Convento de São Boaventura
 

João Vieira Caldas*

O convento franciscano de São Boaventura, em Santa Cruz, “até aos anos sessenta do século XX o maior conjunto arquitectónico da Ilha das Flores” 1, é também, do ponto de vista da sua concepção, um dos edifícios religiosos mais problemáticos da Idade Clássica 2 nos Açores.

Não tanto no que respeita à parte conventual, aliás muito transformada pelas sucessivas utilizações após a extinção liberal das ordens religiosas, nem à própria igreja só por si, embora esta seja um exemplar de grande qualidade e, ao contrário daquela, de excepcional integridade arquitectónica, mas, sobretudo, devido à articulação entre ambas através da fachada principal do edifício.

Ermida da Senhora da Pureza
Convento de São Boaventura
Pouco se sabe sobre a história da construção deste convento, ou melhor, sobre quando tomou a aparência que hoje tem e quais as razões que determinaram os aspectos mais originais da sua concepção. Sabe-se que começou a ser construído em 1642 3 e que, depois de diversas derrocadas e reconstruções em diferentes partes da igreja, ainda estavam por acabar, em 1727, a “capela-mor, igreja e sacristia, [e] varanda” 4.

Seja o que for que se entendia por “varanda”, fossem quais fossem as obras por acabar (talvez mesmo só os acabamentos), é impossível determinar, através dos dados conhecidos, se a estrutura arquitectónica que hoje apresentam a igreja, o claustro e os compartimentos que se desenvolvem ao longo da sua ala poente (vestíbulo de distribuição interna, refeitório e cozinha) já estava prevista no projecto inicial, se foi fixada numa das intervenções posteriores, ou se é o resultado cumulativo das sucessivas reconstruções. Certo é que, particularmente no que respeita ao interior da igreja, parece decorrer de um desenho coerente tanto do ponto de vista da concepção espacial como do programa decorativo.

Este pequeno texto não pretende fazer mais que uma breve e provisória análise comparativa da arquitectura da igreja e da sua ligação à parte conventual, tentando problematizar algumas soluções arquitectónicas menos vulgares. A descrição do edifício será reduzida ao mínimo necessário para a compreensão do argumento. Para uma descrição mais completa do que hoje resta do convento remeto para a respectiva ficha deste inventário (81.4.40). Para a sua história remeto para a obra de Francisco A. N. P. Gomes A Ilha das Flores: da redescoberta à actualidade (Subsídios para a sua História) 5 ampliada e completada no texto inédito, já citado, de Luís F. N. G. Vieira, Elementos para o estudo do Convento de São Boaventura em Santa Cruz das Flores, que aguarda publicação.

Neste edifício há dois aspectos inseparáveis que se sobrepõem a todos os outros em originalidade: a concepção da sua fachada e a relação desta com a planta do convento e da igreja.

Aquilo a que se pode chamar a fachada principal corresponde ao que o observador não avisado julgaria tratar-se da frontaria da igreja. Tem uma raríssima forma quadrangular delimitada pelo baixo degrau saliente que funciona como soco, pelos cunhais largos e bem marcados e por uma cornija horizontal actualmente reforçada por uma faixa inferior em cantaria à vista (faixa que foi concebida para estar rebocada e caiada, como, aliás, esteve até há poucos anos 6). Sobre a cornija e no enfiamento dos cunhais existem pináculos apoiados em pedestais. Ao centro, outro pedestal amparado por pequenas volutas suporta uma cruz. Nenhum destes elementos tem dimensão suficiente para contrariar a expressão marcadamente quadrangular do frontispício.

Ermida da Senhora da Pureza
Ermida da Senhora da Pureza
À sua esquerda alinha-se a singela fachada da restante parte conventual, resultante de profundas transformações que se estenderam até ao século XX.

A suposta fachada da igreja está dividida em três níveis, com diferentes alturas, por meio de cornijas, e os dois níveis inferiores estão segmentados em três tramos verticais, com a mesma largura, por meio de largas pilastras. No piso inferior abre-se um arco em cada tramo. O nível intermédio tem uma janela em cada tramo, embora a janela central apresente um emolduramento muito mais desenvolvido (a faixa em cantaria à vista que remata esta secção, à semelhança do que acontece com a faixa de remate da fachada, deveria estar também rebocada e caiada, aqui com a agravante de essa caiação ser necessária para fazer ressaltar os pináculos e a concha que rematam o entablamento da janela). O nível superior é nitidamente mais baixo que os restantes. Tem um nicho axial com a imagem de São Boaventura, janelas no enfiamento das pilastras que dividem os pisos inferiores (parecem mesmo apoiar-se nos respectivos capitéis) e um par de vãos sineiros na vertical de cada uma das secções laterais. Os cunhais, neste nível, apoiam-se num pedestal próprio e são mais estreitos que os dos níveis inferiores.

