Produção cerâmica e estruturas edificadas na ilha do Faial
 

Rui de Sousa Martins*

1. A Cerâmica na Ilha do Faial ao longo dos séculos XVIII e XIX

1.1. Produção artesanal corporativa setecentista

Na ilha do Faial (173,1 km2), o artesanato corporativo de cerâmica englobava duas classes de oficiais mecânicos, a dos telheiros e a dos oleiros, cuja actividade era regulamentada pelas posturas municipais. O regimento e a taxa das obras dos telheiros faialenses é uma das raras expressões da actividade destes artífices na regulamentação camarária açoriana, revelando a importância central desta arte numa ilha de forte sismicidade 1.

1.1.1. Telha de padrão bem cozida

Não conhecemos nem o número de telhais nem a sua distribuição, nem sequer o número de telheiros, no Faial de setecentos. No entanto, em defesa dos interesses do povo, a Câmara da Vila da Horta controlava não só as dimensões e a qualidade da telha, como também o preço de cada milheiro.

Os telheiros eram obrigados a ter formas de ferro, iguais ao padrão da Câmara, estando proibidos de moldar telhas mais pequenas, rentabilizando assim a matéria-prima, mas prejudicando o comprador. A fim de garantir a dureza, a resistência, a friabilidade e, sobretudo, a impermeabilidade da telha, exigia-se que fosse bem cozida, sob pena de sanções 2.

1.1.2. Regimentos dos oleiros e taxas das obras

As posturas da Câmara da Horta procuravam garantir que nenhum oficial de oleiro tivesse tenda pública, sem ter sido examinado pelo juiz do ofício, e que o processo de produção e reprodução das olarias se baseasse nas relações de autoridade mestre-aprendiz, sedimentadas, preferencialmente, nas relações de parentesco pai-filho 3. Para conhecimento do povo, os oficiais examinados deviam ter uma cópia do regimento de ofício e o rol de taxa das obras 4.

O juiz do ofício nomeava um oficial de oleiro para incorporar obrigatoriamente as procissões da Câmara.

Pelo facto de comprarem com o seu dinheiro a matéria-prima, importada, muito provavelmente, da ilha de Santa Maria, os oleiros faialenses estavam isentos de pagar fiança à vereação.

A qualidade da louça era controlada à boca do forno pelo juiz do ofício, chamado para o efeito, e que recebia a quantia de dois vinténs 5.

Na centúria de setecentos, a louça de ir ao lume assumia especial importância, sendo o preço das peças especificado no rol de taxa, onde se registam vários tipos de recipientes, cada um deles com diferentes capacidades: panelas (de cinco canadas, de três canadas e de canada e meia), púcaras (de três quartilhos e de quartilho e meio), caldeirões (de três canadas, de canada e meia, de dois quartilhos e meio e de quartilho e meio) 6.

"Os pobres e demais povo" sentiam-se prejudicados por nem sempre encontrarem louça à venda, o que levou a Câmara, em 1753, a notificar os oleiros para não venderem mais de cinco tostões de louça a cada particular, duzentos réis a cada mosteiro de religiosas e mil e quatrocentos réis a cada convento de religiosos e Padres da Companhia 7.

1.2. A cerâmica faialense no século XIX

Ao longo do século XIX, e com especial incidência na segunda metade, o processo de autoconhecimento da realidade portuguesa traduziu-se, nos Açores, numa abundante produção de relatórios, estatísticas e descrições de aspectos locais considerados relevantes, assim como na realização de grandes exposições que revelaram e valorizaram os produtos naturais e industriais das ilhas. Telheiros e oleiros do Faial estão presentes, de forma mais ou menos precisa, nas inúmeras estatísticas oitocentistas. Porém, na importante Exposição Distrital da Horta, realizada em 1878, figurou apenas uma "amostra de barro de telha comum, da freguesia de Pedro Miguel", exibida por Manuel Francisco de Andrade 8.

No âmbito das imposições sobre o consumo de géneros vendidos a retalho, a Câmara da Horta recebia uma percentagem sobre a telha, louça, barro e tijolos, segundo o preço da sua venda no concelho. Para o ano económico de 1867-1868, esta imposição era de 4 por cento 9.

