Um olhar sobre as Lajes das Flores, o mais ocidental de todos os concelhos da Europa
 

Francisco Gomes *

Primórdios

Entre a descoberta das Flores, feita por Diogo de Teive e seu filho João de Teive, provavelmente no verão de 1452, e o povoamento da ilha, entendido como definitivo, medeiam mais de 50 anos. De facto, a estada na ilha do flamengo Guilherme da Silveira e seus companheiros, aí por volta de 1480-90, não passou – seja porque “não achou a terra a seu gosto” 1 , seja ainda porque aqui não descobriu os metais que alegadamente procuraria – de uma breve e falhada experiência de ocupação. O verdadeiro e efectivo povoamento das Flores só arrancou, pois, por iniciativa do donatário João da Fonseca, logo que lhe foi confirmada, por carta régia de 1 de Março de 1504, a compra que fizera das Flores e do Corvo a D. Maria de Vilhena, viúva de Fernão Teles.

Ao invés, também, daquilo que décadas antes fizera Guilherme da Silveira, tudo indica que os homens e as mulheres levados para as Flores por João da Fonseca se tenham dispersado, por vários núcleos, ao longo da costa da ilha, com cada família ou grupos afins ocupando a dada que lhes coubera na distribuição de terras. Ainda hoje, de resto, a própria toponímia parece sustentar a tese de uma ocupação dispersa da ilha, pois são várias as fajãs – de Lopo Vaz, de Pedro Vieira, dos Valadões – e os ilhéus – de Álvaro Rodrigues, de Maria Vaz – que perpetuam o nome de alguns dos primeiros colonos ou dos filhos desses.

E se bem que, já em finais de Quinhentos, Gaspar Frutuoso ainda só refira a constituição de três paróquias (Lajes, Santa Cruz e Ponta Delgada), por sinal bem afastadas umas das outras, também é certo que já situa algumas famílias nos Cedros, nas Fajãs e no Lajedo, o que mostra que, a par dos principais e mais antigos povoados, pequenos núcleos haviam, desde cedo, coberto gradualmente toda a ilha, dando assim origem às futuras paróquias.

Criação das paróquias

Lajes das Flores nasceu, como povoado, talvez ainda no primeiro decénio de Quinhentos, à volta de uma pequena Ermida em louvor do Espírito Santo, que Diogo das Chagas 2 situa “ao sair do porto, que é uma calheta em que abicam barcos”. As frequentes investidas da pirataria – e temos presente aquela que foi porventura a mais devastadora, quando, em 1587, cinco navios ingleses enganosamente entraram na ilha, pelo porto das Lajes, destruindo “quanto acharam, queimando os templos todos e assolando as casas, sem ficar nem uma só” 3 – cedo ditaram, porém, o estabelecimento duma outra centralidade da paróquia, com a construção de nova Matriz – que o vulgo conhecia por Igreja das Sete Capelas – no local onde se situa actualmente o cemitério. Sabe-se, todavia, que a paróquia já era de invocação a Nossa Senhora do Rosário em meados do século XVII, e que em construção andava também a actual Igreja Matriz (1763-83) quando, mesmo ali ao lado, em 1770, foi forçoso abandonar temporariamente o pequeno forte de Santo António, duramente batido pelo fogo de dois fortes navios do corso americano.

Naquela que é a mais antiga estimativa da população da ilha, em 1587, o cosmógrafo Luís Teixeira atribui a Lajes das Flores 300 habitantes, enquanto frei Agostinho de Monte Alverne, em finais de Seiscentos, situa na mesma vila 320 fogos com 1.200 almas, números que a confirmam, em ambos os momentos, como a maior povoação da ilha.

No último quartel do século XVII, porém, Lajes das Flores desmembra-se – daí que o padre António Cordeiro 4, em 1717, a descreva já como a “segunda vila” da ilha, ainda que “em nada sujeita” à vila de Santa Cruz das Flores – e dessa divisão nascem duas novas paróquias, uma de invocação a Nossa Senhora dos Remédios, nas Fajãs, em 1676, outra em louvor de São Caetano, na Lomba, provavelmente em 1698. Por duas vezes mais, Lajes das Flores volta a ser alvo de desanexações, daí resultando a criação das paróquias de Nossa Senhora dos Milagres, no Lajedo, em 1823, e do Senhor Santo Cristo, na Fazenda, em 1959 (freguesia desde 1919).

