José Manuel Fernandes **

Constituindo já vila em 1515, as Lajes das Flores corresponderiam então por certo a um singelo ou modesto povoado, tanto na escala como nos conteúdos arquitectónicos e funcionais.

A estrutura urbana das Lajes

Muito vulnerável a assaltos dos corsários e piratas, a vila das Lajes foi objecto de vários ataques nos primeiros séculos. Sendo lugar portuário, mais vulnerável ainda seria, aspecto que talvez justifique os recuos que a implantação dos principais edifícios e monumentos apresentam em relação à linha de costa. Efectivamente, a igreja matriz dista substancialmente do cais e a câmara mais ainda.


Vista da Fajã Grande, na sua rua principal
A orientação geográfica da vila apresenta-se sensivelmente no sentido de oes-noroeste e de es-sudeste. A sua estrutura é de tipo grosseiramente linear, desenvolvendo-se a sucessiva implantação das casas e equipamentos a partir do Monte e dos Morros, sobre uma espécie de longa e estreita lomba (entre a Ribeira Seca e a Ribeira das Lajes) até ao pequeno promontório no extremo oriental da costa, onde assenta o cais (como se pode reconstituir a partir da cartografia disponível mais recente, o mapa datado de 1950).

O largo da Câmara Municipal (cuja implantação original terá sido muito alterada, correspondendo agora ao jardim fronteiro) e o largo da Igreja Matriz constituem os dois pólos principais da vida urbana, mas a distribuição das construções segue uma implantação em geral dispersa e de forma orgânica, adaptada ao relevo irregular – sem portanto dar azo a que a malha urbana das Lajes constitua uma rede geométrica, ou sequer claramente densa e ordenada.

As ocupações mais recentes, ao longo do século XX – a área da Base Rádio Naval e, mais recentemente, a do porto novo – alargaram esta disposição espacial, sem porém a contrariarem.


Mapa referido na bibliografia, de 1950

As paróquias

As fundações sucessivas dos povoados que servem as outras freguesias do concelho assumiram características próprias, na forma e na implantação no território. A mais original e bela é sem dúvida a da Fajãzinha, espraiada num amplo vale, aberto a poente e recebendo as várias cascatas dos penhascos envolventes – num pequeno mas espectacular núcleo edificado com claro valor de conjunto (cf. ficha 82.112.20). O seu largo central, o Rossio, com igreja (um pouco acima) e império, agradavelmente arborizado, é também possuidor de um valor assinalável.


Carta do Serviço Cartográfico do Exército, esc. 1/25.000,
com o pormenor da área da Fajãzinha

Carta do Serviço Cartográfico do Exército, esc. 1/25.000,
com o pormenor da área da Fajã Grande

 

Já a Fajã Grande tem aspecto mais urbano e concentrado, ao longo de uma rua principal rectilínea, num conjunto apreciável pela coerência (cf. ficha 82.114.10); a Ponta da Fajã constitui apenas uma singela “linha” de casario, bordejando o mar e o penhasco; enquanto das outras, apenas aldeias, se pode mencionar o Mosteiro, a Lomba, o Lajedo e a Cuada (abandonada e recentemente recuperada como “aldeia de turismo rural”).

A arquitectura da vila


Imagem do povoado da Lajes, com a igreja
de Nossa Senhora do Rosário
Nas Lajes e defrontando o mar, a Igreja do Rosário foi erigida no século XVIII e restaurada no XIX. Apresenta no seu interior elementos em talha e imagens sacras (cf. ficha 82.22.45). O seu espaço envolvente articula-se com uma interessante ponte oitocentista, sobre a Ribeira Seca, uma obra com bancos inscritos nos seus muretes, datada de 1888 (cf. ficha 82.22.43) e um singelo mas panorâmico jardim, no espaço fronteiro. Muito perto, uma antiga casa solarenga (com os tradicionais aventais em bico nos vãos da fachada), dos séculos XVIII-XIX, empresta um sentido arcaico a todo o sítio (cf. ficha 82.22.44).

Mais abaixo da igreja, as velhas casas do caminho do cais antigo, térreas (entretanto infelizmente desaparecidas com o rasgamento do novo porto), eram, aquando do Levantamento da Arquitectura Popular dos Açores (1983-1984), das mais significativas construções do seu tipo em todo o arquipélago. Conhece-se o desenho e o aspecto de duas delas: frente ao cemitério, a chamada “Casa do Capitão”, uma construção datada no lintel de pedra da entrada (1723) e com uma cornija recebendo o beiral, pormenores raríssimos em construções simples e vernáculas como esta (cf. ficha nº 49 do AAPA); e a casa designada no local como da “Maria Capona” (cf. ficha nº 50 do AAPA), de expressão idêntica à anterior. Ambas apresentavam uma planta de tipo linear, com duas portas e uma janela para a frente, e dois compartimentos internos: a sala-quarto e a cozinha. Em ambas as casas também se encontrava uma “copeira”, isto é, um nicho escavado na parede interna, servindo de armário, ornado com um lintel de moldura clássica.

Os edifícios modernos, do século XX, são poucos mas significativos: o conjunto de habitações da Base Rádio Naval, dos anos de 1940-1950 (foi estação ou base rádio naval até 1993), de gosto neotradicional (dentro do gosto oficial do Estado Novo, o chamado “Português Suave”, (cf. ficha 82.22.39) e a Pousada, de desenho claramente moderno, modesta mas elegante, dos anos 1950-1960. O edifício da Câmara Municipal, apesar de tardio na sua edificação (está datado de 1966), é também representativo da arquitectura do Estado Novo dos meados da centúria novecentista (cf. ficha 82.22.40).

