Calçadouros, Chiqueiros e Cabaças de Leite na Ilha do Corvo
 

Rui de Sousa Martins*

**Na ilha do Corvo (17,1 Km2 e 393 habitantes, em 1991), a satisfação das necessidades alimentares dos grupos domésticos, concentrados num só núcleo urbano, era assegurada pelas produções agrárias (cereais, legumes, frutos), pecuárias (bovinos, porcos, galinhas) e caseiras (pão, queijo, manteiga e derivados do porco) 1. O modelo de alimentação quotidiana tradicional baseava-se no leite, no pão de milho, na carne de porco e nos legumes, distinguindo-se, no contexto açoriano, pelo elevado consumo lácteo 2, dominância testemunhada por Raul Brandão, em 1924: Vem o jantar para a mesa num grande alguidar, sopa com toucinho e batatas. Bebem o leite perfumado do cabaço que anda de mão em mão. O leite trabalha sempre, como eles dizem; bebem-no de manhã, ao fim da tarde com sopas, e lá em cima com queijo e pão. 3

A produção doméstica de lacticínios para autoconsumo alargava-se à manteiga e ao queijo e, a partir de 1919, a ilha conheceu uma activa indústria manufactureira de manteiga para exportação 4. As fábricas foram implantadas nas terras altas da ilha: a primeira, na Fonte do Trevo (baldio) e a segunda, no Cerrado Novo (relvas).

Até à década de 20 do século passado, quando chegaram à ilha as primeiras latas de leite da América e da ilha Terceira, este era exclusivamente recolhido, transportado e consumido em cabaças (Lagenaria vulgaris Ser.) que os corvinos consideravam o recipiente ideal para o efeito, mantendo-o em uso, por esta razão, ainda na década de 40, de acordo com o provérbio local: Água de barro e leite de tarro.

As vaquinhas de raça autóctone (raça do Corvo) eram de pequena estatura e não davam mais de 12 litros de leite por dia, sendo progressivamente substituídas por vacas holandesas. o gado para leite era criado nos currais das terras de cima, situados na zona oriental da ilha, entre os 200 e os 350 metros de altitude e nas relvas, pastos que se estendiam até aos 500 metros 5 As cabaceiras eram também cultivadas nas relvas 6, ao abrigo de paredes, havendo o cuidado de estrumar bem as caseiras para se obterem cabaças de leite com tarro (casco) mais grosso e resistente.

Os currais são terrenos de dimensões reduzidas, delimitados e protegidos por paredes de pedra seca, onde se abriam portais tapados com pedras 7. Na espessura das paredes, viradas a nascente, faziam-se cavidades (calçadouros, calçadas), de diferentes tamanhos, para abrigar uma ou várias cabaças de leite que se tapavam com uma laje de pedra delgadinha. A orientação dos calçadouros devia-se ao facto do sol aquecer mais no período do tarde.

No interior dos currais, normalmente a um canto, construíam-se abrigos de pseudocúpula em pedra seca (chiqueiros) para tapar os bezerros e outras estruturas idênticas, mas de menor dimensão, onde se abrigavam cabaças de leite.

Os bezerros nasciam sobretudo durante os meses de Fevereiro e Março. Quando chegava a altura de parir, as vacas eram levadas para os currais ou para os palheiros da Vila 8, sendo mais tarde mudadas, com as crias, para os currais, onde ficariam as primeiras semanas.

Homens e mulheres faziam a ordenha duas vezes por dia, de manhã, por volta das 6/7 horas solares e, à tarde, cerca das 16/17 horas. O leite tirava-se directamente para as cabaças. Estas tanto podiam ser pequenas (cabaças baleias) (0,5 a 3 litros) 9 como grandes, não devendo levar, neste caso, mais de 6 litros para não fazer mal ao bezerro, deixando-lhe pouco leite. A boca muito estreita da cabaça se, por um lado, exigia longa pratica a quem ordenhava, por outro, evitava a entrada de sujidades vindas do mojo da vaca. Depois de tapadas com rolhas de cortiça, trazida pelo mar, as cabaças tinham de ser abrigadas nos calçadouros ou nos pequenos chiqueiros especializados, não podendo ficar em contacto com a frieza da terra.

Durante a noite, a vaca permanecia no curral, comendo folhas e ervas na manjedoura e estrumando a terra onde se deitara previamente junco, enquanto o bezerro era tapado no chiqueiro. Depois da ordenha da manhã, a vaca ia para as relvas pastar a erva que entretanto tinha crescido, enquanto o bezerro era libertado no curral. Desta forma, conclui-se que os chiqueiros desempenhavam uma dupla função: abrigar as crias e controlar o acesso destas ao leite.