Entretanto, nas Fajãs – cuja extensíssima paróquia englobava, desde 1676, os lugares da Ponta, Fajã Grande, Quada, Fajãzinha, sede da freguesia, Caldeira e Mosteiro – dá-se idêntico fenómeno, à entrada da segunda metade do século XIX, com a erecção das paróquias da Santíssima Trindade, no Mosteiro, em 1850, e de São José, na Fajã Grande, em 1861.

Criação e extinção do concelho

Não se conhece – nem é garantido, sequer, que ele exista – o diploma que criou o concelho de Lajes da Flores. O que se sabe, sim, é que a povoação já era vila, necessariamente muito pequena e modesta, no Ano da Graça de 1515.

A primeira alteração à delimitação do concelho terá ocorrido em 1676, na sequência da criação, na costa Oeste da ilha, da paróquia de Nossa Senhora dos Remédios. Nessa data, com efeito, o lugar da Ponta, até então pertencente à freguesia de Ponta Delgada, termo da vila de Santa Cruz das Flores, foi desanexado daquela e passou a integrar, em definitivo, a segunda mais antiga paróquia do concelho de Lajes das Flores, com sede na Fajãzinha.

A mudança imediata na linha que divide os dois concelhos da ilha ocorreu, desta vez na costa Leste, em 1757, quando o bispo frei Valério do Sacramento decidiu desanexar a povoação da Caveira da Matriz de Santa Cruz das Flores e integrá-la na paróquia de São Caetano do lugar da Lomba, pertencente ao concelho de Lajes das Flores. A medida, que somente vigorou até 1833, data da independência administrativa da Caveira, teve como justificação a conveniência, tanto espiritual como corporal, dos fregueses desta pequena povoação, os quais ficavam mais próximos, e por bem melhores caminhos, da Igreja de São Caetano do que da Matriz de Nossa Senhora da Conceição.

Se a Rocha do Risco, a Oeste, e a Ribeira da Silva, a Leste, depressa acabaram por se impor como marcos naturais na demarcação entre os dois concelhos, já o mesmo não sucedeu no interior da ilha, onde, com alguma frequência, se entrecruzaram os interesses das câmaras que entre si disputavam mais baldios e logradouros que pudessem arrendar, e o dos cobradores das rendas do real Fisco que, no entender daquelas, persistiam, de forma abusiva, em cobrar dízimos e rendas de terras que a tais encargos não estavam obrigadas. É neste enquadramento, pois, que se deve entender o “auto de divisão e demarcação” 5 que o juiz de fora Francisco José de Sousa Rebelo promoveu e fez lavrar em 1770, com o expresso objectivo de explicitar, “sem dúvida alguma, todas as tapadas que havia acima do bardo do concelho”, na área de cada um dos municípios. Em 1857, porém, já as duas câmaras municipais andavam novamente desavindas por causa da interpretação da linha divisória dos concelhos, polémica essa que voltaria a reacender-se em 1898, quando o município de Santa Cruz das Flores resolveu arrendar a Caldeira Seca, que a edilidade lajense reclama estar dentro dos seus limites.

O concelho de Lajes das Flores foi temporariamente suprimido, com a consequente anexação dos seus serviços ao de Santa Cruz das Flores, entre 1895 e 1898. Em sinal de reconhecimento pela sua restauração, a nova câmara aprovou, logo em Março de 1899, um voto de louvor ao conselheiro José Luciano de Castro, ministro do Reino, e resolveu dar o seu nome ao antigo Largo do Município. Como este tivesse, entretanto, desaparecido, o nome daquele político foi dado, em Outubro de 1986, ao novo jardim municipal, construído em frente aos Paços do Município.