O novo porto, edificado nos anos 1980-1990, constituiu uma verdadeira transformação da vida da vila, pela dinâmica local que introduziu e pelas alterações profundas da área costeira onde se implantou.

Na relação funcional com este porto, podem referir-se alguns projectos por Jorge Kol Carvalho para o local: o farol e o marégrafo, de 1993, e o edifício polivalente, de 2000.

A arquitectura das freguesias


Imagem geral da Fajãzinha, de cima do vale
Como se refere na abordagem ao tema urbano, a povoação da Fajãzinha é a mais interessante do ponto de vista paisagístico e de implantação. Esta característica é complementada na arquitectura pelo conjunto dos edifícios do seu largo central: a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, de 1776-1783, de interessante fachada em “negro e branco”, e o império seu vizinho. Mencione-se ainda ter existido na área um fortim (que depois desapareceu), também da invocação de Nossa Senhora dos Remédios, em 1710, bem como, presentemente arruinados, alguns moinhos com roda vertical.

Diversas casas vernáculas da povoação merecem um destaque no quadro representativo da arquitectura popular: é exemplo a antiga “Casa do Padre”, sobre o arruamento logo acima da igreja, de forma e proporções equilibradas e planta em “L”, com dois pisos. Mais original é uma casa com “camaretas”, situada na periferia do núcleo edificado, e actualmente muito arruinada (vide “A casa tradicional do concelho das Lajes”, João Vieira Caldas, neste livro). Na Fajã Grande há que destacar o conjunto construído da rua principal, na área central, pela sua feição urbana, coesão e uniformidade. Trata-se de várias edificações da rua Senador André de Freitas, entre o seu início a norte e a rua Cândida Dias, e também na rua das Courelas. Incluem-se aqui casas de dois pisos e de um piso, de diferentes épocas e estado de conservação, bem como a igreja e os dois impérios. As datações encontradas reportam estas construções aos séculos XVIII e XIX, segundo as inscrições nas vergas de pedra das habitações, e nas fachadas dos imóveis sacros (cf. ficha 82.114.10).

Refira-se ainda, em conjunto com algumas construções remanescentes na Ponta da Fajã, a existência de óculos de iluminação nas fachadas de dois pisos, com formas originais: em rombo ou losango (Fajã Grande) e em estrela de quatro pontas (cf. ficha 82.116.2).

É de mencionar que as primeiras armações baleeiras dos Açores se implantaram na área da Fajã Grande, que cresceu e se tornou durante algum tempo a segunda povoação da ilha (em meados do século XIX), provindo talvez desta fase o carácter mais urbano das casas de dois pisos na sua rua principal e imediações (cf. fichas 82.114.5, 82.114.7 e 82.114.10); hoje existe uma vigia da baleia, memória destes tempos, na zona acima do povoado.

No Mosteiro havia também, em 1983-1984, algumas casas de dois pisos com arco térreo de volta redonda, em pedra, de acesso à loja dos animais – outra característica original do concelho (cf. fichas nº 56 e 57 do AAPA). Actualmente pode ver -se esta forma construtiva persistente ainda em palheiros, como o da rua Engenheiro Pinelo (cf. ficha 82.93.23).

Bibliografia

AAVV (2000), Arquitectura Popular dos Açores. Lisboa, Ordem dos Arquitectos.
AAVV (1993), Arquivo Arquitectura Popular dos Açores (AAPA), Lisboa, Associação dos Arquitectos Portugueses (edição policopiada, fichas Flores 14 a 57). Açores Guia Turístico. Ponta Delgada, Publiçor (16. a edição, 1996-1997, e 23. a edição, 2003-2004).
Bragaglia, P. (s.d.), Roteiro dos Antigos Caminhos do Concelho Lajes das Flores Açores. Lajes das Flores, Câmara Municipal das Lajes das Flores.
Gomes, F. A. N. P. (1984), Subsídios para a História da Ilha das Flores. Lajes das Flores, Câmara Municipal das Lajes das Flores.
Vila das Lajes das Flores. Escala 1/2.000, ass. Cap. M. Ribeiro, 1950 (planta geral da vila).
Carvalho, J. K. (2003), Arquitectura Projectos e Obras nas Ilhas dos Açores 1984-2003. [Gráfica Maiadouro], ed. do Autor.
Fernandes, J. M. (2003), Português Suave - Arquitecturas do Estado Novo. Lisboa, IPPAR.

* Texto desenvolvido a partir do elaborado para a Enciclopédia Açoriana, em 2005, no prelo.
** Licenciado em Arquitectura pela Escola de Belas Artes de Lisboa (1977). Doutorado pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa (1993), onde é professor agregado desde 1999. Co-organizador do Departamento de Arquitectura da Universidade Autónoma de Lisboa (em 1998).

O Inventário do Património Imóvel do Concelho das Lajes das Flores
Um olhar sobre Lajes das Flores, o mais ocidental de todos os concelhos das Europa
Lajes das Flores, do urbanismo à arquitectura
A casa tradicional do concelho das Lajes
Flores. Lajes
Inventário do Património Imóvel dos Açores
Última actualização em 2008-08-28