Horta - Uma leitura da sua evolução urbana
 

José Manuel Fernandes*

Gosto da Horta como de nêsperas! Tinha saudades do que fui, já nem sei bem como, aqui. Todo o imaginado é mais ou menos frustrado quando o realizamos; mas na Horta não, que é excedido. Ao comprido da Rua do Mar desenvolvem-se as casas; sobre a célebre rua única da cidade as travessas que descem da encosta trazem também a sua modesta contribuição de fogos e de trânsito.
Vitorino Nemésio, in O Corsário das Ilhas

Olhada de um ponto de vista geral, vista na panorâmica da Espalamaca ou do Monte da Guia, a cidade da Horta corresponde bem ao modelo da cidade insular de raiz portuguesa, litorânea e de traçado medievo-renascentista, desenvolvida e firmada nas edificações robustas dos séculos XV ao XVIII - com a graciosidade que as arquitecturas dos séculos seguintes, do romantismo polícromo de Oitocentos ao modernismo inovador século XX, lhe souberam acrescentar.

Vila até 1833, povoação de fachada marítima, atlântica, desenvolvida ao longo de uma abrigada enseada, entre a praia e o incompleto cone vulcânico (numa morfologia que evoca Angra na Terceira ou as Velas jorgenses)1, virada aos quadrantes de Nascente e de Sul (ou melhor, de Sudeste), corresponde aparentemente, e quase só, a "povoação da rua única", paralela ao oceano e cortada por várias travessas (a rua longa que vai da praça da República ao Colégio, deste a São Francisco, e daqui ao Forte de Santa Cruz e às Angústias) - que Vitorino Nemésio (O Corsário das Ilhas), Raul Brandão (As ilhas Desconhecidas) ou mesmo Júlio Verne (A Agência Thompson e Comp.) descrevem ou ficcionam.

Mas, numa observação mais detalhadamente analista, do ponto de vista da sua história e génese urbana, a Horta apresenta nuances e diferenças em relação a esta primeira imagem. É muito mais do que uma rua - e não seria, inicialmente, sequer "essa" a rua. O pólo urbano inicial, a sul da Conceição 2, por certo se desenrolou ao redor da matriz, ou melhor, entre esta e a praça cívica, a nascente da igreja e a caminho da praia, de um modo bipolar (na tradição da cidade portuguesa medivo-renascentista) - como a perspectiva do Capitão Edward Wright (1589) 3 e a "Planta das Fortificações..." de 1804 4 balizam cronologicamente e atestam graficamente.

A acreditar nestes registos cartográficos, e confirmando igualmente através do atento calcorrear actual por ruas e caminhos, entre os vestígios de tantas vias e edifícios destruídos em sismos subsequentes, a Horta dos primeiros séculos seria constituída por uma malha proto-urbana, depois urbana, de cinco ruas no sentido nordeste-sudoeste, e de outras cinco no sentido noroeste-sudeste. Seria pois esta a sequência da sua estrutura (nordeste-sudoeste), com os seguintes arruamentos fundadores:

1. O local genérico da Horta: a Torre do Relógio, sobrevivência da Matriz, ao fundo da "rua direita" - à esquerda a fachada Art Deco do Sociedade "Amor da Pátria".

– a rua da Vista Alegre/ladeira da Paiva/travessa Almeida Garrett (ou as antigas canada das Galinhas/ladeira da Matriz) - com a Matriz e a Igreja e Convento de São João;
– a rua Advogado Graça/travessa do Poiso Novo (ou as antigas ladeira de Santo António, travessa da Cadeia/travessa da Glória) - com a Casa de Câmara e o Convento da Glória;
– a rua de São Paulo;
– a rua de São Pedro e travessa da Misericórdia;
– e a rua Dr. Azevedo e a calçada M. Vila, já na entrada do largo do Colégio.