1.2.1. A proliferação dos telhais e da carência da telha

Em 1845, na freguesia de Castelo Branco, situada na costa sul da ilha, laboraram cinco oficinas de telha, quatro das quais fundadas entre 1801 e 1831: José Dutra da Costa (1801) – 6 operários; Manoel Silveira de Freitas (1801) – 7 operários; Manuel da Silveira Alvernáz (1806) – 6 operários; José Dutra de Soito (1826) – 6 operários; Thomás Francisco Laranjo (1831) – 5 operários 10.

No entanto, a produção local não satisfazia a procura, obrigando a ilha a recorrer à importação de telha: 355.000 quilos, no valor de 870$500, em 1872 11 e 185.000 quilos, no valor de 925$000, em 1873 12.

1.2.2. A dispersão e a decadência das olarias

A produção artesanal de louça de barro concentrava-se na freguesia da Conceição, a norte da então vila da Horta, onde em 1821 trabalhavam nove artífices 13. Contudo, em 1871, a actividade dos oleiros já se tinha dispersado, laborando três oficinas na Conceição e duas na Matriz 14.

A secagem das peças verdes, no exterior das olarias, dificultava o trânsito urbano e, em 1875, os oleiros António Vieira de Lima, Venâncio José Tavares e João Jacinto Medeiros foram advertidos pela Câmara para não ocuparem a rua com a louça a secar. Os artífices reclamaram, afirmando que desta forma não poderiam continuar a exercer a sua actividade, tendo sido autorizados a colocar apenas uma fiada de peças junto à parede da oficina 15.

Em 1871, a louça de barro era um dos produtos à venda nas dez lojas de secos existentes nas três freguesias da cidade: sete na Matriz, duas na Conceição e uma nas Angústias 16.

No referido ano, pela alfândega da Horta foram exportados 5808 quilos de louça de produção local, no valor de 58$500 17.

Mas o Faial continuava a consumir louça de barro importada: 4.563 quilos (1:092$400) em 1872 18 e 68.918 quilos (1:556$700), em 1873 19.

Nas duas últimas décadas de oitocentos, a olaria faialense decaiu e o mapa estatístico da contribuição industrial do concelho da Horta respeitante ao ano de 1884, regista apenas a existência de um forno de louça de barro e de dois oficiais de oleiro 20.

1.2.3. Um projecto de manufactura de cerâmica na cidade da Horta

Ao longo do século XIX, e graças à iniciativa de empresários ou de sociedades, desenvolveram-se projectos de criação de manufacturas de cerâmica, nalguns centros urbanos do arquipélago. Este sistema produtivo inovador caracterizava-se pela concentração das várias produções num engenho, organizado de forma a rentabilizar matérias-primas de diferentes proveniências e a diversificar os produtos, competindo em mercados insulares mais alargados.

No modelo mais elementar, o engenho laborava apenas com argilas açorianas, importadas da ilha de Santa Maria, para tornear louça comum, e extraídas localmente para moldar telha e tijolos de forno 21. Foi precisamente este modelo que se procurou implantar na cidade da Horta, em 1888, quando uma sociedade constituída por Guilherme Augusto Mesquita Henriques e Francisco Leal de Brito Júnior obteve um alvará para estabelecer um engenho de telha, tijolos e louça ordinária, na freguesia da Conceição (Rua da Canada), o centro tradicional da olaria faialense 22.

2 . Cerâmica faialense e estruturas edificadas

Na documentação escrita não encontramos elementos que nos permitam caracterizar os instrumentos de produção utilizados na cerâmica faialense dos séculos XVIII e XIX. Todavia, um projecto de pesquisa antropológica da Universidade dos Açores desenvolvido na ilha, a partir de 1989, possibilitou a recolha de elementos, junto de pessoas ligadas à arte do barro, e a realização de levantamentos fotográficos e topográficos, tendo-se promovido também a reposição de cadeias operatórias 23.

Deste modo, os edifícios e as estruturas técnicas (fornos, eiras de pisar barro…) foram analisados no contexto dos sistemas de produção das diferentes categorias de artefactos.

2.1. Produção de telha e de tijolo de revestimento

2.1.1. Artesanato no Porto da Boca da Ribeira

A partir da década de 20 do século passado, o Porto da Boca da Ribeira (Ribeirinha), um varadouro situado a nordeste da ilha e de difícil acesso por terra, tornou-se um espaço especializado na produção de telha. O barro existente nas proximidades chegou a alimentar a actividade de três fornos, tendo dois deles chegado intactos à década de 80, mas acabando por ser seriamente danificados pelo sismo de 1998.

