Património vegetal
 
Luís M. Arruda*

No tempo das descobertas, as ilhas dos Açores, em geral, estariam cobertas por vegetação densa e no Faial, em particular, dando atenção ao seu nome e seguindo a tradição, existiriam muitas faias. Gaspar Frutuoso, Diogo das Chagas, António Cordeiro e outros, de modo breve, fazem referência a essa vegetação.

No Faial, à semelhança do que aconteceu nas restantes ilhas do arquipélago, foi possível identificar, em altitude, pelo menos três estratos de vegetação: o mais inferior, da comunidade costeira, até cerca de 100 m, o intermédio, até cerca de 500 m, e o mais superior, da floresta arbustiva densa de louro e cedro, que na terminologia científica é conhecida como da floresta de "laurissilva", ou de louro. Actualmente, a comunidade vegetal ao longo da costa, em particular nas falésias rochosas, é esparsa e caracterizada por um ritmo de sucessão lenta apenas alterado pela erosão marítima ou pelas erupções vulcânicas com correntes de lava ou depósitos de piroclastos. Aí domina, geralmente, a gramínea conhecida, vulgarmente, por bracel-da-rocha (Festuca petrea), mas também ocorre o trovisco (Euphorbia azorica), ambas endémicas.

Mas, a diversidade vegetal acumulada durante milhares de anos, até ao povoamento, no estrato intermédio, que incluía espécies endémicas como Carex hochstetterana, Scabiosa nitens e Picconia azorica (pau-branco), foi, nos últimos 500 anos de acção do homem, substituída por espécies cultiváveis.

As madeiras foram, desde cedo, aproveitadas para exportação e para as construções, civil e naval. As queimadas e os arroteamentos começaram desde logo a propiciar novos espaços destinados à cultura do trigo, a primeira que foi praticada de modo extensivo. Quando esta cultura começou a declinar foram introduzidos, sucessivamente, o inhame, a batata-doce e frutos vários, com predomínio dos citrinos, no século XVI, o milho, no século XVII e a batata comum ou inglesa, no século XVIII.

No século seguinte aconteceu um aumento significativo da área de pastagens relacionado com o aparecimento de novas espécies de bovinos e, no século XX, a pecuária tornou-se o principal recurso económico do Faial.

Acima dos 500 m de altitude a vegetação natural, a floresta arbustiva densa de louro e cedro (Juniperus brevifoia), incluía esta espécie e a urze (Erica azorica), endémicas dos Açores, e o louro (Laurus azorica), endemismo macaronésico.

Os ecossistemas destas florestas da denominada zona de nevoeiro, beneficiando de precipitação e humidade do ar elevadas desenvolvem-se com sucesso, tornando-se ricos em diversas espécies de musgos que atapetam todos os tipos de substratos. Os troncos das árvores estão geralmente revestidos por esses musgos, espessos, frequentemente colonizados por fetos. As plantas vasculares crescem geralmente formando comunidades densas, tipo mosaico, de acordo com a topografia do terreno gerada pelos vários edifícios vulcânicos e pelos vales de erosão.

A esta altitude a actividade humana foi feita sentir, principalmente durante o século XX, consequência da procura de madeira, para combustível e para construção, e das arroteias para instalação de novas pastagens e florestas de exóticas, destinadas à produção intensiva de madeira, reduzindo, consideravelmente, a área da vegetação natural. As florestas nativas foram ainda segmentadas em resultado da abertura de vias de comunicação.

A paisagem agro-silvo-pastoril resultante ficou então organizada em função da altitude. Passaram a existir, em traços gerais, um andar de culturas até às cotas de 350 a 450 metros, outro silvo-pastoril até 800 m e, a cotas superiores, os matos espontâneos remanescentes. Hoje em dia, as pastagens ocupam a superfície da ilha praticamente desde o litoral até aos matos espontâneos.

Muitas das espécies de plantas introduzidas para cultivo, após terem escapado das culturas, tornaram-se pelo menos subespontâneas e deste modo presentes na ilha no seguimento de uma introdução não intencional. Mais, as espécies botânicas introduzidas nos jardins nem sempre se limitaram a esses espaços nem aos fins para que haviam sido escolhidas.

