O Corvo - Originalidade de um Povoado
 

José Manuel Fernandes*

**Aspectos originais por comparação com o restante arquipélago são os que encontramos no Corvo, quer no que respeita à implantação e densidade da sua povoação quer no que concerne às tipologias de habitação que o compõem.

Efectivamente, como excepção ao povoamento habitual nas outras ilhas açorianas, a minúscula ilha do Corvo, que constitui na sua totalidade um concelho distinto e unitário, apresenta um único povoado com uma expressão muito concentrada, situado à beira da costa, no que aproveita para isso um pequeno recesso do litoral, na ponta sul desta ilha/quase ilhéu.

Na maioria das outras ilhas, muito mais extensas, a ocupação e implantação de povoados fez-se tradicionalmente ao longo do chamado "cordão linear de povoamento", localizado um pouco afastado da costa, embora em contacto com esta por acessos espaçados, ficando a maioria das povoações viradas para a estrada de atravessamento, interna e estruturante dos núcleos, e paralela ao oceano - o que fez com que muitas das suas construções estejam "de costas viradas" ao mar.

Ao contrário, a pequena vila do Corvo abre-se claramente sobre o oceano (e olhando a vizinha ilha das Flores), alcandorada numa encosta sobre o pequeno abrigo portuário. As casas estão assim na sua maioria viradas às águas, paralelas entre si e com orientação para os quadrantes meridionais.

Sendo das últimas ilhas objecto de "descoberta" (por volta de 1452), foi lentamente ocupada (na segunda metade de Quinhentos) e o seu povoamento foi de consolidação naturalmente difícil; modernamente, o Corvo só lentamente conseguiu emergir de uma ocupação tradicionalmente tributada por pesados impostos medievalizantes, ao longo do período do liberalismo oitocentista, mercê da nova legislação então implementada. Com alguns surtos de desenvolvimento pontuais (como o gerado pela procura de algas pela indústria micaelense, nos meados do século XX), mas sobretudo por via do emigração para a América, a população corvina, de algumas centenas de almas, conseguiu recentemente alguma afirmação e melhoria económica.

O estudo monográfico A Ilha do Corvo, de Carlos Alberto Medeiros, publicado em 1967, documenta com clareza a especificidade corvina, bem afirmada logo desde o tempo da primeira colonização: o capitão Gonçalo de Sousa, responsável pelas Flores e Corvo, por carta régia de 12 de Novembro de 1548, "... logo mandou para ela [Corvo] seus escravos de quem ele fiava, fazendo um que melhor lhe pareceu cabeça dos outros, que cultivavam a ilha e olhavam por seus gados ..." (in Arquitectura Popular dos Açores, 2000, pág. 525).

Prossigamos com a ajuda da Arquitectura Popular dos Açores: "Outros povoadores se seguiram, talvez mouros e florentinos, ainda no mesmo século [XVI]. Frutuoso, em 1589, indica como constituintes da população da ilha os rendeiros das Flores, os escravos e os mulatos. Diogo das Chagas, no século XVII, refere a vinda de gente da Madeira, da Terceira e do Norte do Continente. Leite de Vasconcelos, baseado em critérios linguísticos, aponta para uma influência de colonos micaelenses ou do Centro/Sul do Continente (cf. Medeiros, 1967).

Como sempre, as fontes para as possíveis origens dos colonos são frágeis e contraditórias, não garantindo relação imediata com os modelos da construção rural. Medeiros, no caso do Corvo, inclina-se para aceitar a influência predominante do Nordeste do Continente, fundamentando-se nos tipos de povoação [aglomerada como em Trás-os-Montes] e de casa corvinas.

Vila Nova do Corvo, a povoação única da ilha, é de facto vincadamente aglomerada e deve ter sido o primeiro (e último) espaço de fixação local" (in APA, 2000, pág. 525).

Diga-se, porém, que nem as teses influencialistas perfilhadas pelos geógrafos portugueses dos anos 50-60 são claramente comprováveis, nem é de excluir, por regra, a possibilidade de outras leituras interpretativas, a partir de teses de tipo simultaneista, ou coincidencialista, ou seja: que para um povoamento muito concentrado e densamente aglomerado como o da Vila Nova do Corvo, poderão ter contribuído factores muito diferentes dos que condicionaram o povoamento concentrado transmontano, embora com resultados visíveis aparentemente semelhantes aos patentes em Trás-os-Montes.

Por exemplo, o isolamento excessivo e brutal, no ilhéu atlântico, empurrando a população escassa a viver em grande proximidade (e num único local), e condicionando a casa a uma implantação em terrenos acanhados (onde os dois pisos eram inevitáveis), pode ter ditado deste modo uma morfologia proto-urbana formalmente comparável à transmontana, bem como uma tipologia edificada que resulta só na aparência análoga à das casas do Nordeste continental.

Vila Nova foi elevada a vila e sede concelhia em 1832, deixando a partir de então de estar dependente de Santa Cruz das Flores, e abandonando ao mesmo tempo os vínculos arcaicos devidos secularmente pela sua sacrificada população aos anteriores donos agrários da ilha.

Medeiros refere na sua citada monografia algumas razões explicativas da expressão aglomerada do povoado único da ilha: além dos já referidos atrás (tendência linear só nas ilhas maiores e com vários núcleos; o receio de um isolamento excessivo se houvesse dispersão), este autor invoca a necessidade de protecção contra os "males do mar" (piratas, tempestades), a herança do modo de viver e de ocupar o espaço dos eventuais povoadores transmontanos (já comentado atrás), até a proximidade do único fontanário existente; e, finalmente, a necessidade de preservar as poucas terras boas para a agricultura, reduzindo ao mínimo a ocupação com construção (eis uma última hipótese que, conhecendo o peso dos "donos" terratenentes da ilha nas decisões dos primeiros séculos, é bem possível fosse determinante).