Em frente à rampa de varagem, foi implantado um telhal, constituído por duas construções especializadas em alvenaria de pedra: um forno e um edifício térreo, de planta rectangular, com porta larga na empena-fachada e cobertura de duas águas em fibrocimento, abrigo de uma eira circular onde se pisava o barro.

1. Forno do telhal da Boca da Ribeira.

O forno, parcialmente enterrado num declive, tem corpo de planta exterior circular e duas câmaras sobrepostas sub-rectangulares (topos côncavos), com as respectivas portas rasgadas na parede anterior, e era abrigado por um telhado longitudinal de duas águas. A câmara de combustão tem porta quadrangular, acima do nível do solo e uma banqueta de pedras, ao longo das paredes, sobre a qual também se enfornava telha. A grelha, de cinco arcos abatidos, apoia-se nos pés-direitos. A câmara de cocção, coberta por abóbada abatida, tem porta rectangular. Perto das extremidades da abóbada, há duas aberturas de tiragem com saída na cumeeira. À direita deste forno, subsistem algumas paredes de um outro, certamente mais antigo e, cerca de 85 metros a norte do telhal, e implantado no mesmo declive, existe um forno isolado, com corpo e câmaras de planta rectangular, portas na parede anterior, coberto por um telhado longitudinal de duas águas. A câmara de combustão tem banqueta interior, porta com arco abatido e grelha de quatro arcos igualmente abatidos. A câmara de cocção tem abóbada abatida, duas aberturas de tiragem na cumeeira e outras duas no eixo transversal da cobertura 24.

2.1.2. Telhal da Grota das Flores

 

2. Forno do telhal da Grota das Flores.

O telhal da Grota das Flores (Ribeira do Cabo), construído na segunda metade do século XIX, por iniciativa de António Inácio Faria, emigrante regressado dos Estados Unidos, deixou de funcionar há muito tempo. Desta unidade produtiva, subsiste o forno e um edifício de dois pisos construído num declive. A fachada anterior do piso térreo, o único que se conserva, tem uma porta a meio e uma janela de cada lado, tendo servido para armazenar e amassar o barro, enquanto no piso superior se moldava e arrumava a telha.

O forno, parcialmente implantado numa barreira, tem corpo e câmaras de planta rectangular com as respectivas portas rasgadas em paredes opostas, sendo coberto
por um telhado de duas águas longitudinal.

A câmara de combustão, com banqueta interior, tem porta rectangular baixa e é coberta por uma grelha de seis arcos abatidos. A câmara superior, de abóbada abatida, tem porta com arco angular e a entrada protegida por dois contrafortes trapezoidais paralelos.

O acesso ao piso superior do edifício e à câmara de cocção era facilitado pelo desnível do terreno.

2.2. Cerâmica de construção e grelhadores moldados no Rosto Alto

No sítio do Rosto Alto (Lombega), freguesia de Castelo Branco, existiram dois telhais, restando do mais antigo apenas as ruínas da casa de fazer telha. Na década de 80, ainda se mantinha em actividade o telhal de Amaro de Sousa Rodrigues (1909-2002), construído no início dos anos 30 (1937?) junto à casa do proprietário, onde se produzia, pela técnica de moldagem manual, telha, tijolo de revestimento para pavimentar fornos de pão, tijolo curvo, para construir os mesmos fornos, e grelhadores de barro para cozer bolo de tijolo.

O telhal é constituído por um conjunto de construções organizadas em dois grupos, articulados por espaços de trabalho exteriores. Do primeiro grupo fazem parte três construções adjacentes: um edifício de armazenar, pisar e moldar o barro; um pequeno forno de grelhadores e de tijolo adossado à empena direita; uma construção adossada à empenha esquerda, com telhado de meia água e porta na fachada principal, abrigando um forno ainda em estudo.

A casa de fazer telha, de planta rectangular e coberta com um telhado de duas águas, abriga uma eira de pisar barro, na metade direita, e tem duas portas a meio da fachada principal, um portal na empena direita e uma outra porta na empena esquerda.

O forno de grelhadores tem corpo e câmaras de planta rectangular, com as respectivas portas em paredes contíguas, sendo abrigado por um telhado de meia água. A grelha de três arcos abatidos e a abóbada da câmara superior, com idêntica forma, foram construídas com tijolo maciço. Este forno tem cinco aberturas de tiragem na cobertura: uma no centro e as restantes nos cantos da abóbada.