Sindicatos agrícolas

Uma autêntica revolução é como poderíamos qualificar o movimento pela libertação da Lavoura, que, sob a liderança do jovem padre José Furtado Mota (1878-1963), varreu toda a ilha das Flores a partir da segunda década do século XX. 6 Não deixa, porém, de ser curioso o facto de este grande movimento – que, de certo modo, dava também resposta ao apelo que o papa Leão XIII lançara na sua carta encíclica Rerum Novarum, em 1891, para que os trabalhadores católicos se associassem – ter nascido na pequena freguesia do Lajedo – 326 habitantes em 1911 –, onde o padre Mota fora colocado em Janeiro de 1909, e não numa das duas vilas da ilha, por exemplo.

A causa próxima do movimento, que, em escassa dezena de anos, haveria de levar à criação de vários sindicatos agrícolas na ilha, num processo que foi praticamente pioneiro no arquipélago e no país, pelo menos na área dos lacticínios, radica na drástica descida do preço do leite à produção, imposta sobretudo a partir de 1912 pelos industriais das Flores. É então que o padre Mota, primeiro sozinho, depois já com o apoio do regente agrícola Guilherme Joaquim da Mata, por ele convidado a deslocar-se do Faial, de alguns colegas do clero – no verão de 1918, o Boletim Eclesiástico apontava os párocos como pessoas naturalmente indicadas para liderarem a constituição dos sindicatos, considerados “obras de grande alcance” – e das páginas do Jornal-Rádio, desencadeia a sua campanha a favor da criação de um grande sindicato agrícola que, abrangendo toda a ilha, tivesse como objecto o fabrico de lacticínios e a exportação de gado a liquidar em Lisboa por conta própria.

A semente lançada pelo padre Mota – somente em dois meses, 22 sessões de esclarecimento nas diferentes freguesias – e os bons resultados obtidos pelo primeiro sindicato florentino – referenciado, já em 1918, por um jornal faialense como “a melhor organização do género no distrito da Horta” – depressa fizeram engrossar o número de simpatizantes do sindicalismo agrícola. Formalmente, o Sindicato Agrícola da Ilha das Flores nasceu a 5 de Janeiro de 1918, data em que foi celebrada a respectiva escritura constitutiva, e os seus estatutos foram aprovados por alvará de 27 de Agosto desse ano, assinado pelo Presidente da República, Sidónio Pais. A verdade, porém, é que este primeiro sindicato já vinha funcionando no Lajedo, de forma irregular, é certo, com o estatuto da mútua confiança dos seus sócios, pelo menos desde 1915. De resto, no verão de 1918 estava calculado em 18 contos de reis o valor da manteiga exportada pelo sindicato, que então já possuía, também, uma dúzia de fabriquetas em plena laboração e contava com mais de 400 sócios, maioritariamente do Lajedo, da Fajã Grande e de Lajes das Flores (Morros e Monte).

Os sucessos iniciais do sindicato, que, pela primeira vez, conseguia colocar os seus produtos em Lisboa, sem intermediários, a preços bastante remuneradores, depressa tornaram o movimento imparável. Mas, também por isso, em vez de um único sindicato, como idealizara o seu mentor, eis que, rapidamente, se vão constituindo, um pouco por toda a ilha, outras organizações similares. E nem a vila de Santa Cruz das Flores, onde o conúbio entre os industriais e a autoridade concelhia era mais estreito e constituía uma barreira cimentada por interesses comuns ao avanço da nova “doutrina económica” do padre Mota, logrou resistir de todo, sendo certo que, em 1919, também já lá existiam duas “frutuárias” – na Ribeira dos Barqueiros e na Rua da Aresta – que, por não terem embora um enquadramento legal bem definido – o que só viria a acontecer com a fundação, no lugar do Monte, da Cooperativa de Leitaria de Santa Cruz, cujo alvará data de Dezembro de 1935 – declaravam pertencer ao “Grande Sindicato do Lajedo”.