Convento de São Francisco, Horta
Convento de São Francisco, Horta
Poder-se-ia supor, conhecendo de antemão a complexidade que efectivamente preside à concepção arquitectónica do edifício, ter havido a tentativa de criar uma fachada ambígua, onde as secções laterais rematadas pelos vãos dos sinos pudessem ser lidas como torres. A interrupção das pilastras no último nível vem impedir tal leitura, reforçando a percepção do quadrilátero de enquadramento.

Não parece existir um modelo específico de edifício em que esta original fachada se possa filiar. No arquipélago, a única solução semelhante encontra-se na Ilha do Pico. Efectivamente, a fachada da Ermida da Senhora da Pureza, no Lajido de Baixo (Santa Luzia), comunga da mesma simplicidade geométrica com contorno definido pelo soco, por pujantes cunhais e por uma cornija horizontal. Embora assuma uma forma global claramente rectangular (e não quadrangular como nas Flores), e, como é natural, resulte numa composição muito mais simplificada, mostra os mesmos três níveis onde se abrem respectivamente o portal, a única janela e os dois vãos sineiros. Estes últimos foram abertos junto aos cantos superiores da fachada, onde esta se solta do corpo do edifício, em posições similares às que ocupariam se estivessem integrados em pequenas torres.

Convento de São Pedro de Alcântara
Convento de São Pedro de Alcântara
É pouco provável, porém, que o modelo de um convento urbano estivesse numa pequena construção rústica, nem tal seria cronologicamente possível dado que a ermida do Lajido foi fundada em 1760 7.

Em hipótese a aprofundar, dir-se-ia que a fachada do Convento de São Boaventura de Santa Cruz das Flores faz a síntese simplificada de dois modelos: o modelo mais utilizado nos edifícios franciscanos dos Açores (o que é natural dado tratar-se de um convento da mesma ordem) e o modelo escolhido para as igrejas da Companhia de Jesus no arquipélago. Segue o modelo franciscano na divisão da fachada em três secções verticais que anunciariam a divisão interna em três naves, por um lado, e, por outro, tem três arcos que abrem para o nártex no piso térreo. É isto que acontece, com variantes, nas antigas igrejas dos conventos franciscanos de Ponta Delgada, da Ribeira Grande, de Angra do Heroísmo, da Horta, ou de São Roque do Pico. Quase todas têm também uma única torre que ora ladeia francamente a fachada, à qual acrescenta ou subtrai um arco (respectivamente na Horta e em São Roque), ora surge secundarizada atrás do frontispício (Ribeira Grande), ou ao lado mas recuada e descomprometida com a frontaria e com os seus arcos (Ponta Delgada). Mas em todos estes exemplos a fachada é encimada na totalidade por um frontão independente das torres, seja triangular ou ondulado.

Convento de São Francisco, Ribeira Grande
Convento de São Francisco, Ribeira Grande
As igrejas dos jesuítas nos Açores, pelo contrário, têm fachadas de contorno quadrangular que incorporam ambiguamente duas torres. É assim em Angra do Heroísmo, onde a fachada da antiga igreja do Colégio é (pelo menos na actualidade) rematada por uma balaustrada sobre cornija horizontal; é assim na igreja do antigo Colégio da Horta (actual Matriz), onde o pequeno frontão central e as cúpulas semiesféricas das torres não conseguem disfarçar o duro paralelogramo da frontaria; teria sido assim na igreja do Colégio de Ponta Delgada, tanto quanto se pode depreender da antiga fachada que ainda existe por trás da nova frontaria acrescentada no século XVIII.

A divisão em três tramos verticais por meio de largas pilastras, existente nas fachadas dos conventos franciscanos, também é visível nas igrejas dos antigos colégios de Angra e da Horta, mas, ao contrário do que acontece nas primeiras, essas pilastras não representam a projecção exterior da divisão interna em três naves. Nas igrejas da Companhia de Jesus optou-se por uma espacialidade mais concordante com os preceitos contra-reformistas, de que esta ordem foi, aliás, uma das principais difusoras. Por isso têm uma única nave, simples no caso de Ponta Delgada, com capelas laterais intercomunicantes e falso transepto nas igrejas de Angra e da Horta. A tripartição da fachada corresponde, portanto, à largura da nave e à demarcação das torres. Por consequência, o tramo central é claramente mais largo nas igrejas jesuíticas que nas igrejas franciscanas.

