Urbanismo e arquitectura
 

José Manuel Fernandes**

A vila e povoação de Santa Cruz das Flores, pelo desenho da sua estrutura espacial, assume de algum modo o carácter mais urbano de todos os povoados da ilha das Flores. Em contraste, os outros núcleos edificados florentinos, quer dentro quer fora do concelho de Santa Cruz, são de organização mais simples, como o da Ponta da Fajã (que corresponde a uma simples “povoação-rua”), ou como o das Lajes que se desenrola de uma forma curvilínea, espraiada e orgânica), ou ainda como o de Ponta Delgada (o qual apresenta uma estrutura algo incipiente, proto-urbana).


Vista geral da povoação, do alto do Monte das Cruzes, 1983
  Por outro lado, o tipo de estrutura ou de tecido urbano que Santa Cruz exibe é, no seu desenho, formalmente original, diríamos mesmo único, no contexto dos Açores e da Macaronésia em geral: trata-se de uma estrutura de planta “em tesoura”, cruzada, bilinear.

Em termos gerais, poderíamos à partida incluí-la no modelo mais simples das ilhas, o da estrutura de tipo linear, como já observámos noutros trabalhos: “[o povoado] é muito frequentemente disposto perpendicularmente à costa (Machico e Ribeira Brava, na Madeira, Vila do Porto e Povoação, nos Açores, Ribeira Grande de Santiago de Cabo Verde) seguindo o correr normal de uma ribeira; ou então ao longo do litoral, em plataforma ligeiramente sobrelevada (Calheta de São Jorge, Lajes do Pico, Horta do Faial/1.ª fase, Santa Cruz da Madeira); certos tipos especiais de estrutura podem considerar-se combinações destes dois tipos de implantação (Santa Cruz das Flores e da Graciosa” (in Cidades e Casas da Macaronésia, págs. 138-139).


Planta do núcleo de Santa Cruz.

Segundo a análise cartográfica efectuada na obra aqui citada (na pág. 139, fig. 58), podemos apresentar a seguinte interpretação para a malha urbana de Santa Cruz das Flores e para a sua possível evolução: as duas ruas definidas pela ligação entre o cais do lado sul e o antigo Convento Franciscano (a ocidente da estrutura), passando pela fachada da Matriz, corresponderiam ao traçado inicial do núcleo. São estes arruamentos de desenho aproximadamente recto, e orientados no sentido nascente-poente, convergindo ambos para a estrada que dá ligação aos sectores norte e sul da ilha (e desembocando um deles no larguinho central da vila, com o império).

Mais tarde, e talvez devido à possibilidade de a povoação vir a utilizar um outro cais, do lado norte, estabelecendo-se melhor articulação viária com ele, terão sido traçados os dois outros arruamentos, no sentido aproximado de nordeste-sudoeste – os quais convergem para o mesmo núcleo central do povoado – acabando assim, no conjunto urbano, por se definir um desenho invulgar, o de dois sistemas lineares fazendo entre si, em planta, um ângulo agudo. Este traçado já se encontrava bem definido em 1820, segundo o documento cartográfico do Gabinete de Estudos Arqueológicos e de Engenharia Militar n.º1190, referenciado e publicado na Arquitectura Popular dos Açores (pág. 486).


Santa Cruz, vista aérea (F.A.P., 1979).
  Refira-se aliás, sobre o tema, esta mesma obra, a Arquitectura Popular dos Açores (pág. 487): “A Vila de Santa Cruz, instalada numa plataforma litoral, apresenta um nítido traçado planeado, desenhando uma planta em forma de V: os dois braços, cada um constituído por dois arruamentos paralelos, ligam ao centro os dois cais que servem a vila. Este centro é, por sua vez, simultaneamente âmago, com o jardim, a Câmara e as casas principais, e periferia, com o antigo convento franciscano a poente. Articulava-se com uma via de ligação aos outros povoados (hoje desfigurada pela implantação do aeroporto) que o rematava”.

De facto, observamos que o esquema em duplo V produz três intersecções de arruamentos, que fazem esquinas em ângulo agudo, o que resulta num efeito perspéctico insólito. No espaço entre os dois braços principais ergueu-se a matriz, hoje um imóvel “virado de costas” ao Corvo (o edifício actual foi construído em finais do século XVIII) – mas ressalte-se que o edifício original estaria, em fase anterior, noutra posição, porventura com a fachada orientada a poente, e dando portanto melhor sentido à junção das duas ruas internas à malha referida.


Vista de um dos arruamentos rectilíneos da povoação.


A igreja matriz.


A igreja franciscana.
De Santa Cruz diz-nos Gaspar Frutuoso (cerca de 1580-90) que “É vila muito chã e bem arruada”. Poderia referir-se já, nos finais de Quinhentos, a esta malha? As ruas hoje existentes eram também já descritas por Frei Diogo das Chagas em meados do século seguinte (1640-45); e conhece-se cartografia de Oitocentos que regista uma malha idêntica à que actualmente se vê (a já mencionada, datada de 1820).