3. Casa de fazer telha do Rosto Alto.

O segundo grupo edificado é formado por dois fornos de telha anexos, de tipo descoberto e com diferentes capacidades, construídos de encontro a uma barreira, perto dos quais havia um poço. O forno maior tem corpo e câmaras de planta quadrangular, enquanto o mais pequeno tem planta exterior quadrangular e câmaras circulares. O espaço exterior à porta de alimentação do forno maior é abrigado por uma construção de duas águas. Nos dois fornos, as portas das câmaras, inferior e superior, são rasgadas em paredes opostas e as portas de enfornar não têm lintel. As grelhas são de arcos abatidos, sendo ainda visíveis os quatro arcos do forno quadrangular.

2.3. Produção múltipla de cal e cerâmica na freguesia das Angústias

Ao longo do século XIX, a Horta consolida o seu papel de escala da navegação intercontinental, o que originou uma forte concentração de actividades comerciais, artesanais e industriais no extremo sul da sua larga e acolhedora baía 25. Este processo inovador, centrado na freguesia de Nossa Senhora das Angústias, intensificou-se a partir de 1876, devido à construção da doca, e foi liderado pela casa Dabney, até à década de 60 e, posteriormente, pela casa Bensaúde 26. Neste contexto de mudança, a indústria da cal com pedra importada do continente, assume importância significativa e o seu desenvolvimento relaciona-se com duas inovações técnicas: o uso de um combustível importado, o carvão mineral (ulha), e a construção de fornos de laboração contínua.

Na freguesia das Angústias, assistir-se-á, ao longo do século XX, ao aparecimento de unidades industriais que associam hierarquizadamente a produção de cal, telha, tijolo e louça. A cal, a telha e o tijolo, além de complementares, pertencem à mesma categoria de materiais de construção visto serem inorgânicos e artificiais 27. Numa ilha extremamente sísmica, a produção local destes bens permitiria uma resposta mais rápida e mais barata às necessidades de reconstrução.

O torneamento da louça, embora subsidiário, alargava a actividade cerâmica, rentabilizando barros importados e suprindo as carências do mercado local e das ilhas próximas, cronicamente dependentes de centros produtores mais distantes.

2.3.1. A Indústria do Monte das Moças

Em 1864, José Nestor (Ferreira Madruga) obteve o apoio condicional de José do Canto (1820-1898) 28, morgado micaelense possuidor de extensas propriedades no Faial e no Pico 29, para poder construir um forno de cal na Canada do Porto Pim (actual Estrada Príncipe Alberto de Mónaco), tendo recebido o respectivo alvará do Governo Civil no ano seguinte 30.

Em 1926, este forno ainda laborou e, ao seu lado, foi construído um sofisticado forno de cerâmica de cujo funcionamento não conseguimos obter informações. A observação de fotografias da década de 40 mostra que estes fornos se integravam num conjunto edificado mais vasto, do qual são os últimos testemunhos: três edifícios de armazenamento, dos quais um era coberto com telhado de meia água e os restantes com telhados de duas águas.

Os dois fornos, de corpos adjacentes, foram construídos contra um declive e têm planta exterior de contorno basicamente rectangular, ficando o forno de cal num plano mais recuado.

4. Fornos do Monte das Moças.

O espaço fronteiro às paredes anteriores, onde se situam as portas de alimentação, era abrigado por um grande edifício de meia água, igualmente desaparecido.

O forno de cal, de secção circular, tem porta em arco de volta perfeita e o interior revestido de tijolos maciços prensados, alguns dos quais exibem marcas (FCD, FIE, O FISH LOURES). A boca deste forno é rodeada por um murete e circundada por estreito passadiço.

O forno de cerâmica tem duas câmaras de planta circular, com as respectivas portas em paredes contíguas. A câmara de combustão tem porta com arco de volta perfeita, na parede anterior, sendo coberta por uma grelha plana de cinco arcos perfeitos e respectivos seguintes, verticais ao eixo da entrada e apoiados na base das paredes laterais. A câmara de cocção tem porta em arco abatido na parede lateral direita e uma abóbada em cúpula. Na parte posterior desta câmara há um corredor interno curvo, com porta rectangular à direita do forno.

O processo de cozedura era controlado por um sistema regulador de tiragem e aquecimento, constituído por condutas rectangulares de calibre diferente, existentes no interior das paredes, partindo da câmara de combustão e comunicando com aberturas nas fachadas, na câmara de cocção, no corredor e, provavelmente, na cobertura.