As principais diferenças da fachada principal de São Boaventura em relação ao modelo jesuítico residem na largura das secções verticais, que, no convento das Flores, são exactamente iguais, no facto de as pilastras divisórias não se prolongarem ao nível superior, onde eram mais necessárias para individualizar os campanários, e na ausência de verdadeiras torres. Enquanto que nas igrejas da Companhia as torres aparecem totalmente integradas no quadrilátero da fachada principal mas destacam-se em relação às fachadas laterais, no convento de Santa Cruz não chega a haver torres. É a fachada principal que sobe na íntegra ao terceiro nível, englobando os vãos dos sinos, e é enquanto falso frontispício que se destaca das fachadas laterais.
Colégio dos Jesuítas, Horta
Colégio dos Jesuítas, Horta

Todas estas diferenças são compreensíveis à luz do principal factor de originalidade deste edifício. É que a igreja é de uma só nave, como as igrejas da Companhia de Jesus (nomeadamente a igreja do Colégio de Ponta Delgada que, como esta, não tem capelas laterais intercomunicantes nem transepto ou falso transepto), mas essa nave não corresponde, como nos colégios, apenas ao tramo central da fachada. É sim igual à soma da largura deste com a do tramo da direita. Está explicada, portanto, a razão pela qual a secção central desta igreja é igual às outras duas e não um pouco larga, como nas igrejas franciscanas de três naves, nem bastante mais larga como nas igrejas dos jesuítas. A secção esquerda corresponde, no piso térreo, à portaria do convento (ou ao nártex da portaria) e à largura da galeria norte do claustro, que encosta à igreja. É este o principal factor de ambiguidade na arquitectura deste imóvel. O que parece ser a fachada da igreja é também, parcialmente, fachada de outras zonas do convento.

Convento de São Francisco, Vila do Porto
Convento de São Francisco, Vila do Porto
Uma solução semelhante para entrada na parte conventual foi seguida noutros conventos franciscanos dos Açores. No convento da Horta (cujo interior se divide em três naves) essa entrada far-se-ia pelo quarto arco, situado sob a torre lateral, e não se confunde com a fachada da igreja. No Convento de São Pedro de Alcântara, em São Roque do Pico, o acesso à zona claustral faz-se também sob a torre, e a fachada correspondente à igreja encontra-se igualmente bem individualizada, embora, neste caso, a respectiva galilé corresponda apenas a dois arcos, como nas Flores, e a igreja seja também de nave única. O antigo Convento de São Francisco de Vila do Porto nem sequer tem nártex, mas lá tem a torre lateral com um arco no piso térreo por onde se processava a entrada na zona conventual.

No antigo convento de São Francisco da Ribeira Grande há já uma sobreposição da torre em relação à fachada principal, criando-se uma complexidade suplementar. Nesta fachada tripartida há um arco relativo a cada tramo, mas o tramo da esquerda coincide com a largura da torre. O respectivo arco dá acesso à antiga portaria do convento e, como nas casas franciscanas da Horta, de São Roque e de Vila do Porto, a largura da torre corresponde à largura da ala do claustro que encosta à igreja. Apesar de só o arco central e o da direita corresponderem ao nártex do templo, há uma equivalência entre os tramos da fachada e o espaço interno, já que ao tramo central, mais largo, corresponde a nave principal da igreja e ao tramo da direita corresponde uma única nave secundária (eventualmente funcionando como capela dos terceiros).

Mas em nenhum dos casos descritos se encontra a ambiguidade arquitectónica existente no Convento de São Boaventura, onde a fachada anuncia uma coisa e a realidade espacial é outra. A frontaria apresenta uma simetria absoluta, com os seus três tramos de igual extensão, de onde nem sequer se destaca uma torre, mas a largura da nave única da igreja só equivale à soma do tramo central com o da direita. O eixo de simetria da nave encontra-se na pilastra que divide estes dois tramos e só os dois arcos mais à direita abrem para a galilé da igreja. No piso seguinte, a janela da esquerda ilumina o prolongamento de uma das galerias superiores do claustro, por onde se faz o acesso ao coro alto. A janela central da fachada, cujo diferente e exuberante emolduramento é apanágio da sua axialidade, não passa, no interior, de uma das duas janelas iguais que iluminam o coro em posição simétrica. No nível superior, ainda mais enganador que os restantes, há mais uma janela no espaço do coro, embora seja destinada essencialmente à iluminação da nave. Está implantada a eixo desta última e, portanto, alinhada com a pilastra direita que, em consequência, não pôde prolongar-se ao nível superior. Em simetria com esta janela, sobre a outra pilastra, foi introduzido um falso vão. Na verdade não podia ser de outra maneira porque, atrás deste, passa a cobertura da nave, uma abóbada de berço fingida, em madeira pintada, que assenta na parede lateral da igreja alinhada com a pilastra esquerda. É pela mesma razão que, do lado direito, os dois vãos de sino são cegos e inacessíveis. Estão ali apenas para reforçar a simetria da fachada.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário
Igreja de Nossa Senhora do Rosário
A solução de frontaria encontrada para resolver a ligação entre a igreja e a zona claustral do Convento de São Boaventura é original mas, se está de algum modo relacionada com as fachadas de outras casas conventuais do arquipélago, também não estará completamente desligada do desenho das frontarias de algumas das grandes igrejas paroquiais construídas posteriormente na Ilha das Flores.