O crescimento mais recente da vila incide naturalmente nos terrenos disponíveis e planos, que envolvem o aeroporto: “A tendência actual é de expansão em malha ortogonal para norte, no terreno deixado livre pelo aeroporto, bem como para a densificação do núcleo existente, pelo preenchimento da área entre eixos através da construção de equipamentos.” (in pág. 487 da op.cit.)

Centrando a nossa análise agora mais na temática especificamente arquitectónica, podemos destacar, nesta singela vila de Santa Cruz, alguns monumentos. É o caso da já mencionada Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a matriz de Santa Cruz, começada a construir em 1859, e que é uma das mais imponentes do arquipélago, dada a sua escala, relativamente à ilha e à pequena povoação onde se insere. Isto sobretudo pela dimensão e grandiosidade da fachada, ladeada de duas torres, culminadas estas com cúpulas bolbosas. No interior, pode salientar-se a capela-mor, dotada com um altar também de expressão grandiosa.

A Igreja de São Boaventura, inserida no antigo convento franciscano, (que é hoje um museu regional), foi erigida por volta de 1641. Exibe uma frontaria singela, de gosto “chão” (como é aliás a tradição das obras arquitectónicas desta ordem mendicante), com duas cripo-torres embebidas na silhueta da fachada aquadradada – e cujo piso térreo apresenta os tradicionais três arcos das frentes eclesiais da ordem franciscana; o claustro é de boas proporções, simples no desenho das arcarias térreas, de volta redonda; o interior da nave da igreja contém um altar de qualidade assinalável, em talha de influência dita hispano-mexicana. O tecto abobadado da igreja é em cedro, pintado com motivos vegetalistas e figuras alegóricas.

Assinale-se ainda o edifício do Museu Etnográfico, sito numa casa térrea de expressão vernácula, implantada junto ao largo principal, no arranque da rua que leva à frontaria da matriz, a qual exibe no seu interior diversos temas representativos da habitação rural tradicional da ilha, como o forno, a “copeira”, etc.

É de destacar igualmente, na proximidade, a fachada do “império” (inserível no tipo do “império-casa” tradicional na ilha, em que o edifício se assemelha muito a uma vulgar casa de habitação linear, térrea), que se situa no largo central da povoação, e apresenta elementos decorativos em relevo, como o frontão, o escudo real, as formas simbólicas (roseta sexifólia) e a data de 1854.


O império do largo central.


O “Hotel dos Franceses”.


O farol da Ponta do Albarnaz.
Refira-se ainda a existência de uma “casa de vila” característica, de dois pisos, com uma série de janelas de sacada na frontaria, munidas estas com guardas em ferro forjado, e com uma protecção definida por reixas de madeira, assentes nas duas janelas de sacada laterais e ainda nos alçados traseiros (cf. o Arquivo da Arquitectura Popular dos Açores, no levantamento efectuado em 1983).

Na malha interna da vila, o edifício dos Correios, de gaveto, modesto nas suas dimensões, é característico da chamada “Arquitectura do Estado Novo” dos meados do século XX. Trata-se de uma obra de tipo neotradicional, com elementos decorativos em pedra ornando a fachada, como o arco redondo definindo o alpendre da entrada.

O conjunto de arquitectura moderna mais relevante em Santa Cruz será sem dúvida o do chamado “Bairro dos Franceses”. Inaugurado em 1966, para servir os técnicos daquele país destacados para observações astronómicas nesta ilha, é formado por uma série de construções em que se destaca a do chamado “Hotel”, para além de várias moradias térreas, mais ou menos enquadradas por arborização. Todo o conjunto, de expressão simples e funcional, valoriza-se sobretudo pela sua localização litoral, junto às piscinas naturais, entre rochas, que aqui servem a povoação.

Fora de Santa Cruz, podemos ainda mencionar algumas das igrejas locais, como a de Ponta Delgada, e o farol da Ponta do Albarnaz, na ponta noroeste da ilha, a seguir a Ponta Delgada. Construído em 1925, num desenho modesto, de forma cilíndrica, de feição tardo-oitocentista, inclui também um edifício anexo térreo, ornado de platibanda.

Bibliografia
AAVV, Arquitectura Popular dos Açores, Ordem dos Arquitectos, [Lisboa], [2000]. AAVV, Inventário do Património Imóvel dos Açores. Flores. Santa Cruz, Direcção Regional da Cultura, Instituto Açoriano de Cultura e Câmara Municipal de Santa Cruz, 2003 (dossiê).
FERNANDES, José Manuel, Cidades e Casas da Macaronésia, FAUP, Porto, 1996.
FURTADO, Eduardo, Guardiões do mar dos Açores, ed. autor, s/l, 2005.
Açores. Guia Turístico. 1998-99, Publiçor, 18.ª edição.

* Adaptado do texto redigido para a Enciclopédia Açoriana.
** Licenciado em Arquitectura pela Escola de Belas Artes de Lisboa (1977). Doutorado pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa (1993), onde é professor agregado desde 1999. Co-organizador do Departamento de Arquitectura da Universidade Autónoma de Lisboa (em 1998).

O Inventário do Património Imóvel do Concelho de Santa Cruz das Flores
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Flores. Santa Cruz
Inventário do Património Imóvel dos Açores
Última actualização em 2008-09-04