A estes aspectos há que juntar ainda outros na procura de uma compreensão objectiva de Vila Nova do Corvo: o da sua evolução, e do seu tecido proto-urbano, evolução lenta mas gradual, ao longo dos séculos, e que por via da documentação fotográfica disponível em mais de cem anos é detectável com alguma dúvida, dada a "... dificuldade em encontrar dados que confirmem a constância, ou não, das suas características desde as fases iniciais do povoamento. A própria densificação [do núcleo] pode ter sido gradual ou posterior. No século actual [XX] constatam-se apenas mudanças de pormenor (...) comuns no arquipélago: o aparecimento da policromia onde antes reinava a uniformidade [das casas em pedra à vista], o número crescente de chaminés (de introdução recente na ilha) e uma ligeira tendência para o aumento da construção moderna fora da mancha do núcleo tradicional. É na periferia deste que as maiores alterações são visíveis, acusando a modernização inevitável das comunicações: o cais acostável no Porto da Casa (dos anos 60), o aérodromo (ainda em construção em 1983) e o consequente desaparecimento de algumas terras aráveis junto aos moinhos de vento." (in APA, 2000, pag. 527).

Carlos Medeiros refere com clareza a estrutura proto-urbana de Vila Nova do Corvo (esta "vila" é-o administrativamente, mas não tem, ou não tinha até há pouco, quanto a nós, complexidade e diversidade suficientes para poder ser considerada como uma estrutura completamente "urbana" - aproximando-se mais do conceito de "aldeia" como é entendido no Continente): "... o núcleo mais cerrado de casas tem a forma grosseiramente triangular. Próximo do vértice sul está a igreja, que entesta com a rua da Matriz, a qual, durante muito tempo, limitou a povoação a ocidente. Do topo desta rua partem para oeste a do Jogo da Bola e para oriente a do Rego, que passa pelo largo do Outeiro" (Medeiros, cf. citação in APA, 2000, pág. 527).

Morfológica e climaticamente, podemos apreciar esta rua da Matriz como sendo um eixo implantado no sentido sul-norte, estruturante do crescimento do núcleo construído, entre o porto (única ligação tradicional ao exterior) e as encostas de saída para as terras agrícolas a norte - depois bifurcando entre o caminho para as ditas terras (rua do Jogo da Bola) e a rua de acesso aos espaços mais internos da povoação (para o largo do Outeiro, centro da vida cívica à roda do edifício do Império do Espírito Santo). Ao longo desta rua da Matriz, logo a seguir à igreja, as casas dispõem-se de forma perpendicular, apresentando assim as suas fachadas viradas ao sol e aos quadrantes de sul, com a melhor exposição climática possível - regra aliás alargada a outras construções habitacionais já afastadas da rua referida, mais a norte e nascente desta.

Voltemos à Arquitectura Popular dos Açores: "o resto do núcleo dilui-se num imbrincado de ruelas secundárias e irregulares, de pavimentação grosseira, permitindo aqui e acolá, a quem sobe a vila, vislumbrar parcelas do mar e da ilha vizinha. As mais interessantes são as canadas e as canadinhas, travessas estreitíssimas, por vezes com menos de um metro de largura, pavimentadas com seixos rolados, e, de vez em quando, com os desníveis vencidos por degraus, frequentemente apertadas entre as empenas cegas e altas das casas de dois pisos. A todas estas vias estão associados os meios de locomoção tradicionais (a pé ou de burro) e a separação das casas pelas canadinhas e pelos portões de madeira que, traduzindo o individualismo na marcação do território, privatizam cada um dos quintais por onde se acede às habitações." (in APA, 2000, pág. 529).

Excepcional no tipo de povoado - único e muito concentrado - que apresenta, a ilha do Corvo constitui também excepção no seu tipo de casa tradicional corrente, constituindo esta, em si mesma, uma original tipologia que não se encontra em mais nenhuma ilha do arquipélago.

Exteriormente à Vila Nova é muito esparsa a construção, reduzindo-se normalmente a abrigos para apoio a actividade agrícola, no caminho para o Caldeirão, ou a palheiros e pequenas instalações antes destinadas a fabriquetas artesanais de apoio à produção rural. Medeiros referia, no seu estudo já citado, a existência de moinhos, de um tipo original no arquipélago, mas idênticos aos do tipo continental do Sul (hoje há ainda alguns moinhos a sul-poente do povoado) e de algumas eiras no povoado.

* Arquitecto. Licenciado pela Escola de Belas Artes de Lisboa (1977). Doutorado pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa (1993), onde é professor agregado desde 1999. Professor no Departamento de Arquitectura da Universidade Autónoma de Lisboa (desde 1998). Director do Instituto de Arte Contemporânea, desde 2001. Publica regularmente artigos, textos e livros sobre arquitectura e urbanismo.
** Redigido a partir da adaptação e condensação dos textos elaborados para a obra "Enciclopédia Açoriana", sobre o "Concelho do Corvo - Urbanismo", e o "Concelho do Corvo - Arquitectura", em Abril de 2001.

O Inventário do Património Imóvel do Concelho de Vila Nova do Corvo
Breve Notícia Histórica Sobre a Ilha do Corvo
O Corvo - Originalidade de um Povoado
A Casa do Corvo
Calçadouros, Chiqueiros e Cabaças de Leite na Ilha do Corvo
Corvo. Vila Nova
Inventário do Património Imóvel dos Açores
Última actualização em 2006-03-27