Assim, é provável que tenha sido o mesmo modelo de fachada/quadrilátero dos colégios jesuítas açorianos, em particular o da Horta com as suas cúpulas semiesféricas sobre as torres, a influenciar a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário das Lajes das Flores 8. A fachada principal desta igreja tem o mesmo contorno quadrangular bem marcado, as torres estão nela inscritas mas com o último nível destacado em relação às fachadas laterais e, como na actual Matriz da Horta, tem um reduzido frontão mistilíneo em posição axial cuja dimensão não é suficiente para anular a preponderância da fachada/quadrilátero. E, também como na Horta (e em Angra), tem o nível dos campanários demarcado inferior e superiormente por cornijas. É natural, porém, que, dada a proximidade de Santa Cruz, tenha sido a igreja do Convento de São Boaventura a influenciar directamente o desenho das janelas com os aventais almofadados e a divisão da fachada em três tramos iguais. No caso da paroquial das Lajes, como nas igrejas dos jesuítas, essa divisão tripartida faz a demarcação das torres mas, ao contrário do que acontece nestas últimas, o tramo central equivale apenas ao espaço vestibular entre as torres, já que a nave única corresponde, nesta igreja, a toda a largura da fachada.

Igreja de Nossa Senhora da Conceição
Igreja de Nossa Senhora da Conceição
É ainda possível que o mesmo modelo tenha tido um reflexo mais longínquo e puramente formalista na fachada da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Santa Cruz 9. Do ponto de vista da concepção espacial, esta igreja não estabelece qualquer relação com as que têm fachada/quadrilátero. É um templo de três naves e a correspondente fachada principal tem um remate semelhante ao de um frontão mistilíneo. Mas a zona central da fachada é enquadrada por duas torres que, se não se integram verdadeiramente numa fachada/quadrilátero, criam uma relação ambígua, pois a linha de remate superior da fachada não desce à cornija inferior do campanário, como nas fachadas de frontão, mas liga-se à cornija superior como na Igreja de Nossa Senhora do Rosário das Lajes, nas igrejas dos colégios de Angra e Horta e, em última análise, na fachada do Convento de São Boaventura.

* Licenciado em Arquitectura (ESBAL, 1977), Mestre em História de Arte (FCSH-UNL, 1988), Doutorado em Arquitectura (IST-UTL, 2007), Professor Auxiliar no Departamento de Engenharia Civil e Arquitectura do IST-UTL, Investigador do ICIST.
1 Vieira, Luís F. N. G., Elementos para o estudo do Convento de São Boaventura em Santa Cruz das Flores, a publicar.
2 A Idade Clássica é aqui entendida como o período que se estende entre o século XVI e o final do século XVIII e durante o qual predomina, na arquitectura erudita ou para-erudita, uma linguagem clássica reelaborada.
3 Vieira, ob. cit.
4 GOMES, Francisco A. N. P., A Ilha das Flores: da redescoberta à actualidade, C. M. de Lajes das Flores, 2003 (1ª ed, 1997), citado em VIEIRA, ob. cit.
5 Ver nota 4.
6 Como se pode verificar em diferentes fotografias do século passado, nomeadamente na que foi publicada em AAVV, Arquitectura Popular dos Açores, [Lisboa], Ordem dos Arquitectos, [2000], p. 487.
7 FERREIRA, Padre José Idalmiro Ávila, Património Religioso, Concelho de São Roque do Pico, Câmara Municipal de São Roque, 1999. Este autor designa-a como “Ermida de Senhora que dá Pureza”.
8“A nova Igreja Matriz (…) foi construída entre 1763 e 1783 (…)”, GOMES, ob. cit., p. 107.
9 A actual igreja resulta de uma reconstrução e ampliação oitocentista. Ver GOMES, ob. cit., pp. 118-120.

O Inventário do Património Imóvel do Concelho de Santa Cruz das Flores
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Complexidade e ambiguidade na concepção arquitectónica do convento de São Boaventura
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Última actualização em 2008-10-14