Não foi fácil, porém, o caminho que conduziu ao estabelecimento desses sindicatos agrícolas, cuja progressão e sucesso, ao bulir com os interesses de alguns comerciantes e políticos locais, suscitou, da parte destes, violenta e impiedosa reacção. Nas Flores, proibiram-se, então, reuniões aos cooperativistas, mandou-se a tropa fiscalizar outras, fizeram-se ameaças e esperas em caminhos mal frequentados, recusaram-se arrendamentos de terras aos associados e renunciaram-se outros contratos.

Em 1920, as autoridades locais proibiram mesmo a exportação para Lisboa de gado e de manteiga dos sindicatos, os quais chegaram a ter em armazém, com o inerente risco da sua fácil deterioração, cerca de 30 toneladas deste produto. A situação, deveras calamitosa, foi exposta ao Alto-Comissário do Governo nos Açores que prontamente fez deslocar às Flores o navio Granja para escoá-los.

Num embarque clandestino, que haveria de valer depois multas de 400$00 a cada barco e respectivo mestre, o navio carregou então 430 cabeças de gado e 32 toneladas de manteiga, mas, a instâncias das autoridades da ilha, logo, em sua perseguição, foi mandado sair do porto da Horta uma canhoneira de guerra. Valeu ao movimento cooperativista a circunstância de o navio Granja se ter apressado em arribar à Calheta de S. Jorge, onde procedeu à legalização do despacho alfandegário.

Em Santa Cruz das Flores, a fábrica do movimento cooperativista foi também assaltada pela guarda republicana, preso o seu funcionário, feitas buscas às casas de alguns associados e arrematada em hasta pública a manteiga ali apreendida nessas rusgas. A própria exportação de gado foi igualmente condicionada a autorização do administrador do concelho, filho do mandante político local.

Poucos meses depois de o padre Mota ter denunciado todas essas arbitrariedades, num extenso relatório que enviou ao Governo da Nação, acabaram sendo demitidos das suas funções o juiz e o delegado do procurador na Comarca das Flores.

Naufrágios

É deveras impressionante o número de naufrágios que, sobretudo no século XIX, ocorreram na ilha das Flores, com particular incidência na sua costa Oeste, a fronteira – na qual se inclui, naturalmente, o ilhéu do Monchique – mais ocidental da Europa. De resto, já os irmãos Bullar, que, em finais de Abril de 1839 estiveram nas Flores, asseguravam que nas costas da ilha “não é raro verem-se […] restos de naufrágios” 7. Ao tempo – e ainda estavam por vir os principais naufrágios de Oitocentos –, já muitas casas da ilha podiam, com toda a propriedade, ser comparadas a “verdadeiros cemitérios marítimos, onde tudo, desde a madeira aos candeeiros, desde a ferramenta aos enfeites, provinha de barcos naufragados” 8.

Descontadas algumas mortes – nove dos 22 tripulantes da barca francesa Bidart, encalhada em 1915 na Fajã Grande, seis dos 12 que trazia a barca italiana Severo, naufragada em 1882 na Lomba, etc. –, que nunca foram muitas, pois a generalidade das embarcações acidentadas transportavam essencialmente mercadorias, e o contágio, por essa via, das arreliadoras bexigas – como sucedeu no Lajedo, em 1843, onde a epidemia causou 18 mortes – ou, até, da sífilis – que os espanhóis do galeão Nossa Senhora das Angústias e São José trouxeram em 1727 e ajudaram a disseminar pela ilha –, os naufrágios sempre constituíram, para a população costeira, uma oportunidade suplementar de rendimento, desde que aos salvados conseguissem chegar primeiro que as autoridades aduaneiras.

Numa altura em que, com poucas excepções, os homens das Flores podiam, no dizer de dois perspicazes visitantes estrangeiros, ser divididos em duas classes – “os calçados e os descalços” 9 –, quão memorável terá sido para as gentes da Fajã Grande o Natal de 1869! É que nesse 25 de Dezembro, deu ali à costa, carregada de açúcar mascavado – um sabor de muitos ainda desconhecido – e de aguardente, a barca francesa Republique, que o povo logo invadiu, levando quanto pôde, numa abundância tal que, nas semanas seguintes, até com açúcar se temperaram caldos de couves.