Muitas delas também escaparam à cultura e propagaram-se de tal modo, em número e em extensão, que passaram a dominar algumas comunidades vegetais naturais, tornando-se uma ameaça pelo menos para a floresta de louro e cedro e para as populações de Faia. Servem de exemplos os casos: (a) da hortênsia (Hidrangea macrophyla), uma espécie originária da China, introduzida em meados do século XIX, cuja flor tem dado beleza e cor às sebes vulgarizadas pelas propriedades rústicas e bermas das estradas, tornando-se um elemento marcante da paisagem que tem justificado o adjectivo azul dado à ilha; (b) da roca-de-velha ou conteira (Hedychium gardnerianum), proveniente dos Himalaia, introduzida também em meados do século XIX, de sementes facilmente disseminadas pelos pássaros, que passou a controlar, por completo, o seu novo habitat, tornando-se uma ameaça maior para a floresta de louro e cedro; e (c) do incenso (Pittosporum undulatum), oriundo do sudoeste da Austrália, introduzido há muitos anos para ser usado em sebes de protecção aos pomares de laranjeiras, que, devido à sua disseminação espontânea e ao crescimento folhoso maior do que o de muitas árvores indígenas, levou à transformação do património paisagístico faialense. Os terrenos abandonados são rapidamente invadidos por estas espécies.

Juntamente com as ornamentais, outras têm sido introduzidas com fins comerciais, especialmente para a produção de madeira. A mais importante foi a criptoméria (Cryptomeria japonica), introduzida há cerca de cem anos, que tem a sua origem na China e no Japão. Usada inicialmente para sombra e para cortinas de abrigo, adaptou-se, facilmente, ao clima e o seu crescimento rápido indicou-a como uma solução para a reflorestação, particularmente acima dos 300 m de altitude, alterando profundamente a paisagem.

Cerca de metade da área florestal do Faial está ocupada por esta árvore. Muito abundante na estrada para a Caldeira e em matas pela ilha, ocorrendo de modo subespontâneo, tornou-se uma ameaça para o património vegetal endémico porque apenas algumas poucas espécies da floresta de louro e cedro conseguem sobreviver debaixo do forte ensombramento dos seus povoamentos adultos.

O pinheiro (Pinus pinaster), pouco utilizado na florestação, foi introduzido no mistério do Capelo, onde parece desenvolver-se bem. O povoamento é pouco denso o que permite a sobrevivência de espécies indígenas.

Na reflorestação da ilha, preocupação antiga no Faial, pois já em 1783 a Câmara Municipal recomendava a plantação de álamos nalguns terrenos baldios, devem ser considerados os inconvenientes das monoculturas, nomeadamente, menor resistência às epidemias e empobrecimento da diversidade biológica, e a alteração da paisagem, não obstante a sua importância para a fixação do solo e os interesses económicos e sociais que envolve.

Um olhar pela Horta, em particular feito do mar ou da doca, mostra cerca de duas dezenas de araucárias (Araucaria heterophylla) integradas na paisagem urbana, entre a denominada Relva, nas Angústias, e a rotunda da Avenida 25 de Abril e subindo até à sua parte mais alta. Também fora da cidade esta espécie botânica marca frequentemente, a paisagem como acontece no Capelo. Estes monumentos naturais, que se destacam no horizonte, foram usados para fazer sobressair a dignidade de muitas casas senhoriais e conventos e para assinalar acontecimentos importantes.

Na passagem pela Praça do Infante D. Henrique, chamam a atenção, devido ao seu porte quatro exemplares de palmeira das Canárias (Phoenix canariensis), plantadas na transição dos séculos XIX para XX, e vários de metrosídero (Metrosiderus robusta) que durante duas a três semanas, em Junho, enchem de colorido vermelho esta praça e também a parte contígua da Avenida 25 de Abril, seguidos pelas tamargueiras (Tamarix gallica), conhecidas nas ilhas por salgueiros, bem característicos pelos troncos tortuosos e pela sua resistência à água do mar, frequentes em todo o litoral, colonizando até bem junto da zona entre marés e constituindo, muitas vezes o último povoamento vegetal terrestre. Na Praça da República, junto à Rua Serpa Pinto, as gincós (Ginko biloba) e, marcando as entradas do Lar de S. Francisco, da Estalagem de Santa Cruz e da Cedars House, as cicas (Cyca revoluta), todas fósseis vivos, lembrando os tempos da Era Secundária.

Na parte alta da cidade, na residência Bagatelle, à rua de S. Paulo, encontra-se o que sobra do jardim e da quinta que John Dabney construiu entre 1811 e 1814. Nesta propriedade foram ensaiadas e cultivadas espécies agrícolas, hortícolas, frutícolas e ornamentais, podendo esta actividade ser encarada como uma das primeiras manifestações, nos Açores, do interesse pela introdução, pela permuta e pelo negócio das plantas. A introdução de espécies botânicas nessa área continuou com a instalação das companhias concessionárias da exploração dos cabos submarinos, particularmente de bairros residenciais, que ainda hoje marcam a paisagem. No jardim daquela última residência salienta-se um exemplar de ombú ou bela-sombra (Phytolacca dioica). Um outro exemplar está em terrenos da antiga companhia alemã de cabos submarinos.