Quanto aos arruamentos no sentido noroeste-sudoeste, seriam os seguintes:
– a rua de São João (que acompanhava a fachada e a cerca do convento homónimo);
– a estreita e curta rua Ten. Aragão (antigas rua do Adro/da Matriz/dos Enjeitados), que ainda hoje desemboca junto ao Império dos Nobres e à Sociedade "Amor da Pátria" – e onde o enfiamento da actual Torre do Relógio (sobrevivente da torre da Matriz) é visível, sendo também visível, do lado oposto, o enfiamento da fachada do Colégio e, mais longe, da dos Franciscanos, comprovando o natural desenvolvimento urbano processado ao longo destas vias;

– as rua da Conceição/alameda Barão de Roches/rua D. Pedro IV/rua E. Rebelo (antigas rua da Praça/Praça do Gado, rua da Glória), com o Pelourinho, a Casa de Câmara e Cadeia, e o Convento da Glória - constituindo esta praça e via, o primeiro lugar central da urbe, local das melhores casas solarengas e da Igreja da Misericórdia;
– a rua Maestro Simaria (convergente com a rua Almeida Garrett, no largo do Bispo D. Alexandre), e enfiando na rua Serpa Pinto, que desemboca no antigo largo do Colégio Jesuíta;
– e a rua Conselheiro Miguel da Silveira, antiga rua confinando com a muralha, e hoje articulada de modo aberto com a avenida marginal, de Diogo de Teive.
 

2. O Convento do Monte do Carmo, obra dos finais do século XVIII, sobranceiro à cidade.

Esta primeva "rede" de vias, desenvolvida ao longo da Ribeira da Conceição, recorda um pouco a génese urbana de Angra do Heroísmo, que em outro estudo procuramos desenvolver 5. Também aqui a fixação inicial pareceu implantar-se naturalmente, na colina ao correr da ribeira (onde os moinhos poderiam produzir pão?), em ruas ou ladeiras paralelas entre si e perpendiculares ao mar, mais facilmente defensáveis ou pelo menos, psicologicamente, mais apartadas da violência das ondas e do ignoto do oceano; numa fase seguinte, também aqui parece ter o povoado em crescente "descido", gradual e cautelosamente, até à "baixa" junto à praia, onde finalmente, na "praça", lugar cívico, surgiram a câmara, o poço de água e a misericórdia. E assim, as ruas sucessivas foram sendo abertas, em sequentes planos paralelos e cruzados entre si. À sua volta, os poucos conventos definiam uma área de influência urbanizadora, marcando ao mesmo tempo a passagem para os espaços das hortas e da ruralidade (com os conventos do Monte do Carmo e dos Capuchos já na periferia noroeste).


3. Um edifício de expressivo mais "chã", possivelmente dos séculos XVI e XVIII, numa das ruas principais da cidade.
 

4. A policromia de Oitocentos: azulejos, persianas, varandas de ferro forjado.
 

5. A direito, um edifício pós-sismo de 1926; à esquerda, o edifício da Caixa Geral de Depósitos, dos anos 1980.

Os limites lógicos desta malha de dez ruas seriam: a sudeste, a praia e a sua muralha; a noroeste, a rua de São João; a nordeste, a passagem em ponte sobre a ribeira, para a Conceição; e finalmente, a sudoeste, o amplo largo triangular do Colégio (depois do Duque de Ávila e Bolama, com a Câmara/Museu), que, qual rossio de passagem ao arrabalde, com o crescimento posterior do núcleo nesta direcção, se tornaria por sua vez num novo lugar central, substituindo a antiga "praça" a nascente (hoje absorvida pela Praça da República).

Só mais tarde, a rua longa e bordejando o mar, em direcção a São Francisco e ao forte de Santa Cruz, se foi erguendo, edificando e consolidando - qual "rua Nova" - entre Seiscentos e Setecentos (veja-se que na gravura de 1589 este arruamento, já marcado, ainda tem uma feição semi-rural, com quintais de um dos seus lados; já na planta de 1804, está plenamente urbanizado, bem como os quarteirões envolventes a noroeste).