Foram, todavia, os grandes carregamentos de madeira de pinho resinoso que, de forma mais visível, ajudaram a perpetuar a memória, um pouco por toda a ilha, de algumas dessas já longínquas tragédias marítimas. Pela sua dimensão, o antigo Hospital de Santa Cruz e as Igrejas da Lomba, Ponta da Fajã Grande, Fazenda e Fazenda de Santa Cruz relevam entre as várias obras cujas construções foram essencialmente alimentadas, nas suas mais exigentes necessidades em madeiras nobres, pelos naufrágios da galera Ocean, na Fajãzinha, em Maio de 1876, e da barca Brillant, na Quebrada Nova, em Fevereiro de 1899. Já com os seus 180 passageiros e tripulantes postos a salvo, em terra, Lajes das Flores assistiu também, nos primeiros dias de Março de 1727, ao afundamento do galeão Nossa Senhora das Angústias e São José, que, rebentadas as amarras e levado para o alto mar, ali foi a pique com quase toda a sua preciosa carga, uma parte do espólio anual de ouro e prata das minas do México e de Potosí, na Bolívia. Em sinal de reconhecimento por se terem salvo, dois desses espanhóis, em cuja identidade nem todos os autores coincidem, fizeram edificar a Capela de Nossa Senhora das Angústias, enquanto dois outros – D. Francisca Alfonso Mogravelo Laço de La Veiga, viúva de D. Guilherme de Lavelloes Briga Diez, dos Escritos Reaes de el-rei catholico e governador do real castello de S. Juan de Ulva, espector General da Nova Hespanha, e o fidalgo D. José Dias de Quitiana, ambos de Cádiz – doaram duas mil patacas ao convento de São Boaventura de Santa Cruz das Flores, com a promessa – não sei se cumprida – de remeterem, depois, de Espanha, por nas Flores não haver “pintor nem escultor que as faça” 10, cinco imagens de pincel superior.

A história trágico-marítima nas Flores regista, como últimos grandes eventos, o encalhe do paquete holandês Prins der Nederlanden, em Agosto de 1966, na Pedra dos Morros, de onde só muito a custo foi rebocado, e o naufrágio do Papadiamandis, um cargueiro liberiano, de mais de 14 mil toneladas, perdido na Fajã Grande em Dezembro de 1965.

A quase já cem anos de distância, é o naufrágio do RMS Slavonia, porém, o incidente marítimo que, ainda hoje, continua presente no imaginário de muitos florentinos, numa memória que lhes é avivada, no Museu das Flores, sim, mas também em muitas das casas da ilha, por uma panóplia de objectos que pertenceram àquele malogrado Royal Mail Ship de 160 metros e quase onze mil toneladas de arqueação. Acresce que, algum tempo depois, também o papa Pio X, em sinal de gratidão pelo acolhimento que as gentes da ilha haviam dispensado às 597 pessoas que o RMS Slavonia transportava entre Nova Iorque e o porto italiano de Trieste, enriquecia o património da Igreja Matriz de Lajes das Flores com a oferta de um cálice de prata.

A força da corrente, o nevoeiro intenso e o leviano desvio da rota inicial do navio, feito a “pedido dos passageiros” de 1.ª classe, tornaram quase inevitável o encalhe que ocorreu às primeiras horas do dia 10 de Junho de 1909. O que não deixa de ser irónico é o facto de o RMS Slavonia se ter perdido num local – na Baixa Rasa, a poucas dezenas de metros da linha de costa do Lajedo – dominado pelo Farol das Lajes, ao qual, então, já somente faltavam instalar as máquinas e a lanterna.