Ainda na parte alta da cidade assinalam-se vários dragoeiros (Dracaena draco), todos seculares, espécie considerada endemismo da Macaronésia: (a) cinco exemplares no jardim Florêncio Terra; (b) um na rua Médico Avelar, considerado por Ernesto Goes, em 1994, o maior e o mais velho dragoeiro do país; e (c) outros na Bagatelle, na colónia alemã, na Escola Secundária e na Sociedade Amor da Pátria.

 

O decreto legislativo Regional n.º 28/84/A considera objectos classificados as araucárias, os dragoeiros, as palmeiras e os ombús referidos acima.

Também fora da área urbana da Horta, no Largo Jaime Melo e nas localidades do Cruzeiro e do Varadouro, alguns faialenses construíram casas de regalo e dotaram os logradouros envolventes de espécies botânicas exóticas. No primeiro local, graças à fertilidade do solo e as condições de insolação e humidade, sobressaem o feto arbóreo (Sphaeropteris cooperi), originário da Austrália, e a azálea (Rhododendron simsii), originária da China e da Formosa, que floresce de Outubro até Maio, período em que a natureza está mais pobre de flores. Nos outros dois locais salientam-se as araucárias por entre a paisagem negra do biscoito e verde da vinha.

No Parque Florestal do Capelo sobressaem sequoias (Sequoia sempervirens), pinheiros (Pinus pinaster) e plantas-do-Himalaia (Polygnum capitatum).

Na ilha do Faial ainda se encontram áreas, relativamente extensas, dessas comunidades vegetais nativas únicas, principalmente na Reserva Natural da Caldeira e na Zona de Protecção Especial da Caldeira e Capelinhos.

A presença significativa deste património vegetal endémico justifica a sua protecção por razões genéticas, éticas e estéticas e também porque a sua importância ultrapassa as fronteiras regionais. Protegidas pelo efeito moderador do oceano, a vida nas ilhas Atlânticas foi poupada às glaciações, e por isso ainda é possível encontrar sobre elas relíquias das comunidades biológicas que desde há muito desapareceram dos continentes de onde provieram. Todo o revestimento lenhoso da Caldeira do Faial, pertencente ao Baldio do Concelho, está protegido desde 5 de Junho de 1948, quando a Câmara Municipal da Horta, por proposta da Junta Geral do Distrito, proibiu o corte de árvores e mato em toda aquela zona. As primeiras diligências, da então Sociedade Faialense Protectora dos Animais, para que a câmara da Horta delimitasse zonas reservadas nos mistérios do Capelo e da Praia do Norte datam de 1949.

O Jardim Botânico do Faial, instalado na Quinta de S. Lourenço, local onde, no século XIX, também foram feitas introduções de espécies botânicas exóticas, algumas das quais ainda vivem, a cerca de 2 Km do mar, em linha recta, à altitude média de 105 m, na transição entre a vegetação costeira e a vegetação de altitude média, com aproximadamente 2000 m2 de superfície, foi criado com a finalidade, entre outras, de manter colecções didácticas, atraentes para os visitantes, e úteis para fins científicos.

O interesse pelo estudo das espécies botânicas nos Açores remonta ao século XVIII, quando Michel Adanson escalou o Faial, para repousar, na sua viagem de regresso a França vindo do Senegal, tornando-se, provavelmente, o primeiro naturalista a visitar os Açores. Depois dele muitos outros naturalistas visitaram este arquipélago, em geral, e o Faial, em particular. O entusiasmo dos botânicos pela vida vegetal insular, em particular dos grupos de ilhas isoladas, cresceu especialmente depois da publicação da obra de Charles Darwin, On the Origin of Species by Means of Natural Selection. Desde então a história natural da vegetação dos Açores tem sido objecto de estudo. No seguimento desse interesse pelos estudos botânicos, no século XIX, foram instalados, nos Açores, alguns jardins graças ao empenhamento de individualidades que também pretendiam dotar as suas casas de um aspecto grandioso e até cosmopolita. A Bagatelle, a Quinta de S. Lourenço e até o palacete do Pilar e a villa Maria, no Capelo, podem ser integradas neste contexto.

* Professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Coordenador-geral da Enciclopédia Açoriana.

O Inventário do Património Imóvel do Concelho da Horta
Património Vegetal
Breve Esboço Sobre a História do Faial
Horta - Uma Leitura da sua Evolução Urbana
A habitação Rural do Concelho da Horta - Casas "Populares" e Casas "Senhoriais"
Produção Cerâmica e Estruturas Edificadas na Ilha do Faial
Faial. Horta
Inventário do Património Imóvel dos Açores
Última actualização em 2006-03-28