termas do Carapacho) (imagem 26) é o paradigma de uma ilha que, face aos fracos recursos de água, desenvolveu sistemas destinados à sua captação e armazenamento, criando deste modo estruturas que não são comuns nas outras ilhas do arquipélago e que justificam a sua relevância como tema no domínio do seu património construído.

Bibliografia

COSTA, Félix José da, Memoria Estatistica e Historica da Ilha Graciosa, Angra do Heroísmo, 1845
FERREIRA, António de Brum, A Ilha Graciosa, 2ª ed., Lisboa: Livros Horizonte, 1987
MONIZ, António do Canto, Ilha Graciosa (Açores) Descripção Histórica e Topográfica, Angra do Heroísmo, 1883

* Texto produzido no contexto do projecto SOSTENP – Estratégias de Desenvolvimento Económico, Social e Ecológico Sustentável em Espaços Naturais Protegidos da Macaronésia.
**Investigador. Coordenador do IPIA de 1997 a 2009.

O Inventário do Património Imóvel do Concelho de Santa Cruz da Graciosa
Graciosa, A Ilha Esquecida
Santa Cruz da Graciosa, O Concelho - Aspectos do Urbanismo e da Arquitectura
Arquitectura da Água na Ilha Graciosa
A Casa da Graciosa
Graciosa. Santa Cruz
Inventário do Património Imóvel dos Açores