População e emigração

A emigração, primeiro, e o envelhecimento natural da população, depois, transformaram Lajes das Flores no mais grave caso demográfico de entre todos os 19 concelhos dos Açores. Com uma densidade populacional que se queda, presentemente, pelos 21,58 hab/km2, sensivelmente um quinto da média dos Açores, o concelho perdeu, também, entre 1950 e 1960, o estatuto, que desde sempre detivera na ilha, de concelho mais populoso, tendo sido, inexorável e definitivamente, ultrapassado pelo de Santa Cruz das Flores. Os seus 1.502 habitantes recenseados em 2001 (540 nas Lajes, 278 na Fazenda, 225 na Fajã Grande, 197 na Lomba, 107 no Lajedo, 105 na Fajãzinha e 50 no Mosteiro), sinalizam, pois, o ponto mais baixo de uma acentuada – e no último meio século, contínua – curva descendente da sua população, e podem ser vistos igualmente como o prenúncio do desaparecimento próximo de algumas pequenas comunidades, a exemplo do que já sucedeu, no último quartel do século XX, com os lugares da Quada, que nos seus tempos áureos chegou a ter mais de uma centena e meia de almas, e da Caldeira do Mosteiro.

Com uma superfície de 69,59 km2, o concelho de Lajes das Flores terá conhecido a sua população máxima nos já distantes meados do século XIX (5.982 habitantes em 1849). Daí para cá, porém, a sua população tem vindo gradualmente em diminuição, sendo que a década de 1950 fica, para já, a marcar o início de uma viragem sem retorno previsível – 5.865 habitantes em 1864, 5.369 em 1878, 4.999 em 1890, 4.498 em 1900, 3.991 em 1911, 3.518 em 1920, 3.508 em 1930, 3.780 em 1940, 4.041 em 1950, 3.376 em 1960, 2.486 em 1970, 1.896 em 1981, 1.701 em 1991 e 1.502 em 2001. Se a emigração para o Brasil não teve influência significativa na demografia local – pese embora haver notícia de várias embarcações que, na década de 30 do século XIX, com maior ou menor sucesso, aqui tentaram arregimentar braços que supostamente eram depois vendidos “como vis escravos aos plantadores dos ardentes climas das Américas” 11 –, já o mesmo não sucedeu em relação aos Estados Unidos, que os primeiros florentinos cedo lograram alcançar a bordo das baleeiras americanas que na ilha habitualmente faziam refresco e substituição de tripulantes. Em vésperas, ainda, da grande “corrida ao ouro” na Califórnia, garantia já em 1857 o governador civil da Horta que “das Flores a emigração para as baleeiras, assim como para os Estados Unidos, é feita clandestinamente, não se podendo dizer que seja em pequena escala” 12. E tanto assim foi que, só capitães baleeiros, será possível identificar, nas décadas seguintes, ao serviço da frota americana, uma boa dúzia de florentinos, ou filhos destes – António Caetano Corvelo, Henry Clay, William F. Joseph, Francisco Augusto, Nicholas Rodrigues Vieira, John A. Vieira, Joseph A. Vieira, António José de Freitas, Joseph T. Edwards, Antone T. Edwards, John T. Edwards e Joseph F. Edwards.

A grande sangria populacional da ilha só viria a ocorrer, porém, no último quartel do século XIX e nas duas primeiras décadas do século XX. Não há elementos estatísticos que permitam quantificar essa emigração, avessa a passaportes, mas, a crer na imprensa local, o fenómeno, que tivera como causa próxima a alteração, em Abril de 1873, da lei do recrutamento, eliminando as remissões a dinheiro, depressa atingiu proporções nunca antes vistas. Em 1883, por exemplo, o vapor Açoriano chegou a Boston com duas centenas de florentinos e, na primavera seguinte, também o lugre Paladin e as barcas Sarah e Verónica desembarcam naquela cidade e em New Bedford uma centena acrescida de emigrados. Em Maio de 1889, a logra Mary Frazier zarpou da ilha para Boston “com nada menos de 200 passageiros” 13, viagem que repetiria dois meses depois, tal como o patacho Rival, ambos “cheios de emigrantes” 14. E sob o título “Escravatura Branca”, um jornal local noticiava em Maio de 1891 que a barca Sarah saíra, naquele mês, para Boston abarrotada “de passageiros clandestinos, ou escravatura branca, como lhe chama o próprio capitão” 15, pois só três dos embarcados possuíam passaporte. “Até há poucos anos só emigravam alguns mancebos sujeitos ao recrutamento (...) mas hoje abandonam a ilha famílias inteiras sem distinção de idades nem de sexos”, escrevia o mesmo jornal, adiantando que a emigração “vai tomando proporções assustadoras”, tanto mais que a autoridade “não só deixa embarcar os naturais da ilha, mas ainda aqueles que, não podendo embarcar nas suas terras, vêm aqui para mais livremente seguir o seu destino” 16.