A ocupação dos currais pela produção leiteira durava apenas algumas semanas e, nos terrenos estrumados, cultivar-se-ia feijão (Maio) ou batata-doce (Junho) 10.

Em suma, a produção de lacticínios na ilha do Corvo articulava dois espaços distintos: o núcleo populacional e as terras altas.

O centro residencial, administrativo e cerimonial da comunidade agro-pastoril, instalado a sul, na zona baixa (30 metros) 11, perto do mar, organizava a exploração dos recursos da ilha, de acordo com os níveis ecológicos, e mediatizava as relações com o exterior. Nas terras altas (acima dos 200 metros), escalonadas em currais, relvas e baldio, no norte e no interior da ilha, criavam-se vacas e bezerros, tirava-se o leite, cultivavam-se as cabaças para o transportar e consumir, e fabricava-se manteiga para exportação.

A dupla circulação pendular de homens e mulheres, transportando as respectivas cabaças entre os dois espaços era ritmada pelas ordenhas diárias: de manhã (Vila terras) e à tarde (terras Vila).

Nas terras altas, o processo de produção leiteira estruturava-se em torno da relação vaca-bezerro que mobilizava espaços distintos, exteriores (abertos e fechados) e interiores, de acordo com a alternância dia/noite.

As vacas circulavam entre o espaço exterior fechado (currais - noite) e o exterior aberto (relvas - dia), enquanto os bezerros circulavam entre o espaço exterior fechado (currais - dia) e o espaço interior (chiqueiro - noite).

A técnica açoriana de construir com pedra seca produziu os instrumentos necessários à organização do processo produtivo (currais e chiqueiros) assim como os abrigos adequados à conservação imediata do leite recolhido em cabaças: calçadouros feitos na grossura das paredes, provavelmente a solução mais antiga, e pequenas construções de pseudocúpula, semelhantes aos chiqueiros, adoptadas para responder ao aumento da produção leiteira para as fábricas.

BIBLIOGRAFIA
Bragaglia, Pierluigi. 1997. História dos lacticínios da ilha das Flores. Perfil histórico do pioneirismo associativo da ilha das Flores e da produção e exportação dos seus lacticinios no séc. XX. Lajes das Flores, Câmara Municipal.
Brandão, Raul. s.d. As ilhas desconhecidas. Notas e paisagens. Lisboa. Perspectivas & Realidades.
Godelier, Maurice. 1984. L'ideel et le matériel. Pensée, économies, societés. Paris, Fayard.
Medeiros, Carlos. 1967. A ilha do Corvo. Lisboa, Instituto de Alta Cultura, Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa.
Saramago, João. 1992. Le parler de I'île de Corvo - Açores. Grenoble, Université de Stendhal - Grenoble III, Centre de Diolectologie.

* Agradeço a José Mendonça Inês, artista do Corvo, a colaboração empenhada que deu a este trabalho.
** Professor de Antropologia Cultural da Universidade dos Açores.
1 Recolhas efectuadas em Maio e Junho de 1986, no contexto de um projecto de pesquisa do Centro de Estudos Etnológicos da Universidade dos Açores, dedicado à utilização das cabaças na ilha do Corvo.
2 Medeiros, 1967: 200, 201.
3 Brandão, s.d.: 45.
4 A firma de Maurício Fraga das Lajes das Flores estabeleceu uma fábrica de lacticínios na ilha do Corvo, em 1919 e, no ano seguinte, os corvinos, liderados pelo Pe. Manuel de Freitas Pimentel, fundaram uma associação para exportarem directamente os seus produtos. Bragaglia, 1997: 124, 125.
5 Medeiros, 1967: 39,119-121.
6 As cabaçeiras podem ser cultivadas nas relvas porque o gado não toca nos folhas devido ao cheiro que exalam.
7 Medeiros, 1967: 123, Est. XI (A) e Saramago, 1992: 210 (Figs. 1 e 2).
8 Os palheiros existentes na zona dos currais são mais recentes.
9 As cabaças baleias tinham o gargalo mais comprido e, da forma, derivou o designação.
10 Medeiros, 1967: 132, 141.
11 Medeiros, 1967: 45.

O Inventário do Património Imóvel do Concelho de Vila Nova do Corvo
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O Corvo - Originalidade de um Povoado
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Corvo. Vila Nova
Inventário do Património Imóvel dos Açores
Última actualização em 2006-03-27