Os gases quentes produzidos na câmara de combustão aqueciam as paredes do forno que funcionava, parcialmente, como uma mufla.

Este forno é único nos Açores e carece de urgentes medidas de protecção e recuperação.

2.3.2. A Indústria do Pasteleiro

Em 1896, José Nestor Ferreira Madruga investe novamente na produção de cal, construindo um forno no lugar do Pasteleiro (Angústias), situado na costa sul da ilha e habitado tradicionalmente por pescadores 31. No princípio do século XX, esta actividade seria retomada e desenvolvida pelo influente médico, político e empresário faialense, Manuel Francisco Neves Júnior (1870-1952), proprietário de prédios e de uma casa de veraneio no aprazível sítio.

A 31 de Agosto de 1926, o Faial foi devastado por um sismo de forte intensidade. A recuperação da ilha impôs o recurso imediato a grande quantidade de materiais de construção, o que motivou Manuel Neves a reanimar uma indústria de cal e telha que instalara junto à sua casa do Pasteleiro.

Na década de 40, o conjunto edificado englobava um grupo de construções destinadas à produção de cal (dois fornos, alpendres, armazém) e um outro relacionado com a produção de telha e de louça (forno, secadores, olaria e poço). Esta indústria conseguiu manter-se até ao início dos anos 60, mas só os monumentais fornos de cal existiam ainda em 1992, tendo acabado também por ser demolidos.

Os dois fornos de cal adjacentes foram construídos numa grande estrutura de alvenaria de pedra, implantada numa barreira, o que facilitava o acesso às bocas situadas num plano superior.

O corpo dos fornos era de planta exterior rectangular e as caldeiras, de secção circular, com diâmetros diferentes, tinha cinzeiro e portas em arco quebrado, situadas na parede anterior, de acentuada inclinação, sendo o espaço exterior abrigado por um grande coberto de meia água. O forno da direita, o de maior diâmetro, era o único a funcionar na década de 20.

Nos anos 40, a indústria passa a ser administrada por António Lucas Goulart, enfermeiro do Dr. Manuel Neves, alarga-se à produção de cerâmica e contratam-se oleiros micaelenses, em Vila Franca do Campo, que cozem a louça no forno da telha 32.

Em 1960, as instalações foram adquiridas por uma sociedade de seis irmãos da família Furtado Cardoso que, inconformados com as características técnicas do sistema produtivo do Pasteleiro, decidiram montar uma fábrica de materiais de construção na mesma freguesia.

2.3.3. A Nova Cerâmica Açoriana

A Nova Cerâmica Açoriana, propriedade dos irmãos Furtado Cardoso, foi instalada em Santa Bárbara, num edifício térreo de 4200 m2 de área coberta, começando a laborar em 1962. A fábrica tinha três fornos: um para cal, com 280 toneladas de capacidade; um outro que cozia 19000 telhas; e um terceiro para cozer loiça 33.

A cerâmica de construção (telhas, tijoleira, tijolo curvo, tijolo decorativo) era produzida com auxílio de máquinas eléctricas Costa Nery (amassador, fieira e ventiladores), enquanto a louça era torneada numa roda mecânica por oleiros vilafranquenses contratados em São Miguel. A fábrica produziu igualmente cerâmica artística, pintada por Manuel Duarte que emigrou mais tarde para os Estados Unidos.

A Nova Cerâmica Açoriana deixou de laborar em 1974 e as suas instalações acabaram por ser utilizadas como armazém por empresas de construção civil.

3. Nota final

Os artefactos cerâmicos foram sempre um dos suportes materiais da vida social faialense, tendo sido importados quer de outras ilhas do arquipélago quer de centros produtores europeus e americanos. Porém, no século XVIII, já a arte cerâmica estava solidamente implantada na ilha do Faial, na sequência de estratégias de exploração das argilas locais, para modelagem de telha e tijolo, e de importação de argilas da ilha de Santa Maria para torneamento de louça.

Enquanto as olarias se estabeleceram inicialmente na periferia norte da Horta, os telhais concentraram-se em áreas campesinas, a nordeste (Ribeirinha), a sul (Castelo Branco) e a sudoeste da ilha (Ribeira do Cabo), instalando-se na proximidade dos barreiros e em lugares onde existem cursos de água.