Na viragem do século XIX para o XX já eram mais de quinhentos, na ilha, os americanos in nomine, muitos deles guindados agora, nesse seu regresso à terra-mãe, à condição de pequenos proprietários, graças às águias amealhadas nas longínquas Califórnias de abundância.

Não se ateve, todavia, a esta vertente económica a influência americana na vida dos florentinos, antes podemos encontrá-la, também, no cancioneiro popular, na arte do scrimshaw, na linguagem recheada de americanismos, até na introdução das ideias protestantes, chegadas, no dizer de um periódico local, sob a forma de um “verdadeiro aluvião de livros heréticos e bíblias falsas” 17 que de Lowel remetera um emigrante dos Cedros. Foi dessa América, também, que à ilha chegaram quase todas – a grande excepção terá sido o primeiro coupé, trazido de Lisboa em 1889 – as “suas” inovações da época – as primeiras caliveiras e debulhadoras mecânicas para os milhos, a primeira impressora tipográfica, as primeiras canoas baleeiras e seus apetrechos, os primeiros aparelhos de rádio, etc.

Estancou-se, finalmente, a emigração. Mas quantos sobram hoje, também?! Como cantou, há quase meio século, o poeta Pedro da Silveira 18, “É uma família morta, a de meu pai: / uma família morta, / de ausentes e mortos. / Na Europa só eu resto: os outros / desertaram a casa, / abalaram, são hoje / nos que não sei, / americanos, filipinos, cubanos / e brasileiros, / venezuelanos / e uruguaios / - primos dispersos, / parentes / entre si ignorados.”

* Investigador da história das ilhas das Flores e do Corvo.
1 Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra, Livro VI, p. 334.
2 Espelho Cristalino, p. 541.
3 Gaspar Frutuoso, ob. cit., VI, p. 346.
4História Insulana, p. 483.
5 João Augusto da Silveira, Anais do Município das Lajes das Flores, C. M. de Lajes das Flores, 1970, doc. 6, p. 127.
6 Sobre este assunto leia-se Pierluigi Bragaglia, História dos Lacticínios da Ilha das Flores. Perfil Histórico do Pioneirismo Associativo da Ilha das Flores e da Produção e Exportação dos Seus Lacticínios no Séc. XX, C. M. de Lajes das Flores, 1997.
7Joseph e Henry Bullar, Um Inverno nos Açores e um Verão no Vale das Furnas (tradução de João Hickling Anglin), Instituto Cultural de Ponta Delgada, 2.ª edição, 1986, p. 264.
8 Pierluigi Bragaglia, Roteiro dos Antigos Caminhos do Concelho de Lajes das Flores, Açores, C. M. de Lajes das Flores, 1984, p.122.
9 Joseph e Henry Bullar, ob. cit., p. 269.
10 Francisco A. N. P. Gomes, A Ilha das Flores: da Redescoberta à Actualidade (Subsídios para a sua História), C. M. de Lajes das Flores, 2.ª edição, 2003, p. 130.
11 João Augusto da Silveira, ob. cit., p. 61.
12 Relatório do Governador Civil ao Ministério do Reino (1857), in O Fayalense, ed. de 24.06.1857.
13 O Fayalense, ed. de 19.05.1889.
14 Ibidem, ed. de 21.07.1889.
15 A Ilha das Flores, ed. de 10.05.1891.
16 Ibidem, ed. de 20.04.1891.
17 O Occidental, ed. de 05.06.1897
18 Sexto dos Romances Incompletos, in Sinais de Oeste, Coimbra, 1961

O Inventário do Património Imóvel do Concelho das Lajes das Flores
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Flores. Lajes
Inventário do Património Imóvel dos Açores
Última actualização em 2008-09-18