João Vieira Caldas*

A casa tradicional do concelho das Lajes das Flores, sobretudo a casa rural, não evidenciando clareza nem unidade tipológica, não deixa por isso de ter uma arquitectura característica.

As casas de habitação do território lajense inserem-se, de um modo geral, em dois dos três tipos fundamentais de casa rural existentes nos Açores – a casa linear e a casa de cozinha dissociada – mas são pouco uniformes no contexto de cada tipo. A casa linear corresponde a uma construção rectangular, sobre o comprido, cujos compartimentos se dispõem em linha. Só o volume do forno aparece, por vezes, como uma excrecência ao rectângulo. Predominam as habitações de um piso, algumas com uma loja inferior semienterrada por aproveitamento do desnível do terreno, embora também apareçam casas lineares com dois pisos bem destacados.

A casa de cozinha dissociada é constituída por um corpo rectangular de um ou dois pisos, geralmente mais curto que o da casa linear, mas a cozinha, em vez de estar alinhada, constitui um segundo corpo rectangular, mais pequeno, que encosta ao tardoz do corpo principal formando um “L”. As casas rurais mais abastadas obedecem quase sempre a este tipo de planta embora sejam, evidentemente, maiores e possuam uma organização interna mais complexa. Quando estão implantadas em declive, sejam das mais rudimentares ou das mais elaboradas, fica o corpo principal, com dois pisos, na parte mais baixa, enquanto o corpo da cozinha, de um só piso, assenta directamente no terreno sendo implantado ao nível do piso superior do corpo dos quartos.

Sejam casas lineares ou de cozinha dissociada, tenham dois pisos em parte ou no todo, têm sempre a habitação propriamente dita no piso superior e as lojas no piso (ou meio piso) inferior.

Deste ponto de vista, a casa do concelho das Lajes (e da ilha das Flores em geral) não se individualiza da casa de outras ilhas e até seria fácil relacioná-la com a habitação tradicional do Faial, anterior ao terramoto de 1998, com a qual mantinha afinidades evidentes.

O que é que distingue então a casa das Lajes das Flores?

É a delicadeza, o cuidado posto na elaboração dos pormenores, uma certa nobreza que emana por vezes dos acabamentos mesmo nas habitações mais rudimentares. São, portanto, características comuns a todos os tipos de casa independentemente da dimensão e das possíveis manifestações exteriores de riqueza ou de poder. Algumas destas características têm tendência para desaparecer com a vaga transformadora que tem assolado as Flores nos últimos anos, nomeadamente aquelas que exigem maiores cuidados de conservação, como os pavimentos com empedrados decorativos constituídos por pequenos seixos que eram frequentes nos acessos e faixas muradas junto às fachadas das habitações e, sobretudo, os bem executados caixilhos de madeira pintada, com vidros subdivididos, que ornavam portas e janelas de todas as casas. Mais raras, mas ainda com alguma presença, são as guardas de madeira pintada que protegem as varandas das casas abastadas de dois pisos.

Outras características, devido à sua natureza construtiva, têm mais facilidade em conservar-se, ainda que com alterações, mesmo quando as habitações foram muito transformadas ou se encontram em ruínas. Estão neste caso as cornijas em cantaria que suportam os beirais e rematam as fachadas parecendo, nas casas mais pequenas, esmagá-las sob o seu peso. Por vezes a sensação de fragilidade é compensada pelos cunhais largos e atarracados também construídos com pedra aparelhada.

Chamam também a atenção, sobretudo nas habitações mais rudimentares, as janelas com grandes lintéis e aventais em relevo, por vezes contracurvados, que imediatamente conferem nobreza à mais humilde construção. Este uso de cantarias “pesadas” predomina em construções do século XVIII, embora possa ser um hábito construtivo iniciado no século XVII e prolongado até ao século XIX.