A partir dos finais do século XIX, e depois de uma tentativa de organização manufactureira de telha e de louça, assistir-se-á à criação sucessiva de três indústrias de materiais de construção que associaram hierarquicamente a produção múltipla de cal e de cerâmica (telha, tijolos, louça), na periferia sul da cidade da Horta, espaço dinamizado pelo processo de construção e pela actividade do importante porto de escala das navegações intercontinentais. A intensiva produção de cal e telha destinava-se não só a abastecer o mercado local, mas também o espaço interinsular, dominado pela Horta, permitindo igualmente respostas rápidas e mais económicas às necessidades de construção e reconstrução derivadas dos fenómenos sísmicos.

O estudo comparado das unidades produtivas de cerâmica permitiu, entre outros aspectos, a caracterização de conjuntos formados por diferentes categorias de construções e de espaços exteriores de circulação e de trabalho, e a análise do modo como se articularam com a área envolvente. As características de cada conjunto construído são indissociáveis dos processos técnicos e do sistema de produção e só podem ser compreendidas no contexto da complexa e singular formação sociotécnica 34 de cerâmica faialense e das relações estabelecidas com outros centros cerâmicos do arquipélago e do continente português.


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* Professor de Antropologia Cultural da Universidade dos Açores.
1 Martins, 1999: 66-69.
2 Serpa, 1916: 501 (1719).
3 Idem: 561.
4 Idem: 603.
5 Idem: 561, 562.
6 Idem: 602.
7 Meneses, 1993-1995, 2: 137. Agradeço ao Doutor Avelino de Meneses ter-me facultado amavelmente a consulta da transcrição que efectuou da vereação de 11 de Março de 1753 da Câmara da Horta.
8 O Fayalense, Horta, 16 de Junho de 1878: 3.
9 Relatório…, 1867: 9, 10. Documento amavelmente cedido pela Doutora Fátima Sequeira Dias.
Esta renda camarária, depois de apregoada, era arrematada por particulares (1875-77). Ribeiro, 1996: 73.
10 Relação…, 28 de Abril de 1846. Documento amavelmente cedido pela Doutora Fátima Sequeira Dias. Ribeiro, 1996: 72. Dias, 1998: 290.
11 Almanak do Fayalense para 1874. Horta, Typ. Hortense, 1873: 36.
12 Almanak do Fayalense para 1875. Horta, Typ. Hortense, 1874: 144.
13 Silveira, 1821: mapa n.º 3.
14 Macedo, 1871, 3: 180.
15 Ribeiro, 1996: 73.
16 Macedo 1871, 3: 179.
17 Idem: 182.
18 Almanak do Fayalense para 1874. Horta, Typ. Hortense, 1873: 36.
19 Almanak do Fayalense para 1875. Horta, Typ. Hortense, 1874: 144.
20 O Fayalense, Horta, 15 de Novembro de 1885.
21 Martins, 1999: 70, 71.
22 Ribeiro, 1996: 73.
23 Martins, 1999: 14-19.
24 Não sabemos se este forno pertence ao telhal acima descrito.
25 Costa, 1993-95, 1996-97. Dias, 1998.
26 Costa, 1991-92. Afonso, 1995. Dias, 1995. Leite, 1995.
27 Materiais..., 1: 2.
28 B.P.P.D., Livraria José do Canto, carta de José A. Terra Berquó, 1864. Out. 15. Inventário... 1998: 36 (135).
29 Sousa, 1982: 35, 36.
30 Ribeiro, 1994: 55.
31 Macedo, 1871, 3: 49.
32 Agradeço ao Senhor Machado Oliveira o valioso depoimento escrito sobre António Lucas Goulart.
33 Elementos amavelmente fornecidos pelo Senhor Manuel Furtado Medeiros Cardoso em 1989.
34 Formação sociotécnica de cerâmica designa a disposição espacio-temporal das classes de cerâmica e dos respectivos modos de produção a nível da ilha e do
arquipélago. Martins, 1999: 83.

O Inventário do Património Imóvel do Concelho da Horta
Património Vegetal
Breve Esboço Sobre a História do Faial
Horta - Uma Leitura da sua Evolução Urbana
A habitação Rural do Concelho da Horta - Casas "Populares" e Casas "Senhoriais"
Produção Cerâmica e Estruturas Edificadas na Ilha do Faial
Faial. Horta
Inventário do Património Imóvel dos Açores
Última actualização em 2006-05-02