6. Fachada do Banco de Portugal, dos anos 1930.
  Embora toda esta possível leitura de um crescimento urbano esteja dificultada pelas sucessivas destruições que sismos e catástrofes naturais e humanas provocaram (como na Praia terceirense ou na Vila Franca do Campo micaelense), parece constituir-se numa hipótese de leitura fundamentada, quer no processo evolutivo dos outros modelos insulares, quer pela verificação geo-morfológica directa.
     
Mas fiquemos antes, e terminando, pela referência à resultante positiva, num tempo longo, destes desastres e destas mudanças, que o folheto editado pela Junta da Freguesia da Matriz nos enumera 6: além dos três ou quatro edifícios de habitação no eixo das ruas Serpa Pinto/Walter Bensaúde/Conselheiro Medeiros, de sólida expressão, cintados com espessa pedra basáltica contrastando com os panos de fachada caiados a branco (e as reixas dos avarandados), há que mencionar as três igrejas conventuais de espectacular fachada virada ao Pico (São Francisco, Colégio e Carmo), além do singelo Forte de Santa Cruz, hoje uma estalagem.  

7. A Assembleia Legislativa Regional dos Açores, dos anos 1980.

Do século XIX ficam-nos o Hospital e os coretos dos jardins e praças, bem como os vários edifícios das colónias europeias para instalação dos cabos submarinos (a alemã, a inglesa, etc.), na viragem do século. Já do século XX, mencionemos os prédios de gosto entre a Arte Nova e o Ecletismo, de tons rosa, verde e creme, erguidos na sequência do sismo de 1926; as peças de equipamento com desenho Art Deco (Banco de Portugal, Escola Primária da Praça da República, Sociedade "Amor da Pátria", a igrejinha da Conceição), dos anos 1930; e o edifício dos Correios, constituindo a frente norte do largo do antigo Colégio, dentro do tipo "Português Suave" dos anos 1940-50. Mais recentemente, dos anos 1980-90, há que mencionar o edifício da Caixa Geral de Depósitos (do arq. Nuno Teotónio Pereira), o da Assembleia Legislativa Regional dos Açores (do arq. Manuel Correia Fernandes) e o do Centro Cultural (recuperação do antigo cinema, pelo arq. José Lamas), além de outras obras contemporâneas de expressão mais corrente ou sitas já nos arrabaldes.

* Arquitecto. Licenciado pela Escola de Belas Artes de Lisboa (1977). Doutorado pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa (1993), onde é professor agregado desde 1999. Professor no Departamento de Arquitectura da Universidade Autónoma de Lisboa (desde 1998). Director do Instituto de Arte Contemporânea, desde 2001.
Publica regularmente artigos, textos e livros sobre arquitectura e urbanismo.

1 Ver FERNANDES, José Manuel - Cidades e Casas da Macaronésia, ed. FAUP /Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, 1996.
2 Cf. BARREIRA, César Gabriel - Um Olhar sobre a Cidade da Horta, ed. Núcleo Cultural da Horta, 1995.
3 Idem, ibidem.
4 "Planta das Fortificações, e Bahias da ilha do Fayal a qual por ordem da Real Junta da Fazenda destas ilhas dos Açores tirou o Sargento Mor do Real Corpo de Engenheiros José Rodrigo de Almeida, em 1804", in arquivo do Gabinete de Estudos Arqueológicos e Engenharia Militar, Lisboa, cota 278/3-44-4 (edição do Instituto Açoriano de Cultura/Câmara Municipal da Horta/Museu Militar dos Açores).
5 Cf. FERNANDES, José Manuel - Angra do Heroísmo, ed. Presença, 1989.
6 Freguesia da Matriz, património Arquitectónico Histórico e Natural, folheto ed. da Junta de Freguesia da Motriz, Horta, s/d.

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Última actualização em 2006-03-29