Fenómeno peculiar na ilha das Flores, embora mais recente, é o aparecimento de habitações que parecem ter ficado permanentemente por acabar. São construídas em alvenaria de pedra, como todas as outras, com as molduras dos vãos, os cunhais e, eventualmente, as cornijas em cantaria. O acabamento das cantarias e o ressalto de transição para a alvenaria das paredes provam que estas casas, à data da sua construção, estavam destinadas a ser rebocadas e caiadas à excepção dos referidos elementos em ressalto. A regularidade e a pouca grossura de molduras e cunhais remetem-nas para uma cronologia situada entre finais do século XVIII e os princípios do século XX. Muitas têm também sacadas sem qualquer tipo de guarda nem vestígios de alguma vez a terem tido. Parecem filiar-se, portanto, na tradição construtiva local que privilegiava os acabamentos de qualidade, mas os proprietários não as terão podido concluir por razões pessoais ou conjunturais, tais como dificuldades económicas, escassez na ilha dos materiais ou dos executantes necessários, uma possível vaga de emigração, ou todos estes factores em conjunto. A verdade é que estas casas foram assim ficando e acabaram por ser habitadas com a mesma naturalidade com que se habitaria qualquer outra. Tanto mais que a mancha negra da pedra vulcânica com que foram edificadas aproxima-as daquelas que, mais rústicas ou mais antigas, foram concebidas à partida para ficarem com a alvenaria de pedra aparente.

Própria da habitação tradicional das Flores, e muito particularmente no concelho das Lajes, é ainda a capacidade de absorver e combinar influências de diversas ilhas açorianas ou mesmo de outras regiões do território português. É, talvez, o isolamento em absoluto e no seio do próprio arquipélago que explica a facilidade com que se absorvem contribuições vindas do exterior e como, por vezes, se conservam soluções raras ou já desaparecidas nos locais de origem.

Essa capacidade de absorção reflecte-se, por exemplo, no aparecimento de grandes chaminés de “mãos postas” que parecem importadas directamente da Graciosa e aplicadas a casas cuja expressão nada deve àquela ilha. Dessas chaminés não há nem sombras no Faial, ilha que intermediou a maior parte dos contactos entre as Flores e outros territórios. Mais estranho ainda é o aparecimento de “fornos pendurados”. São fornos de pequena dimensão parcialmente encastrados nas empenas das habitações e com o volume restante em consola que praticamente não têm paralelo no resto do arquipélago, antes lembrando soluções semelhantes na Madeira ou no Continente.

A síntese da capacidade de experimentar soluções vindas do exterior com a preocupação e o gosto pelos bons acabamentos, nomeadamente pelas carpintarias de qualidade, é bem exemplificada pela construção de “camarotes”, de que ainda restam vestígios numa casa arruinada da Fajãzinha. É uma solução muito semelhante à das “camaretas” encontradas por E. Veiga de Oliveira na Póvoa do Varzim. Trata-se de uma armação de madeira construída no interior da sala de entrada, encostada à empena da casa, que substitui e simplifica o sistema de duas pequenas alcovas, com pouco mais que uma cama em cada uma, comum em casas tradicionais de diversas regiões do Continente. É como se fosse um largo roupeiro ocupando toda a face interior da empena com duas aberturas em posição simétrica. Cada abertura dá acesso a um dos dois colchões individuais dispostos “pés com pés” sobre um estrado elevado. Ao meio da estrutura ainda se conseguiu embutir um nicho rectangular, pouco profundo, com um conjunto de prateleiras abertas para a sala.

A conservação do património arquitectónico do concelho das Lajes, particularmente no que se refere à habitação tradicional, passaria por, em simultâneo com o melhoramento e modernização das condições de habitabilidade, desenvolver a capacidade de restauro dos pormenores formais mantendo a qualidade dos acabamentos. Só assim será possível preservar uma expressão arquitectónica que, em combinação com as variantes tipológicas que revelam a grande capacidade de adaptação dos modelos exteriores às características do território lajense, confere uma especificidade reconhecível à habitação vernácula deste concelho.

Bibliografia

AAVV, Arquitectura Popular dos Açores, Lisboa, Ordem dos Arquitectos, 2000.

* Licenciado em Arquitectura. Mestre em História de Arte. Docente no IST. Membro do ICIST.

O Inventário do Património Imóvel do Concelho das Lajes das Flores
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A casa tradicional do concelho das Lajes
Flores. Lajes
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Última actualização em 2008-09-18